quinta-feira, 13 de maio de 2010
- Quem está… quem está… aí? – murmurava uma voz vacilante repousando no leito de véus. Era tão fraca e sem fulgor, traduzindo o estado daquele ser.
- Calma, calma, meu nome é Agatha. Agatha Vizcov Tess. Princesa do Reino Suspenso do Ar – dizia Agatha enquanto tirava o turbante, revelando os longos e sedosos cabelos ruivos iluminados pelo luar prateado.
O rei virou-se dando um sinal para que a jovem se aproximasse um pouco mais. Agatha assim o fez, e deslizou seus pés rumo ao leito. Prostrou-se ante ao Rei, não sabia como se comportar, jamais tinha ficado frente a um rei senão seu pai.
Vira, pela primeira vez, aquele homem deitado. Coberto de panos e lenços, se assemelhando a uma múmia. No rosto, uma máscara prateada cintilava à luz do luar.
- Eu… me desculpe, eu…
- SHHHHHHH- o rei silenciou com o dedo entre os teóricos lábios – Tess… hã…
Agatha não entendeu de pronto. O que ele gostaria de lhe dizer?
- Há muito e muito tempo eu conheci uma jovem condessa. Ela era bonita e doce e meiga… – o rei contava como quem conta um devaneio. Agatha apenas ouvia pacientemente – Mas um dia ela foi embora, ela se casou com o Príncipe do Reino do Ar e nunca mais voltou.
Sim, finalmente a jovem o compreendera. Então sua avó era uma nobre do Reino do Ar!
- Mas não vejo em você nada daquela nobre…
Agatha lembrou-se de sua infância e do turbante deixado no chão. Não era a primeira vez que alguém falava da sua falta de semelhança com sua família, e não seria a última. Aquilo não mais lhe incomodava, era algo que teria de conviver pra sempre mesmo.
Um pequeno solavanco na porta, ela se abriu com tamanha força e vigor. Dela saíram vários seguranças, dois deles segurando duas inquietas moças, uma loira e uma morena. Do pequeno aglomerado de gente, saíam dois homens de meia-idade, usando vestes nobres e semblantes autoritários.
- Prendam-na – ordenou o primeiro. Dois seguranças avançavam na direção de Agatha, que receosa, recuou mais.
- NÃOO – o rei se opôs com certo vigor.
- Mas meu senhor – repetia o segundo dos homens – O cabelo dessa jovem é vermelho! Ela é uma espiã do Império do Fogo! E essas jovens, aquela é uma ladra procurada e a outra uma traidora do Reino da Água…
- Esta jovem é a herdeira do Reino Suspenso do Ar. Deve ser tratada como em seu reino, como a princesa que deveras é.
Os dois homens entreolharam-se e deixaram os seguranças liberarem as jovens. Ainda que a contragosto.
- Como quiser, majestade.
Agatha acordou com os raios solares envolvendo e iluminando seu pálido rosto de princesa recém saída do castelo. Pelo alvoroço na cozinha, presumiu que Lena e Vicky estavam acordadas.
Vestiu o robe perolado e se deparou com o motivo da gritaria. Surpreendeu-se ao ver os homens, cônsules daquele país, à sua espera na sala.
- O que vocês querem? – perguntou Agatha, cujo humor não era dos melhores ao ser subitamente acordada.
- O rei solicita vê-la… alteza – respondeu o cônsul, com tal rispidez nas palavras, como se estivesse com nojo.
- E minhas damas de companhia?
- Serão tratadas como Vossa Alteza desejar.
- Uma charrete à disposição delas? – desafiou Agatha.
- Como? – perguntou o cônsul incrédulo.
- Disseram que serão tratadas conforme o meu desejo. É isso o que quero.
O cônsul não teve outra escolha a não ser conceder o desejo da convidada. Lena ficou entusiasmada, aproveitaria a oportunidade para ir à Universidade. Vicky não pareceu tão feliz. Talvez não apreciasse a companhia de dois brutamontes do governo. (Ou talvez os lugares que frequentasse não permitisse isso).
Agatha foi conduzida pelo cônsul até a charrete, onde o segundo estava esperando-na. Aquele país, como Lena lhe dissera, apesar de ser um Reino, se chamava República da Terra, e era governado por dois cônsules. O motivo, Agatha ficara sabendo, o rei era doente, doente o bastante até para ignorar a situação do seu próprio reino.
- Bem-vinda senhorita – saudou hipocritamente o segundo cônsul.
- Bom dia – respondeu apaticamente Agatha.
Os cavalos trotavam pelas ruas de pedra. Na cabine, os cônsules insinuavam coisas à princesa.
- Vai ficar quanto tempo, princesa? – perguntou um deles.
- Tempo suficiente pra resolver questões diplomáticas.
- Espero que saiba o que está fazendo, Alteza. – falou ironicamente o outro.
- O que o senhor quer insinuar com isso? – disse Agatha, sendo objetiva.
- Nós não queremos insinuar nada, Alteza. Apenas que saiba que antes de dizer algo desnecessário ao rei, compreenda como é este país.
- Compreendo muito mais que os senhores, pode apostar!
Ambos deram sorrisos sarcasticamente falsos. E prosseguiram com a viagem.
Agatha foi levada até um pequeno palacete, adornado com flores e árvores. O jardim, tão amplo, continha um lago bonito, onde carpas nadavam. O rei estava sentado à beira do lago, a toalha xadrez estendida e várias guloseimas sob ela.
- Muito obrigada por nos defender, Majestade – agradeceu a pequena princesa – Não é a primeira vez que eu me meto em confusões por causa do meu cabelo vermelho!
- Eu li o pergaminho que sua mãe me enviou – disse o Rei – Eu… nem sei o que dizer.
- Imagino… a algumas semanas eu era como Vossa Majestade. Eu também era ignorante e não sabia o que acontecia em meu reino. Não sabia as atrocidades que o Império do Fogo cometia contra o meu povo e contra os outros. Vi a miséria no Reino da Água e o sofrimento na República da Terra.
- Os meus cônsules fazem de tudo para manter esse reino bem.
- Me desculpe, mas acho que não fazem o suficiente. – apontou Agatha, relembrando todas as intrigas em que se metera pela corrupção dos soldados – O senhor não faz ideia do que eu vi neste reino! Os seus soldados estão se vendendo a moedas para o Império do Fogo e logo logo eles irão chegar à Capital.
- Não conseguirão! – o Rei tentou convencê-la – Nossas barreiras são intransponíveis.
- Bem, se o senhor prefere acreditar nisso… – ela se levantou, mas hesitou depois que viu um gesto do rei.
- Não ache que o meu reino é governado por dois cônsules porque eu assim quis! Eu precisei fazer isto!
Agatha sentou-se novamente. E quis ouvir o porquê de um Reino se transformar em uma República.
A cinquenta anos atrás, havia um rei e ele era casado com a dama mais bela de todo o Reino. Apesar de ter dinheiro, poder e a mulher mais bela em sua cama, ele não se contentava com isso.
O rei tinha várias concubinas e era especialmente maldoso com elas, e com seu povo. Depois que alguma delas engravidava, ele mandava que lançasse o bebê no Abismo do Medo. Apesar de possuir vários filhos com suas amantes, ele não reconhecia nenhum e sua esposa não conseguia dar ao Reino um herdeiro.
Um dia, a Deusa Terra, com pena da rainha, concedeu à ela um filho varão, saudável e forte. A Rainha, então, ficara muito grata à Deusa.
Porém, o Rei continuava a praticar suas maldades contra o povo e contra seus filhos ilegítimos. A Deusa Terra se arrependeu de ter concedido a graça ao Rei ao ver o desespero das mães com seus filhos descartados. Como punição, profanou a pele do herdeiro com uma doença que nem os homens mais sábios do mundo curaria. O herdeiro jamais poderia tocar uma mulher, e assim, nunca daria filhos ao Reino da Terra.
E logo quando ele completou quinze anos, quando estava apaixonado por ela, uma bela condessa. Nunca poderia casar-se com ela, nem poderia tocá-la e dar-lhe filhos. Assim, aquele palácio feito para ela ficaria como uma lembrança nostálgica. E ela, estaria feliz, quem sabe, ao lado do Rei do Ar e lhe deu um filho forte e varão.
- Eu não sabia, me desculpe – balbuciou Agatha.
- Agora Vossa Alteza entende, entende o porquê deste Reino estar fadado a ser uma República.
Marcadores: Lena Brown, Princesa Agatha Tess, Rei da Terra, República da Terra, Vicky Valentine
domingo, 2 de maio de 2010
Marcadores: Lena Brown, Princesa Agatha Tess, República da Terra, Vicky Valentine
sábado, 3 de abril de 2010
Marcadores: Lena Brown, Princesa Agatha Tess, República da Terra, Vicky Valentine
quarta-feira, 31 de março de 2010
As injúrias do capitão só foram caladas por uma bota de mulher. A mesma mulher loura que começara aquilo tudo.
Marcadores: Lena Brown, Princesa Agatha Tess, República da Terra, Vicky Valentine
domingo, 28 de março de 2010
Marcadores: Lena Brown, Princesa Agatha Tess, República da Terra, Vicky Valentine
sábado, 20 de março de 2010
Vicky Valentine olhou a sala de cima a baixo expressando asco por tudo que vira. Apenas sentou-se num dos bancos de concreto, cruzou as pernas, e cantarolou alguma coisa. Sua voz só foi calada quando as mãos de uma morena possessa agarraram seus cabelos.
Lena arrancou-lhe dois ou três chumaços de cabelos antes de ser apartada por Agatha. A loira passava as mãos na cabeleira, e resmungava:
- Ficou doida?? O que eu fiz pra você?
- O que você fez? Você ainda tem a audácia de perguntar o que você fez? Por sua causa estamos nessa situação!
- Minha causa? - defendeu-se Vicky - Eu nunca te vi na vida garota! A única que eu prejudiquei foi essa garota aí.
Vicky apontou para Agatha, sentada no banco que tinha seu olhar distante e vago. A loira se ajoelhou em frente a ela, e, unindo suas mãos às dela, pediu perdão:
- Foi malz aê.
Lena levou a mão à cabeça, repugnando-se da atitude da outra. "Foi malz aê, é tudo o que ela fala?" pensou.
- Se eu quisesse teria matado ela fácil, fácil - disse Vicky, como se estivesse lendo a mente das duas - Mas não quis... Não mato as pessoas por causa de outras... principalmente por causa do Oliver.
- Oliver? - perguntou Agatha, despertando do aparente transe - Você quis dizer Oliver Gardner?
Vicky confirmou com um aceno. Lena levou a mão à cabeça mais uma vez.
- Então ele mandou você me matar! Por quanto?
- 500 moedas de ouro iniciais e mais 500 quando terminasse. - respondeu Vicky.
- E naturalmente não terminou o serviço porque viu o monte de grana que poderia ganhar com as coisas da Agatha né?
Vicky deu de ombros. Não queria admitir, mas sim, a morena de gênio forte estava certa.
- E onde estão as coisas que você roubou?
- Deixe-me ver... - pensava Vicky, com a mão no queixo e olhando pra cima - A tiara ainda tá comigo, ou melhor, tava, porque os policiais pegaram quando me revistaram...
Agatha soltou um suspiro de alívio. Não seria nada bom se a tiara real do Reino Suspenso do Ar estivesse por aí.
- Tinha um convite pro baile real lá na capital... esse eu tive que dar pro atravessador... miserável!
Agatha abriu a boca estupefata. Vicky roubara o convite que lhe permitia a audiência com o Rei, conforme a mãe pedira. E agora, o que faria?
- Também tinha um colar muito bonito, com um rubi desse tamanhão ó! Esse aí me rendeu uma boa grana, quase quarennta moedas de ouro!
Lena tentou mais uma vez pular no pescoço de Vicky. Agatha se debulhou em lágrimas, tinha aquele colar desde muito cedo, desde que era uma criancinha. Sua mãe lhe dizia que era uma herança de família.
Não era possível determinar quanto tempo havia se passado. A noite terminara... o dia estava raiando. Nenhuma das três jovens dormira... estavam todas com olheiras notáveis. A mais jovem das três tinha seus olhos castanhos inchados do choro. A morena andava de um lado para o outro, enquanto a loira vez ou outra cantarolava alguma coisa.
- E se a gente fugir daqui hein? - sugeriu Vicky - Já notei que a garota ali é inteligente, podemos bolar um plano e dar o fora daqui.
- O que? Sermos foragidas da justiça? - estranhou Lena.
- Qual o problema? Nós já estamos sendo caçadas pelo Império do Fogo!! Aliás, se demorarmos aqui, logo logo seremos entregues para os soldados e nossas coisas serão vendidas!
- Ela tem razão - concordou Agatha.
O cheiro ocre no ar, as celas oxidadas, as paredes cobertas de musgo e desenhos obscenos e pra completar a horrível lavagem servida aos detentos. Estavam na última e na pior cela do corredor escuro: os policiais morriam de medo da má influência de Vicky Valentine, um motim seria o fim.
Foi a distância e o afastamento que contribuiu para que as moças arquitetassem um plano simples, mas que necessitava de toda a habilidade de Agatha, habilidade que nem mesmo ela sabia dominar.
Suas mãos queimavam... já estavam vermelhas... poderia reclamar da dor? Não, isso seria injusto. Não apenas fugiriam, teriam que recuperar a tiara de Agatha e as armas de Vicky.
A de baixo estava solta, as condições da barra de metal contribuíram fortemente para isso. Usar o dom de fogo nas mãos da princesa foi uma ideia boba de Lena, mas que as outras duas acataram com satisfação. No período da tarde, onde os policiais não as importunavam, Agatha terminou o serviço na parte de cima. Pronto! Duas barras soltas seria o suficiente para que as três estivessem livres da cela.
Conforme Vicky Valentine, a madrugada seria a hora perfeita. Não ficavam muitos soldados guardando a delegacia, e os que ficariam, com certeza estariam sonolentos demais. Dito e feito. As duas barras de metal que Agatha derretera usando os dons de fogo foram removidas e uma a uma, elas avançavam pelo corredor escuro, com ligeiros passos.
Assim como Vicky previra, haviam dois soldados. Um cochilava com profundos roncos. O outro resistia a dormir, sentado na cadeira fazendo palavras cruzadas.
Vicky deslizou até o dorminhoco e apertou com demasiada força o pescoço gordo. O homem despertou assustado, a face pouco a pouco se avermelhando. Quando o companheiro se moveu, Agatha e Lena imitaram a companheira: Lena segurou-o pelos braços, enquanto Agatha pegava a arma. A princesa apontou para a cabeça dele, arrancando um sorriso de Vicky, que fizera o mesmo.
- Estouro seus miolos se não devolver nossas coisas! - ameaçou Vicky.
Lena soltou o outro e olhava ameaçadoramente para os soldados, na mira de duas garotas.
O gordo apontou para a gaveta embutida na mesa, sinalizando que a chave estaria ali. Lena abriu-a e pegou a pequenina chave de zinco. Depois, o gordo apontou para um velho armário oxidado.
Lena abriu o armário e tirou seis pistolas de diversos tamanhos, um colete de balas, e várias bolsinhas com facas e canivetes. Tirou também a mochila da garota e seu arco desmontável.
- Agatha, abre todas as celas! E você, senhorita certinha, pega as chaves do almoxarifado e pega tudo o que puder!
- Peraí, Vicky! Vamos libertar bandidos e roubar a polícia?
- Lena - interveio Agatha - Esses policiais são corruptos, certamente há pessoas presas porque o Império do Fogo quer!
O sol esboçava amanhecer quando as três estavam a uma distância segura da cidade. Todas exibiam em seus rostos a expressão de insônia que as perseguia há dias. A poucas horas estavam em uma cadeia suja e podre, agora estavam num botequim de beira de estrada. Agatha saboreava torrada com leite, Lena bebericava café e Vicky já estava em sua segunda dose de rum.
- Pra uma princesa até que você não é ruim! E nem você, senhorita nerd!
- É Lena Brown! - corrigiu Lena - Lena Brown!
- É, mas agora não temos dinheiro, e precisamos chegar à Capital dentro de dois dias e falar com o Rei!
- É... e entrar de penetra no baile, já que ALGUÉM vendeu o convite... - ressaltou Lena, olhando categoricamente pra Vicky.
- Já disse que foi mal!
- É, mas você deve tanto à Agatha que...
- Você também saiu da cadeia graças à Agatha... - rebateu Vicky.
- Querem calar a boca vocês duas! - pediu Agatha - Vocês falam, falam e falam, mas quem vai se ferrar bonito se não chegar à Capital sou eu. Não sei que tipo de coisa tem na correspondência da mamãe, mas tenho certeza que é alguma coisa muito importante!
As duas suspiraram. Agatha tinha razão: não seria problema de nenhuma delas se Agatha chegasse ou não.
- Eu sempre quis ir num baile real... Provavelmente muitos intelectuais estarão lá! - comentou Lena.
- E muitos milionários também - completou Vicky.
Agatha tirou da bolsa uma moeda de bronze, uma das únicas que sobrara. Pagou o consumido e se retirou do botequim. Ao seu lado ia Lena Brown, a intelectual e Vicky Valentine, a ladra. Companhia perfeita? Talvez não... Mas a partir daquele dia, os destinos das três estariam mais entrelaçados que uma simples fuga da cadeia ou um café da manhã num botequim de beira de estrada.
Marcadores: Lena Brown, Princesa Agatha Tess, República da Terra, Vicky Valentine
Aquela cidadezinha se chamava Recanto das Pedras. Não se recordara de estar ali antes, mesmo que conhecesse o deserto como a palma de sua mão. Certamente estaria segura ali. Mas Oliver realmente a caçaria por todo o deserto?
Optou por uma estalagem suspeita. Tudo ali parecia terrivelmente empoeirado e terrivelmente mal cuidado. Os donos eram velhos e mal humorados. Ficaram felizes em receber o punhado de moedas de cobre. A velha apenas resmungou enquanto subia com Vicky. "Mais uma dessas bonitonas, que chato!".
Vicky se deitou na cama pensando o quanto poderia ganhar: de tempo e de dinheiro. Estava numa cidade estranha, poderia enganar a quem quisesse. Quem sabe dar mais um golpe do baú em algum velho rico?
Lena tocava a sineta sem parar enquanto batia o pé impaciente. Agatha olhava de um lado para o outro até achar o velho preguiçoso que dormia embaixo do balcão.
A velha desceu da escadaria resmungando palavras sem nexo. Não pareceu muito feliz ao encontrar as duas paradas no hall.
- O que vocês querem?
- Não é óbvio? - ironizou Lena - O melhor quarto, por favor.
- É caro. Três moedas de prata por dia! E sem comida!
Lena tirou as três moedas e as colocou em cima do balcão. Passou pela velha resmungando.
- Vai roubar pra ser feliz!
Agatha continuou no hall olhando sonhadoramente para as pinturas na parede. Não tinha muito o que se ver: um papel de parede brega e descascado; pinturas baratas feitas por artistas de rua.
- Vai subir não garota? - perguntou a velha.
- Me desculpe senhora, só estava... vendo.
- Deve ser mais uma riquinha!
- Ela é a Princesa... - murmurou o velho vindo debaixo do balcão - Princesa do Reino do Ar.
Ideias eram coisas que lhe apareciam rapidamente. Bastava esfriar a cabeça que elas brotavam como flores na primavera. Precisava dar um golpe, não pelo dinheiro, mas para sua própria auto-estima: ficar muito tempo descansando não era de seu feitio e até lhe deixava sufocada. Causava tal abstinência, era seu vício, seu dom e sua maldição.
Abrira a mochila de lona para ver o que ainda lhe restava: a tiara de um metal muito precioso, precioso demais para que ela vendesse. Ela entraria para sua coleção valiosíssima, aquela que não venderia nem que passasse necessidade. Viu também num embrulho um envelope timbrado, perdido num lenço de seda real (que ela ia vender). O timbre era da República da Terra. A mensagem: um baile real na capital.
Seus olhos iluminaram-se frente às oportunidades que vira. Um baile na capital, VIP, cheios de milionários dando sopa... Oportunidade mais que perfeita de dar mais um golpe perfeito!
- Por que você acha que vamos achar a Vicky Valentine nesse fim de mundo? - perguntava Lena - Pra que você acha que ela se esconderia nesse final de mundo.
- Pense um pouquinho Lena... Como você explicaria isso? - Agatha apontou para uma página recém-colada. Nela, uma foto grande de uma Vicky sorridente e debochada aparecia sob a recompensa de mil peças de ouro.
- Oliver... - concluiu Lena - Então ela trabalhava pra ele...
- E se eu estou vivinha da Silva...
- É porque ela passou a perna no Oliver também... Meu Deus, que mulher bandida!
Agatha sorriu satisfeita. Isso até se lembrar de um pequeno detalhe...
- Se o cartaz da Vicky chegou até aqui...
Não muito longe dali, a mulher de cabelos dourados também via o cartaz perplexa. Não só isso. Via pelo horizonte cavalos-de-fogo chegarem pela planície desértica. Ele a tinha encontrado? Impossível! Um de seus melhores atributos era fugir sem deixar rastros! Mas o exército de Oliver Gardner fora capaz de chegar até ali e a seguiria até o fim.
Tarde demais... seu rosto era conhecido ali, e os habitantes picaretas daquele lugar certamente a entregaria... Não se ela fosse mais esperta e saísse daquele fim de mundo o mais rápido possível. Teria de barganhar com todas as suas armas... Ir à capital, onde Oliver não poderia ir...
Lena tentava barganhar com um atravessador a maneira mais discreta de deixar aquele lugar. O mercador percebia o seu desespero e tentava arrancar o dinheiro que elas não tinham.
- Seis moedas de ouro! Isso é um assalto à mão armada senhor! Não temos todo esse dinheiro!
- Eu sei que a senhorita viaja com a Princesa do Ar...
- Tudo o que posso pagar ao senhor é quinze moedas de prata - interveio Agatha - se o senhor quiser, posso assinar um documento, um título que o senhor pode cobrar quando apresentar ao meu reino!
Ao lado delas, mais uma pobre alma deixava aquele lugar. Estava envolta de trapos imundos e não dizia uma só palavra e nem mostrava uma só parte do corpo que permitiria definir que fosse homem ou mulher. Apenas respirava fulgazmente, como se fosse asmático.
A viagem não era nada confortável, o calor era intenso e o fedor dos animais da caçamba incomodova bastante. A carroça, que andava a passos de tartaruga parou de vez, seguidas por vozes truculentas.
Agatha e Lena notaram que o condutor desceu da charrete e conversou duas ou três palavras. Em seguida, levou dois soldados da República da Terra que retirou a lona que as envolvia. Outros três forçaram as jovens a descer, elas relutavam em se identificar.
Por baixo do véu, Agatha notou que o condutor fez um sinal afirmativo. Um dos soldados tirou o véu das duas e deu um sorriso afirmativo.
O outro ser maltrapilho foi agarrado por dois policiais. Deu um pisão de pé em um, e rendeu o outro. Apontou uma pistola. Deixou cair seu véu. Revelou sua identidade.
A cabeleira excessivamente loura, os olhos azuis faíscantes, a pele levemente dourada pelo sol, o semblante desafiador!
- Baixe a arma mocinha! - ordenou o soldado - Ou vai se arrepender!
- Eu dou as ordens aqui! - repreendeu Vicky - Quer que eu estoure os miolos do seu amigo?
Não. Vicky não dava as ordens. Em questões de segundos foi cercada por vinte soldados apontando pistolas para ela. Tinha de reconhecer que fora pega e pôr a pistola no chão.
terça-feira, 16 de março de 2010
Agatha ergueu-se impetuosamente, como se sua vontade tivesse sido acendida por algo desconhecido. Então ela era Vicky Valentine, a mulher intocável, a quem ninguém na história daquele país havia conseguido.
Ela entrou naquele bar que há alguns anos já havia frequentado. Mas desta vez não viera trabalhar (leia-se enganar alguém) e sim desfrutar dos prazeres da vida. Beber o melhor uísque, o melhor rum e ouvir as melhores músicas.
Aquele rosto familiar sorria displicentemente sob o cartaz: "Procurada". Abaixo diversos crimes que ela praticara e que sorria de prazer ao vê-los, como se tivesse orgulho disso. Inúmeros assaltos, estelionato, falsidade ideológica, contrabando, curandeirismo, formação de quadrilha, etc, etc e etc. Mas hoje não estava ali para rir de seu próprio "currículo" e sim para gastar um pouco do dinheiro obtido da venda de um belo rubi.
Oliver Gardner não era bem vindo ali, mas isso não significava que não era bem recebido, mesmo hipocritamente. Há anos a República da Terra dizia declarar guerra ao seu país, mas a cada dia, cada vez mais cidadãos do Império do Fogo se apropriavam da praia alheia.
Andava de um lado pro outro, possesso de raiva, descontando nos subordinados toda a raiva que sentia de si mesmo. Não era o primeiro, e nem seria o último a ser enganado por Vicky Valentine.
- Maldita ladra! - repetia - Eu vou te encontrar, nem que seja no inferno!!
Vicky atravessou pela porta, segura de si dos pés à cabeça. Os homens aglomerados sob a mesa de carvalho viraram automaticamente seus rostos quando viram a imagem conhecida:
- Quem é viva sempre aparece, Vicky! - saudou um gordo e barbudo do meio da roda. Vicky se sentou numa das cadeiras da roda e espiou para ver qual era a boa.
- Vai apostar, gata?
- Dez moedas de ouro no 27 vermelho!
- Tá cheia da nota hein, Vicky! - admirou-se um deles - Quem foi que cê enganou desta vez?
- Um servicinho aí, bem legal até!
Perdia, ganhava, a vida era um jogo. Uma faca de dois gumes como ela. Mas uma faca poderia ficar cega... A porta foi escancarada escandalosamente por alguns soldados do fogo. Seus rostos foram direcionados justamente para a única mulher no saloon.
- Nem acredito que serei o primeiro a pegar Vicky Valentine, a cobra do deserto!
Trazia consigo um cartaz, prometendo mais quinhentas peças de ouro. Não se lembrava de nenhum bandido que valesse mais que isso.
A poeira invadiu o saloon, mas não do deserto. Dezenas de homens entrelaçaram-se, cada um tentando capturar a loira. Mas apesar de sua presença ser a mais marcante daquele local, ela conseguiu escapar rastejando tal e qual seu apelido, e ainda levando as moedas dentro dos bolsos de seus "companheiros".
Sempre escapara, não importava como. Estava acostumada a dar golpes em todos: do simples operário ao fazendeiro rico. Sempre usando sua beleza natural e a inteligência desenvolvida pela necessidade. Mas agora ela enganara duas pessoas de uma vez, duas pessoas da realeza e tinha um exército inteiro no seu pé. Tinha ido longe demais?
Marcadores: Lena Brown, Oliver Gardner, Princesa Agatha Tess, República da Terra, Vicky Valentine
