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Louca/Estranha/Anormal/Distante/Fria/Egocêntrica E muitas outras mais... Autora de Angelus, Tokyo Revivers e A Cor da Lágrima, codinome: Horigome Namika
Mostrando postagens com marcador Oliver Gardner. Mostrar todas as postagens
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terça-feira, 24 de agosto de 2010

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O relógio tiquetaqueava no ritmo de seu coração. Ivan Gardner não queria admitir, mas para Lua, mentir parecia impossível.

- Xeque! – anunciou quando finalmente concluiu a jogada. Avançou um de seus bispos e ameaçou o Rei da adversária.

Lua virou o jogo numa jogada bem simples… utilizando sua rainha, capturou o bispo de Ivan.

- Chega! – Lua, de personalidade intempestiva, decidiu terminar o jogo ali, quando melhor lhe conviesse.

Ivan atendeu ao seu pedido e largou a peça em qualquer lugar. Lua desceu do trono e ordenou a uma de suas criadas que lhes trouxessem bebidas…

- O tempo está passando Ivan! Sabe que ele não é conveniente nem pra mim nem pra você!

- Estou precisando de mais almas Lua! A República deve cair primeiro!

- A República está em ruínas, Ivan! Porque não a derrota de uma vez?

- Porque eu tenho um plano…

A sala de reuniões era a maior do Castelo. Imitava em grande parte a sala em que se reunia com Lua. Pilares de concreto com dragões expelindo fogo, um grande mapa do mundo em alto relevo indicava a localização de todas as tropas. Ao redor, todos os generais, o ministro de Guerra e claro, a presença ilustre do Imperador.

- Vita eternus et Pium!

- At Pium eternus!

Ivan congratulou todos os seus generais pelas sucessivas conquistas. Oliver, é claro, recebeu grandes honras.

- Estamos chegando à capital, Meu Imperador, logo estaremos às portas do grande planalto.

- Nossa situação é favorável com os deuses, Meu Imperador?

- Os deuses?? EU sou o Deus desse mundo… os deuses temem a mim!

Todos se calaram. A arrogância e prepotência de Ivan eram conhecidas por todo o Império. Muitos ainda temiam os deuses, principalmente os velhos. Mas Ivan os desafiava sem pensar. Inicialmente se intitulava o enviados Deles, décadas depois, se dizia mais forte que os próprios deuses.

- Quero a cabeça do Rei da República da Terra em minhas mãos o mais rápido possível!

- Em alguns meses o senhor a terá!

- Meses? – Ivan riu sarcasticamente – Quero em semanas!

Assim que a longa reunião acabou, restaram na oca sala apenas o filho e o pai, o que há muito não eram. Oliver era o defensor, o sucessor, a continuação da maldade ardilosa do sangue ardiloso de seu pai.

- Como estão suas fontes sobre a Princesa?

- Pensei que ela não era mais importante… – Oliver tentou dissuadir o pai. Não era de seu feitio e também não tinha paciência de perseguir uma princesinha inútil. Mas pensou melhor: não era agradável contrariar o pai – Digo, meus contatos me informaram que ela voltou pra casa com a ladra do deserto e com a aldeã do País da Água.

- Quero ser informado sobre tudo. Qualquer passo que essa pirralha der!

- Pai… – Oliver interrompeu o pai, sabendo quais as consequências que poderia enfrentar. Não era da natureza de Ivan ser questionado – sobre qualquer coisa – e muito menos de perdoar a quem o desagradasse – Por que o interesse nessa garota?

- Enfim, chegou a hora de lhe contar tudo! – convenceu-se Ivan, e, puxando o filho pelo ombro, encarou bem seus olhos e disse-lhe firmemente.

- Essa garota quer arruinar o nosso Império.

Bem distante dali, a menina brincava com a água crsitalina em suas mãos e o com o calor do sol dourando um pouco a pele muito branca de anos confinada em um castelo.

- Não vai me desculpar mesmo né? – perguntou Vicky mais uma vez, enquanto Agatha jogava água em Boo.

- Eu achei que você já tivesse mudado essa sua personalidade de sempre ficar roubando as pessoas!

- Péééé – Vicky emitiu uma onomatopeia imitando uma campainha – Resposta errada, docinho! Eu não roubei ninguém de você, porque o Dimitri nunca foi seu! Se alguém tinha de reclamar era a Lara…

- Não complique mais a situação Vicky! – aconselhou Lena – Esta não é a postura de alguém que quer ser desculpada.

- Não vai dar… – divagou a princesa, que agora, fazia tranças, em vão, no cabelo de Boo – Eu não posso simplesmente ignorar isso.

- O quê que você não pode ignorar? – perguntou Vicky, olhando confusamente para Lena, que também parecia não ter entendido.

- Tudo… – continuou a princesa – Eu preciso saber o que realmente aconteceu, preciso ir atrás dos fatos.

- Não diga nada filha… – tentou intervir a Rainha.

- Por favor, Vossa Majestade… eu preciso que me deixe seguir com a minha vida em paz.

Amélia tentou abraçar a filha, mas estagnou onde estava ao ver que a ruiva recuara alguns passos e se posicionava atrás de Boo.

- Não posso continuar enganando o povo com isso… muito menos ser ignorante mais uma vez na vida.

sábado, 29 de maio de 2010

“Todo Rei deve ser servir para ser servido. Mas os únicos para que um rei abaixa sua cabeça devem ser os deuses”
O Rei Ivan Gardner repetia aquelas palavras com afinco, como se necessitasse daquilo como ar ou água. No entanto, esquecia-se momentaneamente daquilo quando o jovem que parecia uma cópia do próprio rei entrava.
- Vita eternus ut Pium! (Vida eterna à Pátria) – saudou Oliver.
- At Pium eternus (A Pátria será eterna) – retribuiu o rei – O que trazes de novo?
- O território das Pedras foi conquistado meu Rei – informou Oliver – Brevemente estaremos às portas da Capital.
- Interessante – murmurou Ivan, de forma não muito animadora. Não porque estava desanimado em seu exército, muito pelo contrário. Aqueles bravos homens lhe renderam vários territórios e a rendição de nobres estrangeiros. Depositava grandes esperanças em seus soldados e mais ainda em Oliver, seu herdeiro e defensor de seu reino. – Assuma! Precisarei retirar-me.
Sem mais palavras, Ivan levantou-se do imponente trono que ocupara. Por dois dias, a responsabilidade a alegria em assumir o maior país do mundo seria a de seu mais fiel pupilo.

Seria aquele o pior lugar do mundo? Não, pois nem mesmo estava lá. Na verdade, era tão escuro, brutal e estarrecedor que poucos humanos se atreviam a ir lá e voltar com vida. O submundo horripilante fora o único lugar que restara à Deusa renegada pelos humanos e por seus iguais. Sentia-se esquecida e rancorosa? Talvez sim, mas por algo que pertencia à sua natureza desde sempre.
Permanecia espiando os pecados humanos pela grande água negra que jazia no recepiente raso e quase plano, mas de uma ardósia tão profunda quanto o seu conteúdo.
Lua se divertia com os humanos e seus erros estúpidos, suas tentativas de honra e caratér. Mas um era seu particular. Um Imperador ganancioso e corrupto tal qual sempre esperara. Alguém que a vingaria do dia em que fora banida e condenada às trevas para sempre. Lua o vira desde criança, enquanto acariciava seus lobos infernais, dóceis somente ao seu toque. Maligno, invejoso do irmão mais velho por tudo: desde brinquedos banais na infância, ao poder e ao matrimônio com a mulher mais bela do Império do Fogo.
Ao ostracismo eminente, Lua já não tinha tantos veneradores como antes. Suas filhas e filhos, no entanto, permaneciam fieis às suas ordens e anseios.
- Mande-o entrar – ordenou a fria Deusa diante da pequena menina de expressões vazias que lhe servia.
Pela porta de chumbo entrara o convidado e o humano com quem mais se divertia.

Durante os últimos 25 anos, a visita ao submundo virara uma rotina, um excêntrico retiro espiritual que Ivan Gardner repetia a cada dois meses. “Todo rei deve servir para ser servido, Mas os únicos para que um rei abaixa sua cabeça devem ser os deuses”. No seu caso, respeitava somente à Deusa Lua. Perdera toda a sua fé nos outros, quando os próprios, a seu ver, foram injustos com a sua pessoa. Falava-se muito nos deuses, mas somente aquela que todos tinham medo e sequer ousavam pronunciar seu nome é quem transformava seus anseios em realidade.
Em todo caso, era privilegiado entre os poucos fieis à Deusa da escuridão. Por convenção, nenhum humano passava pelos portões de fogo, a não ser que esteja desencarnado e sua alma flamejando de pecados. Mas Ivan Gardner apenas passava por ali, porque sua alma não pertencia mais à ele, e sim, à Deusa que encontraria a seguir. A pele arrepiava, não pelo frio, muito pelo contrário. As paredes eram de pedras recobertas por fogo. E nessa cortina macabra, rostos gritavam. Clamavam por socorro, expressavam seu sofrimento de estar ali. Poderia, em breve estar ali por seus pecados. Mas com certeza, seu sofrimento pós-morte seria muito maior que o daqueles infelizes.
- Faz tempo que você não aparece Ivan! – comentou a Deusa. Ivan andara ocupado demais em suas conquistas. – O que você quer desta vez?
Ivan aproximara-se ainda mais do trono de Lua, mas seu orgulho não deixava que ele prostrara-se frente à ela.
- O que lhe incomoda? – Lua deslizou até Ivan e acariciou seus cabelos vermelhos com seus dedos pontiagudos e esguios. – Eu sei o que está em sua cabeça, tudo! E posso resolver seus problemas em frações de segundos…
- Sim, um grande problema… um problema de cabelos vermelhos…
- Deseja eliminá-la?
- Sim.
- Por que? Ela é só uma princesa boba, que sequer sabe empunhar uma arma. Como tomará um reino?
- Mesmo assim, quero eliminá-la.
- Mande o menino.
- Oliver?
- Sim. – afirmou Lua, enfática – Ele não será o seu herdeiro?
- Claro… – concordou Ivan. Ele já estava de saída quando a deusa o chamou, mais uma vez.
- Traga-me o sangue dela.

terça-feira, 16 de março de 2010

     Agatha Tess abriu os olhos lentamente, o que não impediu que a luminosidade quase a cegasse. Vestiu o robe de cambraia verde e andou passos ligeiros e leves, como os de uma bailarina. Da sala da casa, vira Lena sentada no sofá, conversando com dois policiais.
    Sua presença foi logo notada pelo mais velho. Um homem de meia idade e barba grisalha. Ao seu lado, estava um mais jovem, de cabelos de um castanho ferruugem, anotando alguma coisa num bloco de notas.
 - Lamento Alteza! - desculpou-se o velho, depois de uma profunda mesura - Nunca na história de nossa cidade...
  Agatha levantou a mão pedindo para que parasse. Sofreu um golpe, aquilo era exclusivamente sua culpa.
 - O que levaram Agatha? - perguntou Lena.
 -Minha tiara real, um colar com um rubi e uma correspondência destinada ao Rei.
 - Como era a moça?
 - Não sei falar... Estava muito disfarçada... mas os olhos dela! Eles eram muito azuis... o cabelo não tenho certeza, parecia loiro. Do resto, não me lembro muita coisa.
  O jovem policial virou o caderno em que escrevia suas notas. Nele se viu um desenho muito bem feito. 
  - Co..co..como o senhor...
  - Só existe uma pessoa capaz de fazer isto. Vicky Valentine, a cobra do deserto... ninguém até hoje consegue pegar essa mulher!
 Agatha ergueu-se impetuosamente, como se sua vontade tivesse sido acendida por algo desconhecido. Então ela era Vicky Valentine, a mulher intocável, a quem ninguém na história daquele país havia conseguido.


  Ela entrou naquele bar que há alguns anos já havia frequentado. Mas desta vez não viera trabalhar (leia-se enganar alguém) e sim desfrutar dos prazeres da vida. Beber o melhor uísque, o melhor rum e ouvir as melhores músicas.
  Aquele rosto familiar sorria displicentemente sob o cartaz: "Procurada". Abaixo diversos crimes que ela praticara e que sorria de prazer ao vê-los, como se tivesse orgulho disso. Inúmeros assaltos, estelionato, falsidade ideológica, contrabando, curandeirismo, formação de quadrilha, etc, etc e etc. Mas hoje não estava ali para rir de seu próprio "currículo" e sim para gastar um pouco do dinheiro obtido da venda de um belo rubi.


 Oliver Gardner não era bem vindo ali, mas isso não significava que não era bem recebido, mesmo hipocritamente. Há anos a República da Terra dizia declarar guerra ao seu país, mas a cada dia, cada vez mais cidadãos do Império do Fogo se apropriavam da praia alheia. 
  Andava de um lado pro outro, possesso de raiva, descontando nos subordinados toda a raiva que sentia de si mesmo. Não era o primeiro, e nem seria o último a ser enganado por Vicky Valentine.
   - Maldita ladra! - repetia - Eu vou te encontrar, nem que seja no inferno!!
   
   Vicky atravessou pela porta, segura de si dos pés à cabeça. Os homens aglomerados sob a mesa de carvalho viraram automaticamente seus rostos quando viram a imagem conhecida:
  - Quem é viva sempre aparece, Vicky! - saudou um gordo e barbudo do meio da roda. Vicky se sentou numa das cadeiras da roda e espiou para ver qual era a boa.
  - Vai apostar, gata?
  - Dez moedas de ouro no 27 vermelho!
  - Tá cheia da nota hein, Vicky! - admirou-se um deles - Quem foi que cê enganou desta vez?
  - Um servicinho aí, bem legal até!  
   
   Perdia, ganhava, a vida era um jogo. Uma faca de dois gumes como ela. Mas uma faca poderia ficar cega... A porta foi escancarada escandalosamente por alguns soldados do fogo. Seus rostos foram direcionados justamente para a única mulher no saloon. 
  - Nem acredito que serei o primeiro a pegar Vicky Valentine, a cobra do deserto! 
    Trazia consigo um cartaz, prometendo mais quinhentas peças de ouro. Não se lembrava de nenhum bandido que valesse mais que isso. 
   A poeira invadiu o saloon, mas não do deserto. Dezenas de homens entrelaçaram-se, cada um tentando capturar a loira. Mas apesar de sua presença ser a mais marcante daquele local, ela conseguiu escapar rastejando tal e qual seu apelido, e ainda levando as moedas dentro dos bolsos de seus "companheiros".
    Sempre escapara, não importava como. Estava acostumada a dar golpes em todos: do simples operário ao fazendeiro rico. Sempre usando sua beleza natural e a inteligência desenvolvida pela necessidade. Mas agora ela enganara duas pessoas de uma vez, duas pessoas da realeza e tinha um exército inteiro no seu pé. Tinha ido longe demais?

quarta-feira, 10 de março de 2010

  No País de Agatha Tess, era absolutamente comum consultar-se com videntes, cartomantes e oráculos. Do camponês ao general, do operário ao nobre, até mesmo sua mãe, a Rainha, tinha um oráculo particular, que lhe orientava na administração do Reino.
   A cigana mirava com seus olhos azuis cristalinos, enquanto passava os finos dedos pela bola de cristal. A tenda toda cheirava a incenso enjoativamente doce, se a mulher não se apressasse, provavelmente Agatha ficaria asfixiada pelas finas fumaças.
    - Então a senhorita está aqui por que tem a cabeça confusa, princesa? - perguntou a cigana.
   Agatha confirmou com um aceno. Coincidência ou não, mas aquela desconhecida adivinhara um pensamento que nem ela mesma havia pensado. Desde que abandonara o Reino, essa era a palavra que resumiria sua vida: confusão.
   - Sua mão, querida, a sua mão.
   Agatha estendeu as mãos macias e perfumadas de princesa à cigana, que as apertou com um precioso tesouro. Agatha se reduzia a acompanhar passivamente a avaliação sobre seu futuro astrológico.
   - Vejo uma grande ferida! Uma grande confusão! A cabeça... não... que cabecinha nebulosa! Vejo... um ferimento... sangue.
   Mais uma vez a cigana adivinhara. Apesar de parcialmente oculta sobre as vestes, ela ainda sentia pontadas de dor no ombro, onde anteriormente havia sido atacada no deserto. 
   - Para curar uma grande ferida... precisa curar o corpo. A senhorita sofreu alguma ferida recentemente?
   - Fui atacada por falcões do deserto. - respondeu Agatha - As garras deles... rasgaram meu ombro. Ainda dói muito.
    A cigana tocou no curativo da Princesa. Ela soltou um uivo de dor, na certa, ainda não cicatrizara. 
    - Tem outra coisa, Madame Beaumont... - interrompeu Agatha. - Sou uma princesa do ar, mas tenho... dons de fogo.
     A cigana levantou uma sobrancelha visivelmente espantada com a revelação.
    - Quando, quer dizer... Você tem dom do fogo.
    - Acontece de vez em quando... Quando estou assustada e com medo...
   - Muito bem querida... O que você precisa para curar a ferida da alma e do corpo é de um mergulho nas águas termais sagradas... a única água que brota no deserto.

   No fundo da tenda, havia um compartimento com uma outra tenda. Lá havia uma enorme banheira feita em madeira com água fervendo. Dentro da banheira, algumas pétalas de flores e sais de banho. A mulher mandou a jovem retirar as vestes e guardá-las num cômodo mais ao fundo.
   - Fique o tempo que precisar querida... além disso... segure isso.
   A cigana deu-lhe um rosário de contas de madeira. Deu um sorriso afável e afastou-se.
   Como planejou, em pouco tempo, a menina adormeceu, entorpecida. Foi até o cômodo onde suas roupas estavam guardadas e revirou a mochila. Lá encontrou um colar real e um envelope com timbragem oficial. Colocou-os no decote do vestido e saiu à francesa.

    Não era fácil encontrar a ladra Vicky Valentine, a mulher mais esperta da República da Terra. Ganhava a vida dando pequenos e médios golpes, enganando os homens tolos com sua beleza, cantando em bares insalubres durante a noite e bebendo às custas dos clientes. Fugia de cidade em cidade, em cada uma delas dando um novo golpe, e escapando da polícia. Mas ele era o Príncipe do Império do Fogo! Nada era impossível para ele, nem encontrar a Senhora das Mil Faces.
    Seu novo esconderijo era denso pelos sete véus que passara até ver a silhueta de seus longos cabelos dourados. Vicky estava sentada em sua almofada de veludo, tragando um longo cigarro e contando maços de dinheiro, provavelmente obtido de forma ilícita.
   - Há quanto tempo não tenho a honra de receber a realeza! - saudou Vicky.
   - Como você sabia que era eu?
  - Nunca me esqueço dos cheiros das pessoas... especialmente daquelas que já passaram pelos meus braços - a ladra o abraçou suavemente e beijou o pescoço de Oliver.
   - Tenho um serviço pra você... pago bem...
   - Não quero Oliver... sabe que não trabalho pra ninguém... muito menos pra realeza. 
   - Tem uma pessoa que quero... eliminar...
   - Ora... mande um de seus homens... você não tem quase todo o planeta aos pés do seu país...
    - Se executar o serviço... pode ficar com o tesouro.
    Vicky, a pouco desinteressada, ficou com os olhos brilhando, faiscando de ganância.
    - Estamos falando de qual tipo de tesouro?
    - Tesouros reais... da Princesa do Reino Suspenso do Ar... E então?  
    
    Agora ela estava ali, com tesouros reais em suas mãos. Sua missão oficial estava inacabada, já que a menina ainda estava viva. Mas para ela isso não importava. Agatha era problema de Oliver e não era de seu feitio se envolver no problemas dos outros. Honrar compromissos? Isso não existia em seu vocabulário, afinal, ninguém mandou Oliver confiar nela. Seu papel era apenas pegar o tesouro e fugir dali, para aplicar um golpe em mais um tolo.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

     O odor putrefato da madeira em decomposição misturado ao cheiro do pescado nos compartimentos conferia àquele ambiente restrito ainda mais sensação de indignidade. As duas garotas eram mais duas das várias pessoas que pagaram vinte moedas de prata cada uma para entrar clandestinamente no Império do Fogo. A água era escassa e comida, quando os viajantes não levavam a sua, eram forçados a pagar um preço exorbitante por um prato de mingau insosso ou um pedaço de pão velho. 
     - Pagamos quarenta pratas por isso? - reclamava Lena, sem parar durante aquela viagem que já ultrapassava as vinte e quatro horas. 
    Agatha preferia concentrar seus esforços escrevendo com uma caneta cor de cobre sua fina caligrafia num diário. Dizia ela a Lena que gostaria de registrar toda sua aventura.
    Mas num momento, um risco manchou sua letra. O navio, começou a balançar fulgazmente enquanto gritos de ordem eram ouvidos pelos passageiros clandestinos. Goteiras de água salgada misturada com a água doce da chuva caíam por sobre eles. As crianças se abraçaram com as mães e estas por sua vez acalentavam os filhos e arregalavam os olhos.
     Um marinheiro alto, forte e com a pele tostada pelo sol apreceu e com a voz autoritária recolheu todos os pertences dos passageiros.
    - Ei, espera aí - protestou Lena - Vocês não têm o direito de pegar as nossas coisas!
    - Se não esvaziarmos o navio, vamos morrer afogados!
    - Então deveriam esvaziar coisas inúteis!
    - Escuta aqui, dona! A senhora veio porque quis! Se acha arriscado, por que não viajou como as outras pessoas?? Vamos, me dê sua bagagem.
    Lena balançou os ombros negativamente. Na verdade, suas coisas estavam na bolsa de Agatha, que ela prudentemente escondeu atrás das costas, onde o marinheiro não poderia ver.
    
    Quando a tempestade passou, Lena acordara Agatha com um cutucão: haviam chegado. Agatha saiu do barco sonolenta rumo ao cais pobre. A madeira parecia ainda mais podre que a do navio, e rangia sob os pés das duas. 
    O que viu foi uma feira pobre, na certa formada por produtos contrabandeados, navios pequenos descarregando e o mesmo marinheiro do dia anterior entregando uma pequena saca de moedas de prata a um fiscal. 
    - Não olhe - recomendou Lena - Continue andando.
    As duas continuaram a caminhar até chegar numa espécie de estábulo. Lena entregou a um condutor uma moeda de prata e subiram numa charrete puxada por um estranho animal, do tamanho de um cavalo, mas coberto por escamas verdes, como um lagarto.
    - O que é isso? - perguntou a princesa.
    - Equidilianos. Um tipo de quimera. - respondeu Lena - Pensei em economizar mais um pouco. Podemos comer quando chegarmos lá, o que acha?
     Mas Agatha não prestou muita atenção. Olhava pela carroça a paisagem do Império do Fogo. No horizonte, vários montes formavam uma formação essencialmente cinza, como o chumbo.
     - O que é aquilo ali?
     - A Planície do Fogo. - respondeu Lena - Já li que lá tem mais de cem vulcões, a maioria ativo.
     - Se são ativos, por que as pessoas moram lá?
    - O Império do Fogo não os considera exatamente pessoas... Eles mandam pra lá imigrantes e pessoas pobres. E o pior é que eles nem conseguem se rebelar! O Imperador mandou construir a Vila Militar ao redor da Planície só pra coibir quaisquer manifestações...

    Três dias se passaram até que as viajantes chegaram a seu destino final. Era uma grande vila com casas suburbanas e elegantes. Essas casas variavam por rua sendo mais ou menos luxuosas mas todas muito confortáveis. 
    - Essas casas devem ser as dos tenentes, a patente oficial mais baixa. Se minha irmã se casou mesmo com esse homem, deve morar nessa rua.
     - E se ele foi promovido?
  Lena deu de ombros. Não havia pensado em tal possibilidade.
     - Por que simplesmente não perguntamos?
     Lena se preparou para pegar a amiga pelos ombros e lhe falar que aquilo era uma péssima ideia. Mas quando deu por si, a menina já havia se adiantado à casa mais próxima e batido na porta. 
     Foi atendida por uma velha baixa, gorda e desarrumada. Trajava apenas chinelos de pelúcia cor de rosa e uma rendinha no cabelo repleto de bobs. Parecia estar com sono pois nem olhou para Agatha.
      - Não vou comprar nada! - resmungou a velha, já fechando a porta. Só foi impedida pelo pé de Agatha que insistiu.
    - Por favor, senhora! 
    A velha olhou para o rosto de Agatha e como se tivesse visto uma coisa de outro mundo, arregalou os olhos. 
    - Cabelo Vermelho?
    Sua atitude mudara completamente. Acordou num instante e puxou a moça para dentro da casa.
   - Não repare a bagunça! Sente-se por favor! Eu não acredito! Uma parenta direta do Imperador em minha casa!
   Agatha abriu os braços para Lena, ainda do lado de fora, e as duas se entreolhavam estupefatas. Lena decidiu entrar e as duas se sentaram num confortável sofá de couro branco sintético. A anfitriã voltava da cozinha depois de bater levemente na empregada, uma mocinha miudinha.
   - Pedi um chá com biscoitos para a senhorita! Acredito que esteja com fome!
   A mulher adivinhara. De fato, Lena e Agatha não comiam decentemente há dias. 
   - O que a traz aqui? Já sei! Alfred recebeu uma promoção? Eu sabia, sabia que um dia o Imperador reconheceria o esforço do meu Alfred, que tem se mostrador tão leal ao nosso Império...
  - Na verdade, não minha senhora! Estamos procurando informações sobre uma pessoa, uma jovem estrangeira...
   - Então a senhorita é do Ministério da Imigração!?! Graças aos deuses que minhas cartas foram respondidas! Aquela mulher, do Reino da Água, uma depravada! Acredita que o marido, que hoje é capitão, um ótimo partido, sabe, a conheceu num prostíbulo! Isso mesmo, uma prostituta, uma mulher que vende seu corpo!
   - Um absurdo hein? - disse Lena, sarcasticamente - Uma mulher imoral no meio de tantas senhoras distintas!
   - É isso que eu acho, mocinha! Já escrevi inúmeras cartas pra tirarem essa mulher daqui! Uma prostituta, francamente, esses soldados, ainda bem que meu Alfred não se envolve com essa laia.
    - E a senhora sabe qual é a casa dessa moça?
    - Na Rua de Cima, a Rua dos Capitães, na casa azul, não tem erro, é a única da rua!
    - Bem, obrigada! - despediu-se Lena sorrindo falsamente - A senhora é uma cidadã exemplo dessa comunidade!
    As duas saíram polidamente da casa. A velha ainda ficou se vangloriando quando a empregada chegara com o chá.
    - Esperem, esperem! O chá!

   - Meu Deus! - desabafou Lena - Ela é um pesadelo! É claro que o marido tem meia dúzia de amantes, quem ia querer uma matraca como ela?
   - Deu pra ver que a sua irmã é bem popular por aqui, hein?
   Conforme a mulher disse, só havia uma casa azul naquela rua. Tinha dois pavimentos e um bonito jardim no lado de fora. Não era absurdamente grande, como as casas das ruas acima, mas mesmo assim, oferecia um grande conforto.
     As meninas bateram palmas em frente ao portão de ferro. 
   - Vocês tão atrás da mamãe? - disse um menininho de uns cinco anos, brincando com uma bola.
    Uma sombra apareceu por entre as persianas. Lena viu de relance uma imagem familiar. A sombra apenas pediu ao menino que entrasse antes de fechar a persiana. Quando Lena já adquirira um semblante frustrado, a porta se abriu. De dentro saiu uma mulher de vestido de renda branca e coque no cabelo. Tinha mais ou menos trinta anos e embora mais velha, inconfudivelmente era a irmã procurada.
    
    Em condições normais já teria retornado para o Palácio Imperial, mas queria dar tempo ao tempo e esperar que a derrota nas Geleiras não afetasse tanto o pai. Decidiu voltar apenas quando ficou insustentável não aparecer no Palácio, isso lhe dava a sensação de estar se escondendo do Imperador.
    Aquele definitivamente era o maior Palácio do mundo. Seu tamanho e luxo traduziam a qualquer visitante uma mensagem subliminar do Imperador do Fogo, a de que seu governo era sólido, firme, luxuoso, imponente e amedrontador. Amedrontador sim, seu tamanho significa aquilo até mesmo para Oliver Gardner, que se julgava valente.
    Entrou dentro do Palácio adornado com várias estátuas de ouro estrangeiro. No fundo, precedido por um comprimento notável, um trono que atingia o teto, adornado de vermelho e ouro, delimitado apenas por um grande dragão, em ouro maciço, que mirava o Imperador como se estivesse o adulando.
    Oliver se aproximou a ligeiros passos pelo mármore escuro. A cada dez passos, tinha um degrau e assim sucessivamente. Oliver se adiantou até ficar a dez passos do pai.
    Em frente ao trono, Oliver ajoelhou-se em uma almofada de veludo vinho. Abaixou a cabeça e apenas ouviu o pai falar.
     - Levante a cabeça, Oliver! 
    O Príncipe atendeu ao pedido prontamente. Os olhos do pai pareciam frios, como sempre.
    - O que aconteceu?
    - Os soldados do Reino Suspenso do Ar aparecerão de repente. Estavam em vantagem numérica e...
    - E por acaso, você tem alguma ideia do porquê disso?
    Oliver balançou a cabeça negativamente. 
    -Você sabe sim Oliver, eu sei que sabe. Se não soubesse, não teria jogado a Princesa do Reino Suspenso do Ar pelos céus.
    - Meu pai, eu...
    - Sim, Oliver, ela não é herdeira legítima do Trono do Ar... Ela tem o dom do Fogo, cabelos vermelhos... Ela voltou simplesmente para roubar o seu trono, como os pais dela tentaram fazer há quase vinte anos.
    Oliver levantou uma sobrancelha.
    - Tive que matá-los sim, Oliver. Do contrário, meu irmão e a esposa roubariam meu trono, o qual tenho direito. Fui misericordioso demais e deixei a criança viver... o resultado está aí agora.
    - Se é o seu desejo e para o bem do nosso Império... Eu a acharei e a matarei... Essa ursupadora de poder!

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

      Sentiu-se um tremor. Mas não era a atmosfera criptante de guerra, nem os ventos gelados que cortavam aquela terra.
      Velas negras e bandeira flamejante. Assim surgira a fragata do Império do Fogo pelo frio oceano glacial, cuja proa só era possível ver um tripulante: Oliver Gardner. Rasgou o gelo como se rasga uma folha de papel.
     Pela rampa do navio, o Príncipe foi o primeiro a descer. Vestia sua armadura e não trazia à mão nenhuma arma, exceto um bastão. Os homens, seus comandados, estes sim, vinham armados até os dentes. E mesmo com a desordem dentro do quartel general, os soldados desciam calmamente, como se estivessem num desfile militar.
      - Matem a todos estes desordeiros! - ordenou Oliver - E eu mesmo quero cortar a cabeça do líder!
      
     Por debaixo da capa de tecido grosseiro, trajava as roupas brancas com lilás, o único indício de sua verdadeira natureza. Apesar dos inúmeros avisos, também fazia parte de sua personalidade misericordiosa ajudar os outros quando necessitavam de sua ajuda. E assim, Agatha Tess infiltrou-se entre os soldados, ajudando-os a invadir o Quartel.
    - Agatha! - gritou Lena Brown, a primeira a reconhecê-la - Não deveria estar aqui! Julian foi bem claro.
     Não precisou que Julian dissesse nada, afinal, ele apareceu logo depois, quando desviara de ataques dos soldados. O objetivo era próximo, só mais alguns metros, e eles chegaram à sala central, onde a vitória seria, enfim, decretada.
    - Chefe! - berrou um aliado. Entrara desesperado, chorando como se não estivessem à beira da vitória - Está tudo perdido chefe! O Príncipe chegou com a Marinha Imperial! Mais de mil homens.
    O sorriso transformou-se em uma momentânea desolação, que fora substituída por uma sede de luta. Julian passou por entre os aliados, disposto a ir lá fora e enfrentar ele mesmo, o maldoso Príncipe estrangeiro.

    Agatha saiu à francesa, antes que Lena ou Julian a repreendessem de estar ali. Ela, que não tinha grandes habilidades de luta, ajudava os soldados feridos, de forma a não deixá-los para trás. Nada ouvira da notícia de estarem os soldados inimigos lá. Mas também desceu ao exterior do quartel, pois a maioria dos soldados estava lá.
     O que viu não foi nada animador. Centenas de homens representando o Império do Fogo e dezenas de aliados seus, caídos no chão, ou muito feridos ou mortos. Talvez nenhum pensamento lhe passou pela cabeça, apenas saíra correndo, onde, num clareira formada pelas batalhas individuais travadas, a melhor delas se esboçava. De um lado, um soldado do Fogo com insígnias brilhantes em seu uniforme. Do outro, um rapaz cuja face era marcada por queimaduras e escoriações. Ao redor deles, cada homem travava sua batalha, deixando aquele espaço, uma outra dimensão entre os dois adversários.
     Quando a garota chegou, só pôde ver uma grande labareda de fogo saída das mãos do nobre e atingindo o tórax de Julian em cheio.
    - Julian! Julian! Fale comigo por favor! Julian!
    - Não adianta chorar, garota! - disse-lhe o oponente - Morrerá dentre poucas horas!
     Aquela voz. Não, não poderia ser. Tirara o capuz que envolvia-lhe o rosto, e quando olhou para ele, não foi com temor, como na última vez, mas com um misto de pena e raiva.
     Oliver pareceu também ficar surpreso. Olhava abismado para Agatha, não com medo, mas... com espanto.
     - Não pode ser! Não pode ser! - repetia Oliver com tanta enfâse, para acreditar - Como você está viva? Caiu do céu... e ainda vive?!?!
     Das mãos de Oliver saiu mais uma labareda, que Agatha apenas pôde desviar. A princesa rolou pelo chão, esbarrando num corpo de um soldado do Fogo, agonizando de dor. Levantou-se rapidamente e, unindo a ponta do indicador com o outro, conseguiu revidar, criando uma rajada de fogo mais forte ainda que a de Oliver. 
     Enquanto o Príncipe reagia embasbacado por ser emboscado por uma garota, Julian se levantou. Sacou a espada da bainha e tentou atacar Oliver, que bloqueou usando seu bastão.
     - Você não vai machucar a Princesa, Oliver! - ameaçou Julian - Se não, vou ter que tirar sua vida aqui mesmo!
     Julian empurrou com seu bastão o oponente que caíra mais uma vez. Agatha aproveitou a brecha para saltar e atingir Oliver com suas unhas.
    - Dizem que quando se mata alguém da família real, as almas atormentam nosso sono à noite! Será verdade?
      
     O ar mais uma vez tremulou. Fortes rajadas do vento frio invadiram o campo de batalha; renovou-se o espírito de luta dos guerreiros. Os cavalos brancos, alados e gigantes abriram espaço bem no combate. Era muitos, incontáveis, muito mais de mil. Os homens usavam roupas brancas e lilás com armadura ouro e prata. As mulheres, arqueiras, idem, e ainda usavam um capacete de um azul muito intenso.
   - Cabeças...de...ágata? - murmurava Agatha - Isso... Dimitri!!
   Montado num cavalo prateado, vinha o comandante daquela tropa: Dimitri Braus.
   -Tire suas mãos imundas da Princesa do Meu Reino, Oliver!
   Agatha foi atirada para trás. Caiu quase por cima de Julian, que ainda se arrastava.
   - Muita petulância sua, infante! - provocou Oliver.
   - Você perdeu Oliver! Entregue as Geleiras ao povo em paz e eu deixo que você volte pro seu navio com seus subordinados e seus mortos!
    - Jamais sem lutar!
   Oliver nem mesmo chegou a atacá-lo. O Prícipe foi arrastado pela multidão de soldados remanescentes e praticamente empurrado de volta ao navio. Ainda se ouviu gritos de advertência e ameças de punição vindos de Oliver, mas se tornavam distantes à medida em que a fragata de Velas Negras se afastava definitivamente das Geleiras.

   A madrugada foi dedicada para cuidar dos feridos, inclusive Julian, pois na manhã, os guerreiros do Ar seriam homenageados com um grande café da manhã.
   - Por que vocês vieram Dimitri? Como me acharam?
   - Vossa Majestade Sua Mãe estava muito preocupada com Vossa Alteza depois do ocorrido no Templo do Sul. Fui encarregado de achá-la.
   - Não quero voltar Dimitri, deixei isso bem claro pra mamãe.
    - Mas Vossa Majestade sequer pode dar as costas que Vossa Alteza decide fazer uma revolução nas Geleiras? Mais cedo informei à Vossa Majestade que estava pensando em ir à República da Terra. Continua com essa vontade?
    Agatha ficou pensativa. Tinha que cumprir sua promessa à Lena, mas se revelasse seus planos a Dimitri, com certeza ele a arrastaria de volta para casa. Confimou com um vacilante aceno.
   - Ótimo. A Rainha me pediu para entregar-lhe isso. É um pergaminho para ser entregue ao Rei da República da Terra,  Rei, não aos cônsules.
   A manhã nascera bela e brilhante, como nenhuma outra manhã. Aquela seria a primeira manhã das Geleiras livres do Império do Fogo.
    - Me perdoe Minha Princesa, por não ter te protegido! - desculpou-se Julian - Se algo tivesse acontecido com Sua Alteza, jamais teria me perdoado.
     Agatha desculpou-o com um breve sorriso.Terminara seu dever, agora era a hora de partir.
    - Coronel Braus, estou lisonjeado com sua ajuda! As Geleiras são infinitamente gratas ao Reino Suspenso do Ar.
    - Somos aliados! O Império do Fogo é nosso inimigo maior agora.

    Chegara a hora da despedida. Os soldados do Reino do Ar já haviam ido. Lena e Agatha, já arrumadas suas coisas, partiriam de navio para tentar entrar no Império do Fogo. Antes, no cais, a imagem do herói da revolução esperava por Agatha.
    - Eu lhe disse Minha Princesa! Que sua ajuda seria muito útil para a nossa causa.
    - Acho que eu que deveria lhe agradecer Julian. Graças a vocês, agora começo a entender o papel de uma Princesa.
     - Obrigado, Princesa...
   - Mas acho que você deveria pensar nisso também, afinal, já que conquistou a Geleira do Sul, nada mais justo que...
   - Não posso ser o Rei dessa Geleira, Princesa... A família real da Água ainda existe e mesmo assim... Os reis e rainhas descendem dos deuses Ar, Água, Fogo e Terra. Eu não tenho tal descendência!
   Agatha balançou a cabeça tristemente.
   - Mas se um dia... se eu unificar todo o Reino da Água novamente... queria ter Vossa Alteza ao meu lado.
    Julian se inclinou para alcançar os lábios rosados dela, mas a Princesa apenas deixou-lhe que beijasse seu rosto.
    - Não espere por uma Princesa Amaldiçoada!

   O navio mercante partiu levando duas jovens clandestinas rumo ao Império do Fogo. Mas não iriam lá para conseguir esmolas dos cidadãos, mas sim para cumprir uma promessa.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010



       Não era bonito. Embora em seu rosto transparecesse o fulgor da juventude, às vistas comuns não seria considerado bonito. Não... Mentira. Talvez algum dia tenha sido bonito, nos dias em que sua nação não era submetida aos poderes estrangeiros. Quantas escoriações, quantas queimaduras causadas pelos usuários do Fogo, quanta humilhação teria ainda de suportar? Era a primeira vez que Agatha Tess o via como uma pessoa e não como inimigo.
  - Hoje é o meu dia de sorte, Alteza! - dizia o rapaz - Com Vossa Alteza ao nosso lado, tenho certeza da nossa vitória!
  - Me perdoe Julian, mas até agora não entendi no que eu posso ser útil! Não sou guerreira, quer dizer... aprendi um pouco de artes marciais no Palácio para fins defensivos...
   - A senhorita vai compreender! - Julian juntou suas mãos às dele - Sua simples presença já é o suficiente para dar esperança aos nossos soldados!
   
   Há anos as Geleiras eram dominadas pelo Império do Fogo. Eles forçavam o povo a pagar altos tributos e não faziam nada em troca: a população não tinha saúde, educação, alimentação, segurança... nada. Mas alguns começaram a lutar, e foram expurgados de sua própria terra, formando assim a Cidade Oculta da Montanha. 
   - Tem certeza de que quer ficar, Lena? - perguntava à amiga enquanto as duas ajudavam nos preparativos.
   - Meu pai não me perdoaria se eu deixasse de ajudar nossos compatriotas! Se pudermos fazer algo, nem que for só um pouquinho...
  Lena tinha razão. Precisava ajudar, nem que fosse apenas com suas palavras. Era parte de seu dever como Princesa, mesmo que aqueles não fossem seus súditos.
   
  Todos se reuniram na noite que antecedia a rebelião. Julian, ao centro, era o que explicava todo o plano num pequeno mapa.
 - Depois do anoitecer, o grupo A entrará pelos túneis e evacuar a população. Mandarão um sinal e é aí que nós entramos... Atacamos com todas as nossas forças o quartel-general do Império do Fogo! E não se esqueçam! As casas evacuadas deverão ter uma cruz branca na porta!
   Todo mundo estava se empenhando para vencer o Império do Fogo. Até mesmo Lena treinava arduamente seu arco e flecha.
  - Não sabia que era uma arqueira tão boa!
  - Às vezes eu pescava com arpão com o meu pai. Mas quando os peixes começaram a ficar podres, eu e minha irmã costumávamos caçar nas montanhas.
   Agatha apenas balançou a cabeça. Vira o esforço de todos, se  sentiu semi-inútil.
  - Não pense que não cumpriu sua parte Agatha! Olhe para essas pessoas! Elas estão felizes de terem a Princesa do Reino Suspenso do Ar ao seu lado! 
    - Eu queria ser mais útil! Lutar também!
  - Eu acho que você ainda não compreendeu o seu papel como Princesa... A lenda nos ensinou que vocês da realeza são os próprios filhos dos deuses! É por isso que ter a família real ao lado do povo é tão importante!

 Ao pôr-do-sol, Julian reuniu todos no hall principal da Cidade Oculta da Montanha. Agatha estava ao seu lado, vestindo vestes reais cor lilás e a tiara de princesa. Quando Julian terminou seu discurso, pegou cuidadosamente na mão da princesa, convidando-a a dar umas palavras.
  - Eu nunca fiz um discurso na vida Julian, nem sei o que falar - cochichava 
   - Apenas fale o que está em seu coração. 
   A princesa pôs-se de pé. Não era uma população maior que a do Reino Suspenso, onde sempre via sua mãe discursar com segurança. Agora era ela que estava ali, em pé, olhando para cada rosto apreensivo.
   - Bem, eu... eu - Agatha balbuciava e olhava para Lena e Julian, os olhos gritando por socorro - Eu me sinto honrada por estar aqui hoje com vocês. Faz algum tempo que saí do Palácio Real e... Bem, quis conhecer o meu povo... E pelo que constatei, embora o nosso reino ainda tenha certa prosperidade, é que o Império do Fogo está... A guerra que o Império do Fogo está nos imprimindo... Estamos perdendo prosperidade com a guerra. E aqui no Reino da Água, nem sequer a família real luta ao lado de seu povo contra a opressão. Simplesmente o povo da Água foi abandonado à sua própria sorte. E isso não é justo. E é por isso que estão lutando. Estão lutando pela sua pátria e contra a humilhação de seus conterrâneos. Podem ter certeza que os ventos levarão seus nomes para os quatro cantos do mundo e serão conhecidos, seja qual for o resultado, como o povo que desafio o Fogo! Embora eu tenha maior esperança de que serão Aqueles que derrotaram o Fogo!!!
  Agatha fechou seus olhos e quando os abriu, viu um povo vibrante, sacudindo os braços no ar e urrando de tanta felicidade.

   O plano de Julian saiu conforme o esperado. A população da Capital do Gelo, como era conhecida a capital das Geleiras, fora evacuada rumo à Cidade das Montanhas. Só faltava o Quartel a ser invadido. Mas aí do oceano Glacial Sul surgiu um navio de velas negras que tremulavam por causa dos ventos gelados. À frente, trazendo mais de mil homens, estava o Príncipe do Império do Fogo, Oliver Gardner.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

           Milhares de garotas, segundo a mãe, invejavam a vida que Agatha Tess tinha. Um palácio gigante, um quarto cheio de luxos, guarda-costas, roupas e jóias fabulosas... Mas Agatha não se julgava mais que uma simples princesa confinada em seu palácio. Os poucos dias que saía era simplesmente para ficar ao lado da Rainha enquanto discursava. E só.
       Nunca usava a tiara real. Apenas um turbante para esconder seus belos cabelos vermelhos. Aqueles cabelos vermelhos... eles eram o motivo para que a Princesa vivesse reclusa no Palácio.

       Tinha apenas seis anos e se preparava para deixar os estudos particulares do palácio para ingressar na Escola Regular. Conhecer crianças... pessoas novas! Ter amigos que não a chamassem de Vossa Alteza. 
        Suas expectativas foram frustradas logo ao chegar na sala de aula. As crianças a olhavam com perplexidade e até com um pouco de receio. Agatha não se importou, afinal, era a primeira vez que elas viam a Princesa do Reino Suspenso do Ar tão te perto.
       -Oi - saudou a garota, animada. Mas não recebeu nenhuma resposta enquanto a professora não olhou com a cara feia para os alunos.
       Seus dias escolares, para a sua frustração, pareciam piores que suas aulas no Castelo. As crianças, os professores, todos a olhavam com a cara mais esquisita do mundo e tentavam se distanciar o máximo dela, embora Agatha estivesse se esforçando para ser o mais gentil possível.
           Depois de dois anos sendo apenas tolerada, a princesa enfim, começava a se integrar e  a conhecer pessoas diferentes. A primeira, exatamente, não seria uma pessoa diferente, e sim, seu primo distante, Dimitri, quatro anos mais velho que ela.
            - Parece que finalmente as pessoas começam a me aceitar nessa escola - desabafava a princesa.
             - Não fique tão preocupada, Agatha, as pessoas não estão tão acostumadas a ter a Princesa de seu país como colegas de sala!
           - Não é isso Dimitri! Ainda sinto que tem pessoas que não gostam de mim de verdade.
         Agatha se referia a Clara Duboc, que estudava com ela desde o primeiro ano. Clara sempre a tratava com desdém e parecia incentivar as pessoas a se distanciarem de Agatha. A princesa, é lógico, teve essa certeza e foi tirar satisfações com ela.
        - Qual o seu problema comigo? O que eu fiz pra você? - perguntava a princesa.
        - Só não quero você perto de mim! Você dá agouro!
        - Eu??? 
      - As pessoas tem de ficar longe de você, Princesa Amaldiçoada!!
        Agatha não soube explicar o que aconteceu. Apenas que depois de ser ofendida, a colega fora arremessada a alguns metros e seu cabelo chamuscado.
        - Princesa Amaldiçoada! Princesa Amaldiçoada!! - ela chorava - Símbolo do Fogo! Fogo!

        Só depois desse dia que Agatha soube qual era o real motivo de ser chamada de Princesa Amaldiçoada. Conforme Dimitri lhe disse mais tarde, a família real era distinta dos demais pela cor do cabelo, e o da família do Ar era de cor roxa. Além disso, ter dons de fogo não era comum para uma descendente direta do Deus Ar.
        Foi por causa de seus cabelos que ela saíra da escola e terminou seus estudos no Palácio. Agora, aos 18 anos, estava pronta para ir à Universidade. Ou não...
        - Mamãe, não quero ir pra Universidade - contou Agatha à Rainha Amélia.
        - Mas que besteira é essa, minha filha? Como assim você não deseja ir pra Universidade! É uma princesa, tem que se preparar pra um dia ser uma Rainha!
        - Não quero mamãe! Como serei uma Rainha se não conheço o meu povo? Ou pior: se pensam que eu sou uma Princesa Amaldiçoada?
        - Agatha, já conversamos sobre isso, filha... Não há nada de Princesa Amaldiçoada, tudo isso é lenda!
        - Lenda ou não, mamãe, mas por toda a vida vivi confinada nesse palácio! Preciso conhecer o meu povo e sozinha!
        Amélia não teve outra escolha a não ser deixá-la ir. Afinal, de certa forma, ela entendia a filha. Também ganhara o trono de uma hora para outra e foi obrigada a amadurecer para se tornar uma boa Rainha. Não queria que Agatha herdasse o Reino sob as mesmas circunstâncias. Ela estava ficando velha, suscetível a doenças... e se morresse? Sua filha teria que passar pelo que ela passara também?

        Dos dez dias que a Princesa percorreu todo o Reino do Ar, pôde constatar que nas regiões mais afastadas o povo ainda vivia isolado. Alguns até não sabiam quem era o Rei ou Rainha. Agatha percebeu como fora ignorante! Como cometera erros! Aquelas pessoas também eram parte de seu povo, a quem ela deveria proteger! Mas era uma princesa inútil e impotente que nem tinha mesmo o Dom do Ar.
        - Se procura pelo Dom do Ar, precisa ir a um dos Templos das Nuvens. Há um em cada parte do mundo, mas você precisa ter cuidado com o Império do Fogo!
        Agatha decidiu ir a um desses Templos. Precisava aprender o Dom do Ar de maneira mais rápida possível.
        - Qual o Templo mais próximo daqui?
        - O mais próximo daqui é o do Sul, acima das Geleiras. Mas cuidado! Nas geleiras do Sul tem tropas do Império do Fogo!

        Agatha rumou ao Templo do Sul. Estava abandonado há muito, exceto por um monge que persistia em cuidar de um enorme templo sozinho. 
        - Estranho! - disse o monge - A senhorita ser da família real e não possuir o Dom do Ar!
       Agatha sentiu um tremor no Templo. Terremoto? Não era possível, estavam nas nuvens! 
        - Proteja-se princesa! O exército do Fogo! 
        Agatha escondeu-se atrás de uma estátua do Deus do Ar. 
        - Entregue o Templo, monge! - ordenou uma voz masculina, grave. Agatha observou com o canto de olho. Era um soldado vestindo trajes vermelhos, jovem, e de cabelos vermelhos.
       - Príncipe Oliver, não profane o Templo do Deus Ar! - advertiu o monge.
        - Pro inferno com seu Deus! - e dizendo isso, o jovem sacou sua espada e decepou a cabeça de pedra da estátua do Deus Ar. - Entregue-me as chaves do Templo!
        O monge escondeu a chave em suas vestes. O jovem soldado, irritado, mandou seus homens pegarem o que quiserem do templo.
        - Não faça isso, Príncipe Oliver! Não desafie os deuses!
      - Pois avise pessoalmente ao Seu Deus que Oliver Gardner, Príncipe do Império do Fogo, não teme a nenhum Deus! - Oliver sacou mais uma vez sua espada e decepou a cabeça do monge, que rolou até perto da princesa. Ela não se conteve e soltou um grito de horror.
       - Ora, ora, ora! Sobrou uma sacerdotisa?
       - Seu monstro! Como pode não respeitar a crença dos outros?
       - Garota tola!
       - O senhor desrespeitou um acordo! Eu, como Princesa do...
        - Princesa? Então você é uma princesa!! - Oliver retirou o turbante da princesa, revelando seus cabelos vermelhos. - Cabelos vermelhos?
        Oliver atacou a princesa com o Dom do Fogo. Ela não pôde fazer nada a não ser fechar os olhos.
        - Princesa do Ar com Dom do Fogo?
        Agatha abriu os olhos. Não estava morta e sim, vira Oliver com parte da vestimenta chamuscada.
        
        A Princesa desfaleceu com o Dom do Fogo. Oliver a carregou nos braços até chegar na beira do Templo.
        - Preciso me livrar de você, princesinha! Se não ainda vai me trazer problemas! - e dizendo isso, soltou o corpo inerte de Agatha no ar. Se ela caísse em terra ou mar, não importava, estavam no céu, e daquela altura, nem a descendente de Ar sobreviveria.