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Louca/Estranha/Anormal/Distante/Fria/Egocêntrica E muitas outras mais... Autora de Angelus, Tokyo Revivers e A Cor da Lágrima, codinome: Horigome Namika
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quinta-feira, 13 de maio de 2010

Por este país

- Quem está… quem está… aí? – murmurava uma voz vacilante repousando no leito de véus. Era tão fraca e sem fulgor, traduzindo o estado daquele ser.

- Calma, calma, meu nome é Agatha. Agatha Vizcov Tess. Princesa do Reino Suspenso do Ar – dizia Agatha enquanto tirava o turbante, revelando os longos e sedosos cabelos ruivos iluminados pelo luar prateado.

O rei virou-se dando um sinal para que a jovem se aproximasse um pouco mais. Agatha assim o fez, e deslizou seus pés rumo ao leito. Prostrou-se ante ao Rei, não sabia como se comportar, jamais tinha ficado frente a um rei senão seu pai.

Vira, pela primeira vez, aquele homem deitado. Coberto de panos e lenços, se assemelhando a uma múmia. No rosto, uma máscara prateada cintilava à luz do luar.

- Eu… me desculpe, eu…

- SHHHHHHH- o rei silenciou com o dedo entre os teóricos lábios – Tess… hã…

Agatha não entendeu de pronto. O que ele gostaria de lhe dizer?

- Há muito e muito tempo eu conheci uma jovem condessa. Ela era bonita e doce e meiga… – o rei contava como quem conta um devaneio. Agatha apenas ouvia pacientemente – Mas um dia ela foi embora, ela se casou com o Príncipe do Reino do Ar e nunca mais voltou.

Sim, finalmente a jovem o compreendera. Então sua avó era uma nobre do Reino do Ar!

- Mas não vejo em você nada daquela nobre…

Agatha lembrou-se de sua infância e do turbante deixado no chão. Não era a primeira vez que alguém falava da sua falta de semelhança com sua família, e não seria a última. Aquilo não mais lhe incomodava, era algo que teria de conviver pra sempre mesmo.

Um pequeno solavanco na porta, ela se abriu com tamanha força e vigor. Dela saíram vários seguranças, dois deles segurando duas inquietas moças, uma loira e uma morena. Do pequeno aglomerado de gente, saíam dois homens de meia-idade, usando vestes nobres e semblantes autoritários.

- Prendam-na – ordenou o primeiro. Dois seguranças avançavam na direção de Agatha, que receosa, recuou mais.

- NÃOO – o rei se opôs com certo vigor.

- Mas meu senhor – repetia o segundo dos homens – O cabelo dessa jovem é vermelho! Ela é uma espiã do Império do Fogo! E essas jovens, aquela é uma ladra procurada e a outra uma traidora do Reino da Água…

- Esta jovem é a herdeira do Reino Suspenso do Ar. Deve ser tratada como em seu reino, como a princesa que deveras é.

Os dois homens entreolharam-se e deixaram os seguranças liberarem as jovens. Ainda que a contragosto.

- Como quiser, majestade.

Agatha acordou com os raios solares envolvendo e iluminando seu pálido rosto de princesa recém saída do castelo. Pelo alvoroço na cozinha, presumiu que Lena e Vicky estavam acordadas.

Vestiu o robe perolado e se deparou com o motivo da gritaria. Surpreendeu-se ao ver os homens, cônsules daquele país, à sua espera na sala.

- O que vocês querem? – perguntou Agatha, cujo humor não era dos melhores ao ser subitamente acordada.

- O rei solicita vê-la… alteza – respondeu o cônsul, com tal rispidez nas palavras, como se estivesse com nojo.

- E minhas damas de companhia?

- Serão tratadas como Vossa Alteza desejar.

- Uma charrete à disposição delas? – desafiou Agatha.

- Como? – perguntou o cônsul incrédulo.

- Disseram que serão tratadas conforme o meu desejo. É isso o que quero.

O cônsul não teve outra escolha a não ser conceder o desejo da convidada. Lena ficou entusiasmada, aproveitaria a oportunidade para ir à Universidade. Vicky não pareceu tão feliz. Talvez não apreciasse a companhia de dois brutamontes do governo. (Ou talvez os lugares que frequentasse não permitisse isso).

 

Agatha foi conduzida pelo cônsul até a charrete, onde o segundo estava esperando-na. Aquele país, como Lena lhe dissera, apesar de ser um Reino, se chamava República da Terra, e era governado por dois cônsules. O motivo, Agatha ficara sabendo, o rei era doente, doente o bastante até para ignorar a situação do seu próprio reino.

- Bem-vinda senhorita – saudou hipocritamente o segundo cônsul.

- Bom dia – respondeu apaticamente Agatha.

Os cavalos trotavam pelas ruas de pedra. Na cabine, os cônsules insinuavam coisas à princesa.

- Vai ficar quanto tempo, princesa? – perguntou um deles.

- Tempo suficiente pra resolver questões diplomáticas.

- Espero que saiba o que está fazendo, Alteza. – falou ironicamente o outro.

- O que o senhor quer insinuar com isso? – disse Agatha, sendo objetiva.

- Nós não queremos insinuar nada, Alteza. Apenas que saiba que antes de dizer algo desnecessário ao rei, compreenda como é este país.

- Compreendo muito mais que os senhores, pode apostar!

Ambos deram sorrisos sarcasticamente falsos. E prosseguiram com a viagem.

 

Agatha foi levada até um pequeno palacete, adornado com flores e árvores. O jardim, tão amplo, continha um lago bonito, onde carpas nadavam. O rei estava sentado à beira do lago, a toalha xadrez estendida  e várias guloseimas sob ela.

- Muito obrigada por nos defender, Majestade – agradeceu a pequena princesa – Não é a primeira vez que eu me meto em confusões por causa do meu cabelo vermelho!

- Eu li o pergaminho que sua mãe me enviou – disse o Rei – Eu… nem sei o que dizer.

- Imagino… a algumas semanas eu era como Vossa Majestade. Eu também era ignorante e não sabia o que acontecia em meu reino. Não sabia as atrocidades que o Império do Fogo cometia contra o meu povo e contra os outros. Vi a miséria no Reino da Água e o sofrimento na República da Terra.

- Os meus cônsules fazem de tudo para manter esse reino bem.

- Me desculpe, mas acho que não fazem o suficiente. – apontou Agatha, relembrando todas as intrigas em que se metera pela corrupção dos soldados – O senhor não faz ideia do que eu vi neste reino! Os seus soldados estão se vendendo a moedas para o Império do Fogo e logo logo eles irão chegar à Capital.

- Não conseguirão! – o Rei tentou convencê-la – Nossas barreiras são intransponíveis.

- Bem, se o senhor prefere acreditar nisso… – ela se levantou, mas hesitou depois que viu um gesto do rei.

- Não ache que o meu reino é governado por dois cônsules porque eu assim quis! Eu precisei fazer isto!

Agatha sentou-se novamente. E quis ouvir o porquê de um Reino se transformar em uma República.

A cinquenta anos atrás, havia um rei e ele era casado com a dama mais bela de todo o Reino. Apesar de ter dinheiro, poder e a mulher mais bela em sua cama, ele não se contentava com isso.

O rei tinha várias concubinas e era especialmente maldoso com elas, e com seu povo. Depois que alguma delas engravidava, ele mandava que lançasse o bebê no Abismo do Medo. Apesar de possuir vários filhos com suas amantes, ele não reconhecia nenhum e sua esposa não conseguia dar ao Reino um herdeiro.

Um dia, a Deusa Terra, com pena da rainha, concedeu à ela um filho varão, saudável e forte. A Rainha, então, ficara muito grata à Deusa.

Porém, o Rei continuava a praticar suas maldades contra o povo e contra seus filhos ilegítimos. A Deusa Terra se arrependeu de ter concedido a graça ao Rei ao ver o desespero das mães com seus filhos descartados. Como punição, profanou a pele do herdeiro com uma doença que nem os homens mais sábios do mundo curaria. O herdeiro jamais poderia tocar uma mulher, e assim, nunca daria filhos ao Reino da Terra.

E logo quando ele completou quinze anos, quando estava apaixonado por ela, uma bela condessa. Nunca poderia casar-se com ela, nem poderia tocá-la e dar-lhe filhos. Assim, aquele palácio feito para ela ficaria como uma lembrança nostálgica. E ela, estaria feliz, quem sabe, ao lado do Rei do Ar e lhe deu um filho forte e varão.

- Eu não sabia, me desculpe – balbuciou Agatha.

- Agora Vossa Alteza entende, entende o porquê deste Reino estar fadado a ser uma República.

domingo, 2 de maio de 2010

Cap. 21 O Baile

Vicky acordara cedo e voltara logo depois que Agatha havia terminado o café da manhã. Trazia consigo três ingressos e deu cada um às companheiras
- Como você arrumou isso? - perguntou Lena, já julgando que a garota arrumara os convites ilicitamente.
- Não roubei se é isso o que você está pensando! - respondeu Vicky - Eu diria que... ganhei.
- Desculpe por perguntar, mas eu queria saber como você conseguiu nossas entradas.
- Tá, tá... se vocês insistem...
Aquele local da cidade era considerado suspeito, até mesmo para Vicky, acostumada àquele mundo. Mas daquela vez, as atenções estavam voltadas para a dama de vestido de veludo, que desde cedo, apostava com furor. A madrugada já entrara, quando a loira se aproximou dela, já pressentindo que a dama seria uma vítima fácil.
- A fim da melhor aposta da noite? - propôs Vicky.
- Não me interesso por poucos trocados, se quer saber - a lady anunciava suas condições - Já perdi muito nesta noite.
- Tenho certeza de que a senhorita se interessará por isso - Vicky tirou da bolsa o colar de rubi que pertencia à Agatha, certamente sem o consentimento dela – Jóia exclusiva do Trono do Fogo! Legítima!
Os olhos dela faiscaram de cobiça ante ao colar. Caíra no papo da maior trapaceira do mundo.
- A aposta terá que ser alta.
- Aposto o que eu tiver! – disse a lady desesperada – Aposto minhas entradas para o Baile Real.
Vicky deu um sorriso de satisfação. Sua intuição não falhara.
- Agora sim, você está falando a minha língua!
A mulher tirou as entradas e as colocou em cima da mesa. Suas mãos foram seguras pela dama de companhia, uma mocinha de pouco mais de vinte anos.
- Condessa Lilac, a senhora não pode!
- Pára de falar Gertrude! – censurou a outra – Esta é uma oportunidade única e eu não posso perde-la
Antes ela tivesse ouvido a empregada. Condessa Lilac era tão ruim no jogo que Vicky nem precisou utilizar-se dos dados viciados que sempre carregava.
- Foi muita sorte mesmo Vicky! – exaltou Agatha – Graças à você estaremos no Baile.
- Ela não fez nada mais que a obrigação Agatha! – ressaltou Lena – Afinal, ela que perdeu a sua entrada não foi?
Agatha se vestira impecavelmente como a Princesa de contos de fadas que foi criada para ser. Lena andava de queixo erguido, se esforçando a todo custo para não cair do sapato alto, Já Vicky agia com naturalidade no Baile, fazendo cara de moça de família, enquanto os olhos astutos caçavam por homens ricos e ingênuos.
Agatha foi seguida de perto por Albert Laprel, um rapaz elegante, porém um tanto vazio, que ostentava o cargo de ministro da Cultura.
- Vossa Alteza deveria ter-nos anunciado vossa presença! – dizia – Com certeza, nossos cônsules a receberiam com a cortesia esperada de uma aliada.
- Fico contente por isso, senhor! – repetia Agatha, cansada da intromissão do ministro – Mas preciso, de verdade, falar com o Rei…
Albert parecia não ter ouvido. Continuava a tagarelar sobre as benfeitorias dos cônsules.
Já estava tarde, e como Agatha lastimava, o Rei não aparecia. Embora o horário já fosse bastante adiantado, os nobres continuavam a comer e beber, e mais bebida e comida chegavam. Lena discutia furtivamente com os professores da Universidade e o Ministro da Educação enquanto Vicky, bêbada, conseguira seduzir todos os ricos e burros. Agatha já havia se aborrecido com o lenga-lenga do ministro e não conseguia se aproximar dos cônsules da República da Terra para obter alguma resposta. Na certa, assim ela pensava, os cônsules tentavam evitar suas perguntas, e para isso, utilizava-se do ministro anti-pático.
- Eu sabia – dizia Lena – Está óbvio que os cônsules não querem que Agatha veja o rei.
- E por que fariam isso? – perguntava Vicky, servindo-se de mais ponche.
- Não sei, o que você acha, Agatha?
- Vicky, aquela senhora não gostou de você. – informou Agatha de repente – Ela diz que você não passa de uma vadia louca que dá em cima de todo homem com mais de 20 moedas de ouro.
Lena não entendeu o porquê daquilo, mas a reação de Vicky foi instantânea. A loira pegou o ponche que bebia, encheu mais um pouco e atirou na cabeça da dama. Os guardas começaram a se mover, enquanto lentamente Agatha adentrava o interior do palácio.
Apesar do tamanho, e das inúmeras vezes que teve de cruzar por corredores escuros, Agatha chegou aos aposentos reais com alguma facilidade.
Como manda a etiqueta, ela bateu na porta não uma, mas seis vezes. Não obtendo resposta, decidiu entrar, murmurando desculpas.
O que viu naquele rico leito, não fora um rei. E sim um enfermo que como seu país se encaminhava a largos passos para a destruição.

sábado, 3 de abril de 2010

     Ao contrário do que as três imaginavam, chegar à Capital da República da Terra não significava ter dinheiro, ou pelo menos não imediatamente. Agatha contatou a mãe por um dos bancos; pedia mais alguma verba pra continuar sua missão. O difícil era a Rainha Amélia acreditar: a princesa tinha sim uma grande quantia, mas não seria plausível explicar como tanto dinheiro fora gasto em tão pouco tempo.
    As três se ocupavam de problemas diferentes que no fundo não passavam de um problema maior. Lena tentava de alguma forma conseguir boas vestes para penetrar no Baile da noite seguinte, baile o qual Vicky jurava que conseguiria fazer com que as moças entrassem. A ladra, aliás, mal tinha deixado suas coisas na estalagem e já sumira por entre a cidade.
   Como Lena dissera, a Capital era uma das maiores cidades do mundo, perdendo talvez para a Cidade Imperial (Império do Fogo) e para a Cidade do Vento (capital do Reino Suspenso do Ar). Agatha, que pouquíssimas vezes saíra do palácio, nunca havia estado numa cidade tão grande e tão viva. 
    A cidade era dividida por camadas: na mais baixa e maior delas, era localizada a periferia: casas feias de madeira pobre, poucas de alvenaria mal concluída; esgoto pelas ruas; crianças sujismundas correndo por aqui e ali; gente enganando os outros; maus elementos; milícias policiais e até mesmo jovens vendendo seus corpos em plena luz do dia. Na parte mediana, moravam comerciantes e funcionários de baixo escalão, as ruas eram calçadas de pedra, mas também volta e meia trambiqueiros eram encontrados. Por fim, no alto, em ricas e luxuosas casas, residiam altos funcionários do Estado, oficiais de altas patentes, professores, sacerdotes e estudantes da Universidade. Lá também estavam os prédios das maiores instituições da República: o Castelo do Rei (sede dos cônsules); a Universidade; o Quartel General das Forças Armadas etc...
    
   O crepúsculo já penetrava a cidade quando Lena chegara da loja de roupas trazendo boas, mas antigas vestes murmurando um "só deu pra comprar isso com trinta moedas de cobre". Vicky chegara logo depois, fazendo cara de desentendida, e pegando para si alguns poucos panos.
  - Vai dizer que você vai a um baile usando só isso? - repreendeu Lena, ao ver o decotado e curto vestido escolhido pela loira.
   Muito menos que o vestido de Vicky, Agatha estava preocupada com os modos de suas acompanhantes. Já que entrariam de penetra, conforme Vicky prometera, o mínimo que fariam era se comportar adequadamente. As inutéis e estressantes aulas de etiquetas lhe valeriam de alguma coisa agora, embora um pensamento ruim lhe passava pela cabeça: algo lhe dizia que seria muito difícil ensinar anos de etiqueta em um dia e ainda mais em suas alunas - uma ladra e uma caipira.
   - Temos mesmo que fazer isso? - reclamou Vicky, já se preparando pra um cochilo. - Isso me parece tão... chato.
  - Não temos escolha...além disso...
  - Além disso?
  - O baile dos meus dezoito anos será em breve e eu ficaria muito honrada se vocês duas fossem!
  - Bebida de graça! - alegrou-se Vicky
  - E muita gente interessante pra conhecer! - completou Lena
  - Concordo baixinha! 
  - Eu disse gente interessante e não gente rica!
  - Pois pra mim ricos são interessantes - rebateu Vicky.
   Agatha encerrou a confusão antes que desse mais briga entre as duas e começou sua árdua tarefa de manter Vicky e Lena num mesmo ambiente sem discutir.

   A lição acabara tarde da noite, com as duas cansadas. Vicky excedera suas expectativas, provando à princesa que se comportava como uma lady (o que a menina supunha que era mais um artifício pra enganar alguém). Lena teve alguma dificuldade, mas também aprendera rápido os modos afrescalhados passados pela professora. 
   Apesar de um dia corrido e cansativo, precedido de noites mal dormidas, Agatha não conseguia dormir. Estava calor, como sempre fazia na República da Terra, mas não suficiente para tirar seu sono. Estava cansada: olheiras eram visíveis em sua pele clara, mas mesmo assim, seus olhos teimavam em não permanecer fechados. Decidiu sair da casa alugada: fora caminhar um pouco pela rua de pedras.
  Todo seu percurso até ali: o Templo; Lena; como sobrevivera ao cair das nuvens; Julian e a Cidade Oculta da Montanha; os embates com Oliver; a pobreza; os espertalhões que lhe tiravam o dinheiro; o deserto; Vicky Valentine... como sua mente se abrira desde então! Como deixara de ser uma princesinha em seu castelo pra enfim estar a caminho de ser uma governante mais sensível!
   O amadurecimento seria a lição mais importante que tiraria daquela missão. Mas outras coisas lhe atordoavam a cabeça, fatos que sempre lhe incomodavam e ela apenas fingia que essa dor não existia. Aquela dor estava ali, a perseguia e morreria com ela. Aquela dor estava em suas mãos, na ponta de seus dedos indicadores que atendiam pelo nome de Dom de Fogo. Aqueles dedinhos que tantas vezes lhe fora um martírio salvara sua vida e de suas companheiras em momentos cruciais daquela jornada. Seria justo ignorá-la?
   "Fingir é a minha arte... Finjo tão bem que engano a mim mesma" pensava consigo. E sob a dor da dúvida fora dormir.

   Louco. Como qualquer sonho. E sem nexo algum. Ou será que não. Ela não quis comentar com ninguém.
   Tudo era vermelho e laranja, como um crepúsculo de um sol apunhalado e banhado em sangue. Dores. Gritos. Choros e lágrimas... Fogo. Chamas dançantes. Mais grito. Mais dor. Mais choro. A sensação de estar caindo no vazio e ressurgir depois sob o céu límpido... 
   Acordou sob os olhares severos das parceiras. Falar... não. P melhor a fazer seria o que fazia de melhor: ignorar. Fingir era sua arte e fingia tão bem que enganava a si mesma. Mas como era difícil para ela enganar a alguém... mesmo que esse alguém fosse aquele que aparecia no espelho todas as vezes que ela mirava seu reflexo.

quarta-feira, 31 de março de 2010

     Todos - homens e mulheres, jovens e velhos - estavam enfileirados em pleno meio-dia esperando uma acareação. As três forasteiras não eram exceção, principalmente uma delas, que exibia um sorriso vitorioso, como uma criança que faz travessura.
   - Você tem ideia da merda que você fez? - murmurou Lena, entre os dentes. Afinal, explodir uma fábrica inteira só seria obra dela.
   - Aff... - Vicky deu um muxoxo fazendo cara de "vocês falam demais, eu prefiro agir" - Se eu não destruísse aquela porcaria ninguém ia fazer. Cansei do blá blá blá.
  As duas se calaram quando um soldado passou por elas carregando um fuzil.
  - Hoje, um de vocês agiu com muita... imaturidade... falta de respeito... ingratidão! - começou o capitão. Era um homem de meia idade, alto, alguns fios grisalhos, um monóculo e uma porção de insígnias na farda. Falava austeramente, e todos os cidadãos tinham certo temor dele - Posso garantir que o culpado será acusado de traição à República da Terra.
    As crianças se escondiam nas barras das saias das mães. Mesmo os homens tremiam quando em presença do capitão.
  - Tem ideia do que fizeram? - continuou - Traíram sua nação, seu povo! Era essa fábrica que garantia que vocês, almas desgraçadas continuassem a viver! E agora, espero sinceramente, que caiam na mais profunda miséria! Porém... se alguém se acusar ou souber do verdadeiro culpado... mostrarei clemência pelo povo...
   Ninguém se movia, afinal ninguém sabia quem poderia ter feito tal ato... a não ser que não tivessem vindo da cidade...
  - A mulher loura... Aquela da ponta! - disse alguém - Não estava aqui na hora que a fábrica explodiu.
   As atenções voltaram-se ao trio. O capitão apenas deu uma ordem: prendam-nas. Lena deu um passo à frente para garantir seus direitos, mas Agatha se adiantou.
  - Não podem nos prender sem provas!
  - Silêncio garotinha! - ameaçou o capitão - Aqui é a minha terra, eu mando aqui e nem a sua coroa de princesa garante algo aqui!
  - Parabéns Vicky - murmurava Lena.
  - Qual o problema? Eu que mandei essa porra pelos ares mesmo.
  As duas se atracaram antes mesmo que os soldados viessem. A multidão se aglomerou para ver: o capitão atravessava por entre os curiosos para colocar ordem na baderna.
  Lena e Vicky brigando? Sim, elas viviam se estranhando. Mas desta vez, a luta simulada entre as duas eram parte do plano. Vicky sacou a arma e apontou para a cabeça do capitão, enquanto os soldados não abaixassem as armas.
  Mas um soldado ao fundo viera avançando, oculto. Já engatilhara a arma: atiraria pelas costas de Vicky e colocaria de vez um ponto final nessa insurreição. Seus planos foram frustrados uma vez atingido por uma barra de ferro empunhada por Bruce. Os soldados viraram-se para atirar, mas tiveram de se ver com a fúria dos populares. 
   Em pouco tempo, estavam todos rendidos e amarrados por cordas. Vicky arrombou o quartel, toneladas de moedas em ouro, prata e bronze, além de inúmeros alimentos e remédios estocados. O povo se organizou para receber tudo, enquanto os soldados e o capitão permaneciam amarrados na praça sob o sol escaldante.
   - Traidores! Marginais! Saqueadores! O governo pronvincial ficará sabendo dessa insurreição. Vocês serão todos presos e terão as cabeças cortadas.

    As injúrias do capitão só foram caladas por uma bota de mulher. A mesma mulher loura que começara aquilo tudo.

  - Não sabemos como agradecer: senhorita Brown, senhorita Valentine, Princesa... Graças à vocês, não mais teremos que nos submeter às vontades do exército corrupto.
  - Não se preocupem... Amanhã iremos nos encontrar com o rei e eu farei questão de alertá-lo da corrupção em seu país... Minha mãe sempre disse que o rei é justo, ele ouvirá meus apelos...
  - Mas agora que já fizemos o trabalho duro - observou Vicky - o que vão fazer agora?
  - Pretendemos limpar o rio, voltar a plantar e a criar animais... logo as pessoas não vão mais adoecer e não teremos mais que suportar os soldados corruptos - respondeu Bruce.

   As jovens conseguiram montaria, ou melhor, pegaram as dos soldados corruptos. Agatha foi a última a deixar a cidade, com um sorriso estampado no rosto e a alegria de ter ajudado mais pessoas, mesmo que elas não fossem seus súditos.
   - Quer andar fofa? - alertou Vicky - Precisamos chegar amanhã à capital!
  
   As horas voaram, a madrugada não foi hora para dormir. O dia raiava quando chegaram à Capital. Ela se localiza no alto de um grande planalto, cercado por um gigantesco fosso. Havia uma ponte que baixava e funcionários que verificavam os documentos de cada cidadão que entrava.
  - Pra que toda essa burocracia? - perguntou Agatha
  - A Capital é a maior cidade da República da Terra e a mais rica também... além disso há o temor de invasão por parte do Império do Fogo por meio de espiões...
  
  

domingo, 28 de março de 2010

     A viagem seria muito desconfortável se não fosse Vicky Valentine. Ela "convenceu" o condutor de uma charrete de mercadorias a dar-lhes carona até alguma cidade perto da capital. A manobra deu certo: no final do dia, na paisagem deserta esboçavam-se algumas colinas e alguns pontos verdes, sinal de que deixavam o deserto e aos poucos se aproximavam da Capital.
   Era uma cidade entre várias colinas, um vale. Mas ao contrário do que se pensa dos vales, aquela vila não parecia nada bonita. As casas eram todas muito pobres, a fumaça dominava a atmosfera e o rio, se é que se podia chamar de rio, se restringia apenas à um veio de esgoto.
  - Puta cidade fedorenta! - resmungava Vicky, tampando o nariz com um lenço.
  - Pára de falar palavrão, Vicky - repreendeu Lena, que também protegia o olfato do odor putrefato do local.
  Agatha avançava por entre a leve fumaça de esgoto. Nos caminhos tortuosos e sujos, ruas vazias. Sequer anoitecera e as casas estavam todas fechadas, dando a impressão de uma cidade fantasma. 
  Seus olhos castanhos repararam no simples abrir da cortina de uma das casas. Agatha correu a bater na porta, era a única casa que dava sinal de vida.
  - Ei, ei - Agatha chamava, batendo com as mãos na porta - Somos viajantes, precisamos de pernoite, não sabe onde podemos...
  A porta abriu revelando um homem de uns vinte e poucos anos, barba mal feita e um macacão sujo de óleo. Atrás dele, a pessoa que vira abrir a cortina outrora, um menino.
  Bruce era mecânico, morava numa das simples casas da Vila. Não tinha muito luxo, ele dizia, todos na cidade mal tinham dinheiro para comer.
  - E ainda temos de pagar altos tributos pro Exército - explicava.
  - Como assim, pagar tributos? - estranhou Agatha - Os soldados recebem soldo do governo da província e do governo geral, e ainda exploram a população.
  - Isso não é nada, fofa! - interveio Vicky - A República da Terra está jogada às traças, os soldados, quando não se vendem ao Império do Fogo, exploram seu próprio povo. 
  - E ainda mandam na cidade... - continuou Bruce, com tristeza - Desde que o nosso líder morreu, eles tomaram de conta daqui... Além de nos exigir dinheiro, pegam nossos filhos, humilham nossas mulheres, chantageiam a todos, declaram toque de recolher.
  - Toque de recolher?!?!? - perguntaram, incrédulas, as três moças. Toque de recolher ao pôr-do-sol.
  - E essa fedentina que domina esta cidade? - perguntou Vicky, levando um cutucão de Lena - O que foi? Essa cidade fede ou não?
  Bruce suspirava:
  - Há muitos anos, um regente pronvicial instalou a fábrica de chumbo, sabem, há chumbo debaixo do leito do rio... enfim, a indústria existe a mais de cinquenta anos e ainda utiliza tecnologia velha... eu mesmo trabalho lá. Por causa da indústria, nosso ar é podre e nosso rio não dá mais peixes, e as crianças vivem doentes.
  Uma lágrima escorreu pelo rosto de Lena. Aquele lugar, mesmo a quilômetros de distância, era muito parecido com sua vila natal onde as pessoas eram exploradas e adoeciam e os peixes eram podres.
  
  Aquela cidade definitivamente não tinha feito bem, principalmente à Lena e à Agatha. Vicky escondia, mas também estava comovida com tamanha injustiça.
  - Deve ter um jeito de ajudar esse povo - dizia Agatha - Não tem como passar por aqui e ficar de braços cruzados!
  - Você tem razão Agatha! - concordou Lena - As pessoas estão sofrendo e nem podem contar com seus governantes... eu não quero nunca mais ver isso na minha vida.
  - Ah não gente, por favor - rebatia Vicky - Temos de chegar à capital depois de amanhã e vocês querem ajudar esse gente pobre? Não podemos fazer nada, entenderam? Uma princesa, uma nerd e uma ladra podem enfrentar um exército todo sozinhas?

   Agatha e Lena tiraram o dia pra fazer caridade. Enquanto a morena ajudava as crianças com remédios e cuidados paliativos, Agatha ainda tentava dialogar em vão com o comandante-em-chefe da cidade. Vicky, por sua vez, não fora vista desde o nascer do Sol.
  Para o desagrado de Lena, as crianças sofriam de doenças de pele bastante graves, além de doenças respiratórias complicadas. 
  - E então? - perguntava Lena à Agatha, já presumindo a resposta ante a expressão desanimada da garota - Conseguiu falar com o comandante?
  - O Capitão deu uma série de desculpas... na certa achando que eu ia engolir aquilo né? - contou Agatha.
  - Pelo que estou verificando, as pessoas não vão melhorar enquanto a fábrica não for fechada e o Exército não parar de maltratar os outros...
  
  Força de expressão? Ou de pensamento? Só Deus sabia... Mas a terra tremeu, primeiro com fracas vibrações... depois... ganhou as dimensões de um terremoto considerável. No horizonte via-se a fábrica tombar tal como um castelo... a cidade recobria-se de pó...

sábado, 20 de março de 2010

     Cada uma falava alguma coisa, lutava com alguma gana para não ficar lá.
   - Vocês sabem com quem estão falando? Eu sou Agatha Vizcov Tess! Princesa e herdeira do trono do Reino Suspenso do Ar!
   - Vocês não podem sair prendendo as pessoas desse jeito! - protestava Lena - Eu tenho direito a um telefonema e a um advogado, entendeu?
  As palavras das duas entraram por um lado e saíram por outro. Os soldados as empurraram para dentro da cela. Escura, suja, cheia de limo e mofo. De longe, o pior lugar onde já estiveram.
 Vicky demorou mais um tempo a entrar. Os soldados passaram um bom tempo revistando-na, tirando pistolas ocultas em todos os lugares possíveis: no decote, nas meias... até nas calçolas havia um pequeno cinto onde ela guardava duas mini-armas.
  Passada a revista, ela foi empurrada para dentro da sala onde estavam as outras duas. Isso sem perder a pose.
   Vicky Valentine olhou a sala de cima a baixo expressando asco por tudo que vira. Apenas sentou-se num dos bancos de concreto, cruzou as pernas, e cantarolou alguma coisa. Sua voz só foi calada quando as mãos de uma morena possessa agarraram seus cabelos.
  Lena arrancou-lhe dois ou três chumaços de cabelos antes de ser apartada por Agatha. A loira passava as mãos na cabeleira, e resmungava:
  - Ficou doida?? O que eu fiz pra você?
  - O que você fez? Você ainda tem a audácia de perguntar o que você fez? Por sua causa estamos nessa situação!
  - Minha causa? - defendeu-se Vicky - Eu nunca te vi na vida garota! A única que eu prejudiquei foi essa garota aí.
  Vicky apontou para Agatha, sentada no banco que tinha seu olhar distante e vago. A loira se ajoelhou em frente a ela, e, unindo suas mãos às dela, pediu perdão:
  - Foi malz aê.
  Lena levou a mão à cabeça, repugnando-se da atitude da outra. "Foi malz aê, é tudo o que ela fala?" pensou.
  - Se eu quisesse teria matado ela fácil, fácil - disse Vicky, como se estivesse lendo a mente das duas - Mas não quis... Não mato as pessoas por causa de outras... principalmente por causa do Oliver.
   - Oliver? - perguntou Agatha, despertando do aparente transe - Você quis dizer Oliver Gardner?
   Vicky confirmou com um aceno. Lena levou a mão à cabeça mais uma vez. 
   - Então ele mandou você me matar! Por quanto?
   - 500 moedas de ouro iniciais e mais 500 quando terminasse. - respondeu Vicky.
   - E naturalmente não terminou o serviço porque viu o monte de grana que poderia ganhar com as coisas da Agatha né?
   Vicky deu de ombros. Não queria admitir, mas sim, a morena de gênio forte estava certa.
  - E onde estão as coisas que você roubou?
  - Deixe-me ver... - pensava Vicky, com a mão no queixo e olhando pra cima - A tiara ainda tá comigo, ou melhor, tava, porque os policiais pegaram quando me revistaram...
  Agatha soltou um suspiro de alívio. Não seria nada bom se a tiara real do Reino Suspenso do Ar estivesse por aí. 
  - Tinha um convite pro baile real lá na capital... esse eu tive que dar pro atravessador... miserável!
  Agatha abriu a boca estupefata. Vicky roubara o convite que lhe permitia a audiência com o Rei, conforme a mãe pedira. E agora, o que faria?
  - Também tinha um colar muito bonito, com um rubi desse tamanhão ó! Esse aí me rendeu uma boa grana, quase quarennta moedas de ouro!
   Lena tentou mais uma vez pular no pescoço de Vicky. Agatha se debulhou em lágrimas, tinha aquele colar desde muito cedo, desde que era uma criancinha. Sua mãe lhe dizia que era uma herança de família.
   
   Não era possível determinar quanto tempo havia se passado. A noite terminara... o dia estava raiando. Nenhuma das três jovens dormira... estavam todas com olheiras notáveis. A mais jovem das três tinha seus olhos castanhos inchados do choro. A morena andava de um lado para o outro, enquanto a loira vez ou outra cantarolava alguma coisa.
   - E se a gente fugir daqui hein? - sugeriu Vicky - Já notei que a garota ali é inteligente, podemos bolar um plano e dar o fora daqui.
  - O que? Sermos foragidas da justiça? - estranhou Lena.
  - Qual o problema? Nós já estamos sendo caçadas pelo Império do Fogo!! Aliás, se demorarmos aqui, logo logo seremos entregues para os soldados e nossas coisas serão vendidas!
   - Ela tem razão - concordou Agatha.
   
   O cheiro ocre no ar, as celas oxidadas, as paredes cobertas de musgo e desenhos obscenos e pra completar a horrível lavagem servida aos detentos. Estavam na última e na pior cela do corredor escuro: os policiais morriam de medo da má influência de Vicky Valentine, um motim seria o fim. 
   Foi a distância e o afastamento que contribuiu para que as moças arquitetassem um plano simples, mas que necessitava de toda a habilidade de Agatha, habilidade que nem mesmo ela sabia dominar.
   Suas mãos queimavam... já estavam vermelhas... poderia reclamar da dor? Não, isso seria injusto. Não apenas fugiriam, teriam que recuperar a tiara de Agatha e as armas de Vicky. 
   A de baixo estava solta, as condições da barra de metal contribuíram fortemente para isso. Usar o dom de fogo nas mãos da princesa foi uma ideia boba de Lena, mas que as outras duas acataram com satisfação. No período da tarde, onde os policiais não as importunavam, Agatha terminou o serviço na parte de cima. Pronto! Duas barras soltas seria o suficiente para que as três estivessem livres da cela.
   Conforme Vicky Valentine, a madrugada seria a hora perfeita. Não ficavam muitos soldados guardando a delegacia, e os que ficariam, com certeza estariam sonolentos demais. Dito e feito. As duas barras de metal que Agatha derretera usando os dons de fogo foram removidas e uma a uma, elas avançavam pelo corredor escuro, com ligeiros passos.
   Assim como Vicky previra, haviam dois soldados. Um cochilava com profundos roncos. O outro resistia a dormir, sentado na cadeira fazendo palavras cruzadas. 
   Vicky deslizou até o dorminhoco e apertou com demasiada força o pescoço gordo. O homem despertou assustado, a face pouco a pouco se avermelhando. Quando o companheiro se moveu, Agatha e Lena imitaram a companheira: Lena segurou-o pelos braços, enquanto Agatha pegava a arma. A princesa apontou para a cabeça dele, arrancando um sorriso de Vicky, que fizera o mesmo.
  - Estouro seus miolos se não devolver nossas coisas! - ameaçou Vicky.
  Lena soltou o outro e olhava ameaçadoramente para os soldados, na mira de duas garotas.
  O gordo apontou para a gaveta embutida na mesa, sinalizando que a chave estaria ali. Lena abriu-a e pegou a pequenina chave de zinco. Depois, o gordo apontou para um velho armário oxidado.
  Lena abriu o armário e tirou seis pistolas de diversos tamanhos, um colete de balas, e várias bolsinhas com facas e canivetes. Tirou também a mochila da garota e seu arco desmontável.
   - Agatha, abre todas as celas! E você, senhorita certinha, pega as chaves do almoxarifado e pega tudo o que puder!
  - Peraí, Vicky! Vamos libertar bandidos e roubar a polícia?
  - Lena - interveio Agatha - Esses policiais são corruptos, certamente há pessoas presas porque o Império do Fogo quer! 


   O sol esboçava amanhecer quando as três estavam a uma distância segura da cidade. Todas exibiam em seus rostos a expressão de insônia que as perseguia há dias. A poucas horas estavam em uma cadeia suja e podre, agora estavam num botequim de beira de estrada. Agatha saboreava torrada com leite, Lena bebericava café e Vicky já estava em sua segunda dose de rum.
  - Pra uma princesa até que você não é ruim! E nem você, senhorita nerd!
  - É Lena Brown! - corrigiu Lena - Lena Brown!
  - É, mas agora não temos dinheiro, e precisamos chegar à Capital dentro de dois dias e falar com o Rei!
  - É... e entrar de penetra no baile, já que ALGUÉM vendeu o convite... - ressaltou Lena, olhando categoricamente pra Vicky.
  - Já disse que foi mal! 
  - É, mas você deve tanto à Agatha que...
  - Você também saiu da cadeia graças à Agatha... - rebateu Vicky.
  - Querem calar a boca vocês duas! - pediu Agatha - Vocês falam, falam e falam, mas quem vai se ferrar bonito se não chegar à Capital sou eu. Não sei que tipo de coisa tem na correspondência da mamãe, mas tenho certeza que é alguma coisa muito importante!
  As duas suspiraram. Agatha tinha razão: não seria problema de nenhuma delas se Agatha chegasse ou não.
  - Eu sempre quis ir num baile real... Provavelmente muitos intelectuais estarão lá! - comentou Lena.
  - E muitos milionários também - completou Vicky.
  
   Agatha tirou da bolsa uma moeda de bronze, uma das únicas que sobrara. Pagou o consumido e se retirou do botequim. Ao seu lado ia Lena Brown, a intelectual e Vicky Valentine, a ladra. Companhia perfeita? Talvez não... Mas a partir daquele dia, os destinos das três estariam mais entrelaçados que uma simples fuga da cadeia ou um café da manhã num botequim de beira de estrada.

     Três dias haviam se passado e Agatha apenas se movia pela determinação de recuperar suas coisas. Estava ficando sem prazo: recuperar as joias e ainda ir à capital da República encontrar com um rei. Pedir ajuda à mãe? Não! A mentirinha inocente que tinha inventado agora tomava proporções incalculáveis. 
   Lena se queixava terminantemente do calor que assolava aquelas cidades nas proximidades do deserto. Agatha preferia não ouvir os lamúrios dela.


    Aquela cidadezinha se chamava Recanto das Pedras. Não se recordara de estar ali antes, mesmo que conhecesse o deserto como a palma de sua mão. Certamente estaria segura ali. Mas Oliver realmente a caçaria por todo o deserto?
   Optou por uma estalagem suspeita. Tudo ali parecia terrivelmente empoeirado e terrivelmente mal cuidado. Os donos eram velhos e mal humorados. Ficaram felizes em receber o punhado de moedas de cobre. A velha apenas resmungou enquanto subia com Vicky. "Mais uma dessas bonitonas, que chato!". 
   Vicky se deitou na cama pensando o quanto poderia ganhar: de tempo e de dinheiro. Estava numa cidade estranha, poderia enganar a quem quisesse. Quem sabe dar mais um golpe do baú em algum velho rico?


 Lena tocava a sineta sem parar enquanto batia o pé impaciente. Agatha olhava de um lado para o outro até achar o velho preguiçoso que dormia embaixo do balcão.
  A velha desceu da escadaria resmungando palavras sem nexo. Não pareceu muito feliz ao encontrar as duas paradas no hall.
  - O que vocês querem?
  - Não é óbvio? - ironizou Lena - O melhor quarto, por favor.
  - É caro. Três moedas de prata por dia! E sem comida!
  Lena tirou as três moedas e as colocou em cima do balcão. Passou pela velha resmungando.
  - Vai roubar pra ser feliz!
   Agatha continuou no hall olhando sonhadoramente para as pinturas na parede. Não tinha muito o que se ver: um papel de parede brega e descascado; pinturas baratas feitas por artistas de rua.
  - Vai subir não garota? - perguntou a velha.
  - Me desculpe senhora, só estava... vendo.
  - Deve ser mais uma riquinha!
  - Ela é a Princesa... - murmurou o velho vindo debaixo do balcão - Princesa do Reino do Ar.  
  
  Ideias eram coisas que lhe apareciam rapidamente. Bastava esfriar a cabeça que elas brotavam como flores na primavera. Precisava dar um golpe, não pelo dinheiro, mas para sua própria auto-estima: ficar muito tempo descansando não era de seu feitio e até lhe deixava sufocada. Causava tal abstinência, era seu vício, seu dom e sua maldição.
 Abrira a mochila de lona para ver o que ainda lhe restava: a tiara de um metal muito precioso, precioso demais para que ela vendesse. Ela entraria para sua coleção valiosíssima, aquela que não venderia nem que passasse necessidade. Viu também num embrulho um envelope  timbrado, perdido num lenço de seda real (que ela ia vender). O timbre era da República da Terra. A mensagem: um baile real na capital.
  Seus olhos iluminaram-se frente às oportunidades que vira. Um baile na capital, VIP, cheios de milionários dando sopa... Oportunidade mais que perfeita de dar mais um golpe perfeito!


  - Por que você acha que vamos achar a Vicky Valentine nesse fim de mundo? - perguntava Lena - Pra que você acha que ela se esconderia nesse final de mundo.
  - Pense um pouquinho Lena... Como você explicaria isso? - Agatha apontou para uma página recém-colada. Nela, uma foto grande de uma Vicky sorridente e debochada aparecia sob a recompensa de mil peças de ouro.
  - Oliver... - concluiu Lena - Então ela trabalhava pra ele...
  - E se eu estou vivinha da Silva...
  - É porque ela passou a perna no Oliver também... Meu Deus, que mulher bandida!
   Agatha sorriu satisfeita. Isso até se lembrar de um pequeno detalhe...
   - Se o cartaz da Vicky chegou até aqui...


  Não muito longe dali, a mulher de cabelos dourados também via o cartaz perplexa. Não só isso. Via pelo horizonte cavalos-de-fogo chegarem pela planície desértica. Ele a tinha encontrado? Impossível! Um de seus melhores atributos era fugir sem deixar rastros! Mas o exército de Oliver Gardner fora capaz de chegar até ali e a seguiria até o fim.
  Tarde demais... seu rosto era conhecido ali, e os habitantes picaretas daquele lugar certamente a entregaria... Não se ela fosse mais esperta e saísse daquele fim de mundo o mais rápido possível. Teria de barganhar com todas as suas armas... Ir à capital, onde Oliver não poderia ir...


 Lena tentava barganhar com um atravessador a maneira mais discreta de deixar aquele lugar. O mercador percebia o seu desespero e tentava arrancar o dinheiro que elas não tinham.
  - Seis moedas de ouro! Isso é um assalto à mão armada senhor! Não temos todo esse dinheiro!
  - Eu sei que a senhorita viaja com a Princesa do Ar...
  - Tudo o que posso pagar ao senhor é quinze moedas de prata - interveio Agatha - se o senhor quiser, posso assinar um documento, um título que o senhor pode cobrar quando apresentar ao meu reino!


  Ao lado delas, mais uma pobre alma deixava aquele lugar. Estava envolta de trapos imundos e não dizia uma só palavra e nem mostrava uma só parte do corpo que permitiria definir que fosse homem ou mulher. Apenas respirava fulgazmente, como se fosse asmático.
  A viagem não era nada confortável, o calor era intenso e o fedor dos animais da caçamba incomodova bastante. A carroça, que andava a passos de tartaruga parou de vez, seguidas por vozes truculentas.
  Agatha e Lena notaram que o condutor desceu da charrete e conversou duas ou três palavras. Em seguida, levou dois soldados da República da Terra que retirou a lona que as envolvia. Outros três forçaram as jovens a descer, elas relutavam em se identificar.
  Por baixo do véu, Agatha notou que o condutor fez um sinal afirmativo. Um dos soldados tirou o véu das duas e deu um sorriso afirmativo.
  O outro ser maltrapilho foi agarrado por dois policiais. Deu um pisão de pé em um, e rendeu o outro. Apontou uma pistola. Deixou cair seu véu. Revelou sua identidade.
  A cabeleira excessivamente loura, os olhos azuis faíscantes, a pele levemente dourada pelo sol, o semblante desafiador! 
  - Baixe a arma mocinha! - ordenou o soldado - Ou vai se arrepender!
  - Eu dou as ordens aqui! - repreendeu Vicky - Quer que eu estoure os miolos do seu amigo?
   Não. Vicky não dava as ordens. Em questões de segundos foi cercada por vinte soldados apontando pistolas para ela. Tinha de reconhecer que fora pega e pôr a pistola no chão.

terça-feira, 16 de março de 2010

     Agatha Tess abriu os olhos lentamente, o que não impediu que a luminosidade quase a cegasse. Vestiu o robe de cambraia verde e andou passos ligeiros e leves, como os de uma bailarina. Da sala da casa, vira Lena sentada no sofá, conversando com dois policiais.
    Sua presença foi logo notada pelo mais velho. Um homem de meia idade e barba grisalha. Ao seu lado, estava um mais jovem, de cabelos de um castanho ferruugem, anotando alguma coisa num bloco de notas.
 - Lamento Alteza! - desculpou-se o velho, depois de uma profunda mesura - Nunca na história de nossa cidade...
  Agatha levantou a mão pedindo para que parasse. Sofreu um golpe, aquilo era exclusivamente sua culpa.
 - O que levaram Agatha? - perguntou Lena.
 -Minha tiara real, um colar com um rubi e uma correspondência destinada ao Rei.
 - Como era a moça?
 - Não sei falar... Estava muito disfarçada... mas os olhos dela! Eles eram muito azuis... o cabelo não tenho certeza, parecia loiro. Do resto, não me lembro muita coisa.
  O jovem policial virou o caderno em que escrevia suas notas. Nele se viu um desenho muito bem feito. 
  - Co..co..como o senhor...
  - Só existe uma pessoa capaz de fazer isto. Vicky Valentine, a cobra do deserto... ninguém até hoje consegue pegar essa mulher!
 Agatha ergueu-se impetuosamente, como se sua vontade tivesse sido acendida por algo desconhecido. Então ela era Vicky Valentine, a mulher intocável, a quem ninguém na história daquele país havia conseguido.


  Ela entrou naquele bar que há alguns anos já havia frequentado. Mas desta vez não viera trabalhar (leia-se enganar alguém) e sim desfrutar dos prazeres da vida. Beber o melhor uísque, o melhor rum e ouvir as melhores músicas.
  Aquele rosto familiar sorria displicentemente sob o cartaz: "Procurada". Abaixo diversos crimes que ela praticara e que sorria de prazer ao vê-los, como se tivesse orgulho disso. Inúmeros assaltos, estelionato, falsidade ideológica, contrabando, curandeirismo, formação de quadrilha, etc, etc e etc. Mas hoje não estava ali para rir de seu próprio "currículo" e sim para gastar um pouco do dinheiro obtido da venda de um belo rubi.


 Oliver Gardner não era bem vindo ali, mas isso não significava que não era bem recebido, mesmo hipocritamente. Há anos a República da Terra dizia declarar guerra ao seu país, mas a cada dia, cada vez mais cidadãos do Império do Fogo se apropriavam da praia alheia. 
  Andava de um lado pro outro, possesso de raiva, descontando nos subordinados toda a raiva que sentia de si mesmo. Não era o primeiro, e nem seria o último a ser enganado por Vicky Valentine.
   - Maldita ladra! - repetia - Eu vou te encontrar, nem que seja no inferno!!
   
   Vicky atravessou pela porta, segura de si dos pés à cabeça. Os homens aglomerados sob a mesa de carvalho viraram automaticamente seus rostos quando viram a imagem conhecida:
  - Quem é viva sempre aparece, Vicky! - saudou um gordo e barbudo do meio da roda. Vicky se sentou numa das cadeiras da roda e espiou para ver qual era a boa.
  - Vai apostar, gata?
  - Dez moedas de ouro no 27 vermelho!
  - Tá cheia da nota hein, Vicky! - admirou-se um deles - Quem foi que cê enganou desta vez?
  - Um servicinho aí, bem legal até!  
   
   Perdia, ganhava, a vida era um jogo. Uma faca de dois gumes como ela. Mas uma faca poderia ficar cega... A porta foi escancarada escandalosamente por alguns soldados do fogo. Seus rostos foram direcionados justamente para a única mulher no saloon. 
  - Nem acredito que serei o primeiro a pegar Vicky Valentine, a cobra do deserto! 
    Trazia consigo um cartaz, prometendo mais quinhentas peças de ouro. Não se lembrava de nenhum bandido que valesse mais que isso. 
   A poeira invadiu o saloon, mas não do deserto. Dezenas de homens entrelaçaram-se, cada um tentando capturar a loira. Mas apesar de sua presença ser a mais marcante daquele local, ela conseguiu escapar rastejando tal e qual seu apelido, e ainda levando as moedas dentro dos bolsos de seus "companheiros".
    Sempre escapara, não importava como. Estava acostumada a dar golpes em todos: do simples operário ao fazendeiro rico. Sempre usando sua beleza natural e a inteligência desenvolvida pela necessidade. Mas agora ela enganara duas pessoas de uma vez, duas pessoas da realeza e tinha um exército inteiro no seu pé. Tinha ido longe demais?

quarta-feira, 10 de março de 2010

  No País de Agatha Tess, era absolutamente comum consultar-se com videntes, cartomantes e oráculos. Do camponês ao general, do operário ao nobre, até mesmo sua mãe, a Rainha, tinha um oráculo particular, que lhe orientava na administração do Reino.
   A cigana mirava com seus olhos azuis cristalinos, enquanto passava os finos dedos pela bola de cristal. A tenda toda cheirava a incenso enjoativamente doce, se a mulher não se apressasse, provavelmente Agatha ficaria asfixiada pelas finas fumaças.
    - Então a senhorita está aqui por que tem a cabeça confusa, princesa? - perguntou a cigana.
   Agatha confirmou com um aceno. Coincidência ou não, mas aquela desconhecida adivinhara um pensamento que nem ela mesma havia pensado. Desde que abandonara o Reino, essa era a palavra que resumiria sua vida: confusão.
   - Sua mão, querida, a sua mão.
   Agatha estendeu as mãos macias e perfumadas de princesa à cigana, que as apertou com um precioso tesouro. Agatha se reduzia a acompanhar passivamente a avaliação sobre seu futuro astrológico.
   - Vejo uma grande ferida! Uma grande confusão! A cabeça... não... que cabecinha nebulosa! Vejo... um ferimento... sangue.
   Mais uma vez a cigana adivinhara. Apesar de parcialmente oculta sobre as vestes, ela ainda sentia pontadas de dor no ombro, onde anteriormente havia sido atacada no deserto. 
   - Para curar uma grande ferida... precisa curar o corpo. A senhorita sofreu alguma ferida recentemente?
   - Fui atacada por falcões do deserto. - respondeu Agatha - As garras deles... rasgaram meu ombro. Ainda dói muito.
    A cigana tocou no curativo da Princesa. Ela soltou um uivo de dor, na certa, ainda não cicatrizara. 
    - Tem outra coisa, Madame Beaumont... - interrompeu Agatha. - Sou uma princesa do ar, mas tenho... dons de fogo.
     A cigana levantou uma sobrancelha visivelmente espantada com a revelação.
    - Quando, quer dizer... Você tem dom do fogo.
    - Acontece de vez em quando... Quando estou assustada e com medo...
   - Muito bem querida... O que você precisa para curar a ferida da alma e do corpo é de um mergulho nas águas termais sagradas... a única água que brota no deserto.

   No fundo da tenda, havia um compartimento com uma outra tenda. Lá havia uma enorme banheira feita em madeira com água fervendo. Dentro da banheira, algumas pétalas de flores e sais de banho. A mulher mandou a jovem retirar as vestes e guardá-las num cômodo mais ao fundo.
   - Fique o tempo que precisar querida... além disso... segure isso.
   A cigana deu-lhe um rosário de contas de madeira. Deu um sorriso afável e afastou-se.
   Como planejou, em pouco tempo, a menina adormeceu, entorpecida. Foi até o cômodo onde suas roupas estavam guardadas e revirou a mochila. Lá encontrou um colar real e um envelope com timbragem oficial. Colocou-os no decote do vestido e saiu à francesa.

    Não era fácil encontrar a ladra Vicky Valentine, a mulher mais esperta da República da Terra. Ganhava a vida dando pequenos e médios golpes, enganando os homens tolos com sua beleza, cantando em bares insalubres durante a noite e bebendo às custas dos clientes. Fugia de cidade em cidade, em cada uma delas dando um novo golpe, e escapando da polícia. Mas ele era o Príncipe do Império do Fogo! Nada era impossível para ele, nem encontrar a Senhora das Mil Faces.
    Seu novo esconderijo era denso pelos sete véus que passara até ver a silhueta de seus longos cabelos dourados. Vicky estava sentada em sua almofada de veludo, tragando um longo cigarro e contando maços de dinheiro, provavelmente obtido de forma ilícita.
   - Há quanto tempo não tenho a honra de receber a realeza! - saudou Vicky.
   - Como você sabia que era eu?
  - Nunca me esqueço dos cheiros das pessoas... especialmente daquelas que já passaram pelos meus braços - a ladra o abraçou suavemente e beijou o pescoço de Oliver.
   - Tenho um serviço pra você... pago bem...
   - Não quero Oliver... sabe que não trabalho pra ninguém... muito menos pra realeza. 
   - Tem uma pessoa que quero... eliminar...
   - Ora... mande um de seus homens... você não tem quase todo o planeta aos pés do seu país...
    - Se executar o serviço... pode ficar com o tesouro.
    Vicky, a pouco desinteressada, ficou com os olhos brilhando, faiscando de ganância.
    - Estamos falando de qual tipo de tesouro?
    - Tesouros reais... da Princesa do Reino Suspenso do Ar... E então?  
    
    Agora ela estava ali, com tesouros reais em suas mãos. Sua missão oficial estava inacabada, já que a menina ainda estava viva. Mas para ela isso não importava. Agatha era problema de Oliver e não era de seu feitio se envolver no problemas dos outros. Honrar compromissos? Isso não existia em seu vocabulário, afinal, ninguém mandou Oliver confiar nela. Seu papel era apenas pegar o tesouro e fugir dali, para aplicar um golpe em mais um tolo.