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Louca/Estranha/Anormal/Distante/Fria/Egocêntrica E muitas outras mais... Autora de Angelus, Tokyo Revivers e A Cor da Lágrima, codinome: Horigome Namika
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terça-feira, 24 de agosto de 2010

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O relógio tiquetaqueava no ritmo de seu coração. Ivan Gardner não queria admitir, mas para Lua, mentir parecia impossível.

- Xeque! – anunciou quando finalmente concluiu a jogada. Avançou um de seus bispos e ameaçou o Rei da adversária.

Lua virou o jogo numa jogada bem simples… utilizando sua rainha, capturou o bispo de Ivan.

- Chega! – Lua, de personalidade intempestiva, decidiu terminar o jogo ali, quando melhor lhe conviesse.

Ivan atendeu ao seu pedido e largou a peça em qualquer lugar. Lua desceu do trono e ordenou a uma de suas criadas que lhes trouxessem bebidas…

- O tempo está passando Ivan! Sabe que ele não é conveniente nem pra mim nem pra você!

- Estou precisando de mais almas Lua! A República deve cair primeiro!

- A República está em ruínas, Ivan! Porque não a derrota de uma vez?

- Porque eu tenho um plano…

A sala de reuniões era a maior do Castelo. Imitava em grande parte a sala em que se reunia com Lua. Pilares de concreto com dragões expelindo fogo, um grande mapa do mundo em alto relevo indicava a localização de todas as tropas. Ao redor, todos os generais, o ministro de Guerra e claro, a presença ilustre do Imperador.

- Vita eternus et Pium!

- At Pium eternus!

Ivan congratulou todos os seus generais pelas sucessivas conquistas. Oliver, é claro, recebeu grandes honras.

- Estamos chegando à capital, Meu Imperador, logo estaremos às portas do grande planalto.

- Nossa situação é favorável com os deuses, Meu Imperador?

- Os deuses?? EU sou o Deus desse mundo… os deuses temem a mim!

Todos se calaram. A arrogância e prepotência de Ivan eram conhecidas por todo o Império. Muitos ainda temiam os deuses, principalmente os velhos. Mas Ivan os desafiava sem pensar. Inicialmente se intitulava o enviados Deles, décadas depois, se dizia mais forte que os próprios deuses.

- Quero a cabeça do Rei da República da Terra em minhas mãos o mais rápido possível!

- Em alguns meses o senhor a terá!

- Meses? – Ivan riu sarcasticamente – Quero em semanas!

Assim que a longa reunião acabou, restaram na oca sala apenas o filho e o pai, o que há muito não eram. Oliver era o defensor, o sucessor, a continuação da maldade ardilosa do sangue ardiloso de seu pai.

- Como estão suas fontes sobre a Princesa?

- Pensei que ela não era mais importante… – Oliver tentou dissuadir o pai. Não era de seu feitio e também não tinha paciência de perseguir uma princesinha inútil. Mas pensou melhor: não era agradável contrariar o pai – Digo, meus contatos me informaram que ela voltou pra casa com a ladra do deserto e com a aldeã do País da Água.

- Quero ser informado sobre tudo. Qualquer passo que essa pirralha der!

- Pai… – Oliver interrompeu o pai, sabendo quais as consequências que poderia enfrentar. Não era da natureza de Ivan ser questionado – sobre qualquer coisa – e muito menos de perdoar a quem o desagradasse – Por que o interesse nessa garota?

- Enfim, chegou a hora de lhe contar tudo! – convenceu-se Ivan, e, puxando o filho pelo ombro, encarou bem seus olhos e disse-lhe firmemente.

- Essa garota quer arruinar o nosso Império.

Bem distante dali, a menina brincava com a água crsitalina em suas mãos e o com o calor do sol dourando um pouco a pele muito branca de anos confinada em um castelo.

- Não vai me desculpar mesmo né? – perguntou Vicky mais uma vez, enquanto Agatha jogava água em Boo.

- Eu achei que você já tivesse mudado essa sua personalidade de sempre ficar roubando as pessoas!

- Péééé – Vicky emitiu uma onomatopeia imitando uma campainha – Resposta errada, docinho! Eu não roubei ninguém de você, porque o Dimitri nunca foi seu! Se alguém tinha de reclamar era a Lara…

- Não complique mais a situação Vicky! – aconselhou Lena – Esta não é a postura de alguém que quer ser desculpada.

- Não vai dar… – divagou a princesa, que agora, fazia tranças, em vão, no cabelo de Boo – Eu não posso simplesmente ignorar isso.

- O quê que você não pode ignorar? – perguntou Vicky, olhando confusamente para Lena, que também parecia não ter entendido.

- Tudo… – continuou a princesa – Eu preciso saber o que realmente aconteceu, preciso ir atrás dos fatos.

- Não diga nada filha… – tentou intervir a Rainha.

- Por favor, Vossa Majestade… eu preciso que me deixe seguir com a minha vida em paz.

Amélia tentou abraçar a filha, mas estagnou onde estava ao ver que a ruiva recuara alguns passos e se posicionava atrás de Boo.

- Não posso continuar enganando o povo com isso… muito menos ser ignorante mais uma vez na vida.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

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O fogo criptava. Chamas bailando pela escuridão nefasta. Acima dela, somente as estrelas e o ulular do vento frio da noite primaveril.

As duas amigas foram chamadas às pressas. Todos à postos, procurando uma princesa angustiada, com um coração sangrando. Lena parecia confusa e perdida… não era segredo que Agatha não amava seu noivo, mas por que fugir depois de algumas semanas? E por que não comunicou nem a ela ou à Vicky? A loira, por sua vez, não deixava de sentir uma ponta de remorso por dentro, mas mal sabia conhecer apenas uma parte da verdade.

Três dias já haviam passado. O frio da viagem já chegava-lhe no corpo. Não comia ou bebia desde que saíra do palácio. Suspirou aliviada ao chegar a seu destino.

Uma criança aproximou-se a passos pequenos e vagarosos. Abriu apenas um pequeno sorriso ao vê-la ali. O corpo pequeno e frágil da princesa, os cabelos vermelhos dançando com a brisa, mas as mãos… chamuscadas, vermelhas, como que queimadas por fogo. Pegou-a no colo sem grandes dificuldades e trouxe-na para dentro do templo, onde poderia tratar suas feridas…

No jardim real, Vicky tentava acender, em vão, um cigarro, mas suas mãos tremiam a cada vez. Quando finalmente conseguiu, seu cigarro foi tomado por outra pessoa e esmagado no chão.

- Ficou doida, garota? – brigou Vicky – Cê não tá vendo que eu tento fumar há horas?

- Não precisa disto, Vicky, e você sabe…

A mulher parecia ter mais ou menos a idade da loura. Mas sua aparência se assemelhava a uma ninfa, uma ninfa de pele e cabelos negros.

- Não deveria tentar sua amiga?

- Nem sei se ela ainda me considera como amiga.

- E você? A considera?

- Do que adianta? – Vicky continuava desanimada – O país é grande demais! Ela pode estar em qualquer lugar!

- Confio em você, srta. Valentine.

Sem mais, a mulher desapareceu por entre os arbustos. Logo depois, surgiu Lena.

- Com quem estava falando? – perguntou a morena.

- Uma das serviçais do palácio… o que você quer?

- Estive pensando no porquê dela ter sumido assim, de repente.

- Vai ver que deu na telha! – disse Vicky, tentando dissipar o assunto.

- Não. – discordou Lena – Tem alguma coisa a mais… Agatha não fugiria sem nenhum motivo.

- Ah vai Lena! – ponderou Vicky – Agatha não é exatamente uma pessoa madura…

- Vicky, você sabe de alguma coisa né? – palpitou Lena – Devíamos contar à Rainha! Ela está sofrendo tanto!

- Nem você nem eu podemos fazer nada!

- Ela é nossa amiga Vicky! – insistiu Lena – Agatha sempre se mostrou generosa com os nossos erros e nos ajudou! Por que não podemos ajudá-la?

Vicky cubriu o rosto com as mãos. Algumas lágrimas escorreram pelas palmas. Lena permanecia atônita enquanto tentava formular um pedido de desculpas. Mas surpreendentemente a loira levantou-se e tranformara seu semblante um determinado e decidido.

- Lena – disse, firmemente – Quando foi que você viu a Agatha pela primeira vez?

Lena passou a mão pelos cabelos, como se a memória fosse algo palpável.

- Eu não lembro direito… a Agatha tava caída… e… – Os olhos de Lena iluminaram-se – Vamos buscar a Rainha.

Apesar daquele ser apenas o seu quarto dia, o terceiro consciente, Agatha o (a) chamava de Boo, já que esse som era o único que ele (a) emitia.

- Pensei que o Exército do Império do Fogo havia destruído esse lugar! – exclamou Agatha – Mas ele parece intacto! Você sabe o que aconteceu?

Boo não respondeu. Apenas pegou suas mãos e a levou para o cume do templo. Lá havia uma grande sala redonda com muitas estátuas antigas.

- Boo… – Agatha chamou-lhe a atenção – Você ainda não respondeu minha pergunta…

- Tudo ficou escuro por segundos, o suficiente para deixar Agatha apavorava. A luz voltou em seguida. No bolso direito do casaco da princesa apareceu um velho pergaminho. Agatha o abriu e leu. As chagas de suas mãos, feridas pelo fogo que conjurou durante a viagem, abriram-se e banharam de sangue suas vestes. Letras começaram a aparecer, como se a tinta fosse seu próprio sangue. Agatha largou o pergaminho no chão enquanto Boo reapareceu na sua frente, fitando-a com fixação.

- IDIOTAAAA! – ralhou Agatha, sacudindo-o pelos ombros – Não teve graça, Boo, não teve graça!

Agatha correu para fora do templo. Porém suas mãos ainda doíam, com grande força, uma dor que ela mal podia suportar.

Banhou suas mãos no primeiro rio que viu, um estreito rio de águas cristalinas. Uma lágrima caiu, criando uma oscilação na superfície das águas. Mas elas não vinham dos olhos castanhos de Agatha.

- Eu também costumava aliviar minhas dores aqui… – revelou uma mulher bonita, mas cujas mãos denunciavam-lhe as manchas senis – A muito e muito tempo!

- Como me encontrou? – perguntou Agatha,

- Pela perspicácia de suas amigas Lena e Vicky.

- Vicky não é minha amiga…

- Não a culpe pelo rancor que sente em seu coração querida…

Agatha levantou-se e sacudiu as mãos molhadas. Amélia a puxou pelo braço.

- Há muito o que contar, querida…

- Claro que há! – reagiu Agatha, ferozmente – Dezoito anos de mentira é um bom tempo, Vossa Majestade.

- Não gosto que me chame assim…

- E por que não devo? Afinal não sou sua filha, não tenho o sangue real… Nem sei se pertenço ao seu reino!

- Pare de me julgar… só quero que entenda a verdade…

Amélia Talidis era de longe a jovem mais promissora do Reino do Ar. Seu pai, o duque de Strattford, era um dos homens mais respeitados da região. Gozava de um grande prestígio junto ao rei.

Um prodígio! Aos quinze anos foi apresentada à corte, no baile, importantes figurões da alta sociedade do Reino do Ar, inclusive os príncipes, que lá estavam mais por obrigação que por prazer.

- Por que seus pais quiseram fazer essa festa chata? – perguntou o príncipe Victor, entediado – Sério, Amélia, baile de debutantes só serve pros pais ficarem se exibindo com os filhos.

- E você acha que eu tive escolha? – defendeu-se Amélia – Eles dizem que é importante, querem que eu me case.

- Mas você não vai topar né? – perguntou o príncipe incrédulo – Você prometeu que nós três: eu, você e o Thales faríamos Política juntos!

Amélia balançou a cabeça afirmativamente. Seus pais queriam mesmo que ela se casasse, ainda sim, permitiram que ela frequentasse a Universidade, a pedido do príncipe.

A morte do rei e a proclamação de guerra contra o Império do Fogo deixou o Reino atônito. Era precioso tomar providências e providências rápidas. A situação piorou quando a Rainha, muito querida pelo povo, definhou meses depois à morte do marido. Suas últimas palavras lamentaram sua fraqueza e por conseguinte, ela suplicou aos filhos que a próxima Rainha deveria ser forte.

- Amélia! – sussurrou o príncipe de madrugada, jogando pedrinhas na janela do dormitório. – Améliaaa, desce!

Amélia saiu pela janela, descendo pelas trepadeiras. Era frequente que o Príncipe a chamasse sempre daquela forma.

Eles se reuniram no lugar de sempre, abaixo do frondoso sabugueiro, às margens do Rio das Lágrimas. Para sua surpresa, Thales também estava lá.

- Mas, mas… – gaguejou Amélia – Eu não posso aceitar isto… Thales, você…

- Eu concordei – respondeu Thales friamente – É o nosso Reino, Amélia!

- Você é a única mulher que eu confio pra ser a Rainha! – argumentou Victor – Além disso, eu te amo, e você gosta de mim…

- Gostar não é amar! – exclamou enfaticamente antes de olhar para Thales, o namorado, suplicando que ele tivesse alguma saída brilhante para aquela situação embaraçosa – Thales…

- Amélia, pára de ser egoísta! – disse Thales – Nós não somos mais aquelas crianças bobas… nossos reis morreram, as pessoas precisam de nós, estamos em guerra! Se não agirmos logo seremos humilhados pelo Império do Fogo! É isso o que você quer? Deixar de ser a rainha para ser a escrava deles? Tudo em nome de…

- Amor! – Amélia enxugou as lágrimas. Parecia finalmente ter ouvido a voz da razão. Em algumas semanas, ela se casaria com Victor Tess e se tornaria a nova Rainha do Reino do Ar.

A barriga era demasiadamente pequena para os oito meses de gravidez. Apesar disso, as últimas semanas não tinham sido nada fáceis para ela. Agora Amélia estava no quarto, sofrendo as dores do parto, dores que há seis gestações ela esperava ansiosamente.

- Majestade… – o médico saiu do quarto com um pequeno embrulho nas mãos – Eu sinto muito, muito mesmo…

O rei carregou o corpo inerte do bebê. Ele acariciou o menino, seu sexto menino, morto.

- A Rainha já tem uma idade avançada – informou o médico – É melhor não tentar mais…

Amélia saíra do palácio logo no dia seguite. Mais uma vez ela perdera o único herdeiro do Reino, mais uma vez ela perdera a oportunidade de cumprir a promessa que fez a Thales. Uma retrospectiva passara por sua cabeça: a sexta gestação, seis crianças mortas prematuramente. Desistir de ser mãe? A idade lhe batia à porta. Se quando era mais jovem, não conseguira, por que conseguiria agora, com trinta e nove anos?

Sentou-se à beira do Rio das Lágrimas, o místico e legendário. Rezava a lenda que suas lágrimas vinham da humana que se apaixonou pelo Deus Sol no dia que perdeu para o mundo seus quatro filhos. Quem sabe uma mãe entenderia a dor de outra…

Um choro estridente. Lágrimas. Um bebêm uma menina de cabelos vermelhos boiava no rio.

 

sábado, 31 de julho de 2010

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Com exceção de Lena, as outras mulheres no palácio pareciam tristes ou esgotadas, inclusive a Rainha. Agatha teve o descontentamento de ser acordada muito cedo, oq ue a desagradou muito, afina, não pregara os olhos. E o mesmo pivô de sua insônia foi também a razão da falta de ânimo e humor.

Vestiu com indolência a roupa de equitação e desceu as escadas com a maior falta de vontade possível. Foi recebida no saguão do palácio por dois lacaios que acompanhavam seu senhor, o lorde Van Buailt.

Pela primeira vez, prestou atenção no homem com quem iria se casar: pele macilenta, cabelos negros e levemente ondulados, barba longa, olhar escuro, olheiras profundas. Tudo em seu visual lhe conferia ar misterioso e sombrio, pra não dizer nefasto.

O lorde beijou-lhe as mãos e a conduziu para o exterior do palácio, onde dois cavalos absurdamente grandes, um negro e um branco, os esperavam. Montaram cada um no seu e prosseguiram com o passeio.

Lorde Van Buailt, Agatha logo percebey, não era muito de falar. Às pouquíssimas vezes que a princesa lhe dirigiu a palavra, ele respondia com um pigarro ou quando muito, com palavras monossilábicas.

Chegaram enfim, à sombra de uma árvore onde amarraram as montarias. Uns passos adiante, havia uma toalha com algumas cestas recheadas de comida: frutas, bolos, chás, biscoitos, geleias, queijos, pães, tortas…

- A Rainha disse-me que prefere chá de hibiscos silvestres – disse o lorde, tentando arrancar uma palavra da noiva – Mandei preparar o desjejum pra você. Não vai comer?

Agatha apenas resmungou. O lorde parecia não ouvir e continuou.

- Você sabe o que isso significa?

Novamente Agatha respondeu com um resmungo. Lorde Van Buailt prosseguiu:

- Daqui a três anos vamos nos casar, seremos coroados… Você me dará herdeiros e os criará para que assumam um dia esse trono! Creio que essa foi a escolha mais sensata da Rainha ao me escolher para essa missão.

- O que passa na sua cabeça em se casar com uma garota muito mais nova que você? Aliás, o que se passou na cabeça da minha mãe pra te escolher?

- Como já salientei, sou a escolha perfeita!

- DIMITRI ERA A MELHOR ESCOLHA! – gritou Agatha.

O Lorde ergueu sua mão, que parou a poucos centímetros do rosto da princesa. Depois, ponderou melhor e desistiu da ideia.

- Você é uma princesa e a sua obrigação é servir ao Reino! E quando for minha esposa, me obedecerá acima de qualquer coisa!

O lorde segurou a outra mão para segurar Agatha. Aproveitando-se disto, forçou um beijo. Agatha se desvencilhando de novo, jogando uma jarra de suco em sua cabeça e correu para mais longe que pôde.

Van Buailt levantou-se rapidamente e puxou pelos cabelos, prendendo-na entre os braços e forçando um segundo beijo. Desta vez, Agatha mordeu os lábios dele com grande força, seguido de um golpe baixo.

O noivo estava mais preocupado com os lábios machucados que com Agatha, por isso, deixou-a fugir.

- É uma égua baia, mas vou domá-la nem que essa seja a última coisa que eu faça!

Nas semanas subsequentes, Agatha sempre pedia a ajuda de Vicky Valentine para acompanhá-la durante os encontros com Lorde Van Buailt. Ele não tentara mais nada contra a dignidade da princesa e se reservava a fazer perguntas desnecessárias e proferir palavras hostis.

Nunca em sua vida, nem mesmo quando não passava de uma princesa inútil, se sentira tão infeliz. Fazendo algo que era forçada! E sua mãe? Porque não lhe consultara? Por que não entregou sua mão a Dimitri?

Vicky passava os dias com menos emoções em sua vida… Sem encrencas, dívidas de bar, prisão, trapaças… No entanto, seu corpo necessitava desse descanso… e sua boca necessitava a dele…

Fazia uma bela noite aquela, mas a temperatura que a incomodava seu sono. A brisa acerca da fonte lhe parecia uma boa ideia.

- O que faz aqui? – perguntou Vicky à sombra que se aproximava.

- Precisava te ver mais uma vez! – respondeu Dimitri. Deu uma longa passada para tentar beijar-lhe a boca.

- Esquece! Vários já esqueceram de mim… garanto que você vai conseguir também!

- E você acha que eu não tento isso todos os dias? Me sinto culpado quando olho pra este anel! Quando olho pra Lara!

- Você é uma pessoa desprezível.

Dimitri fez cara de surpresa. Como um homem tão leal que nem ele poderia ser considerado desprezível?

- Não vê que está fazendo três mulheres sofrerem ao mesmo tempo?

- Como?

- A Rainha iria escolhê-lo para casar-se com a Agatha! E acabou preferindo aquele lorde idiota… e graças a isso, Agatha está sofrendo imensamente.

- Não seja hipócrita Vicky! Agatha é como, como uma ir…

- ELA SEMPRE TE AMOU, SEU RETARDADO!

- Mas… mas… mas… você, eu… você não me deixaria casar com ela…

- É claro que sim! – afirmou Vicky, com lágrimas nos olhos – eu não sou nada sua!

Vicky beijou Dimitri ardorosamente;

- Eu te amo, mas vou te esquecer nem que isso custe a minha vida.

Uma sombra moveu-se entre os arbustos. Aos olhos rápidos de Vicky, a criatura assustada fora facilmente reconhecida pelo simples fato de ter cabelos vermelhos.

Tamanha era sua apatia e reclusão nos últimos dias, que nenhum serviçal ousava incomodar a princesa. Agatha entrou correndo pelo palácio, estupidamente cega a ponto de derrubar um criado levando louças a serem limpas. Não sabia exatamente aonde iria, corria sem rumo, entrando de porta em porta como se o gigantesco castelo não fosse grande o bastante para suprimir sua raiva.

Entre as portas e passagens ocultas, entrou num cômodo onde jamais pisara. Escuro e mal iluminado, exceto por um pequeno feixe de luz azul. Ali ficou a chorar e a maldizer Vicky, Dimitri, sua mãe, lorde… Todos conspirando contra a sua felicidade. Todos traindo e escarnecendo dela.

- Você está me pedindo demais! – esbravejou uma voz conhecida. Agatha escutara tanto essa voz, que na primeira palavra a reconheceu – Uma Rainha jamais se curvará a isso, muito menos quando isso envolve sua própria filha.

Agatha aos poucos se aproximou da fresta onde o feixe de luz irradiava. A voz ficou mais nítida e ela pôde identificar mais duas:

- Covarde! Como ousas chantagear Vossa Majestade! – Agatha ouviu uma voz grossa e imponente. Era a de seu tio Thales.

- Rainha? – a terceira voz se assemelhava com um sibilo ameaçador – Não tem o nosso sangue real! O Reino não precisa de uma Rainha devassa , que mantém um caso amoroso com um de seus generais… sendo o mesmo irmão de seu esposo, o Rei por direito.

Agatha ficou estupefata. Então a mãe estava enamorada de Thales? Aquilo não lhe soava tão estranho. Talvez fosse coisa de família que as mulheres se apaixonassem por seus protetores. Mas, teria Amélia sido tão egoísta a ponto de vender a felicidade de sua filha em troca da pureza de sua imagem?

- Não vou forçá-la a gostar do senhor, lorde Van Buailt – replicou a mãe – Já cedi a chantagens demais de sua parte!

- E o que o Reino vai pensar quando souber que sua matriarca, sua Rainha, a dama mais respeitada do país, foi na verdade, uma mentirosa?

- Desista Van Buailt… – disse Thales – A Rainha já disse que não se importará se você revelar a todos o nosso… relacionamento.

- Sabemos que eu não falo deste assunto, general Braus… As coisas são muito mais graves, não concorda Vossa Majestade?

Amélia caiu no choro, sendo amparada por Thales. Enquanto soluçava, o lorde exibia uma feição tranquila e triunfante. A princesa já não aguentava mais: era a primeira vez que ela vira a mãe, símbolo de força do país, cair em desespero e desilusão.

- Imagina o que ocorrerá ao reino, ao povo, ao parlamento, quando vir à tona toda a verdade?

- Páre! Páre! – pediu a Rainha, aos prantos – Por favor!

- … A verdade que todos desconfiavam mas sempre tiveram receio de perguntar…

- CALE-SE BUAILT! – ordenou Thales.

- … Que a princesa Agatha não possui o sangue real da nossa pátria…

Silêncio. A porta abriu-se e do outro lado, parada, uma jovem princesa, cujo coração caiu em desespero pela segunda vez naquela noite.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Sua missão havia terminado ali. Logo aquilo que havia aceitado apenas por obra do acaso, para que sua mãe não soubesse o que ela andara aprontando durante a “viagem”.
Mas agora era tempo de voltar pra casa e deixar-se abraçar pelos braços calorosos de mãe. Seus dezoito anos estavam se aproximando, e querendo ou não, era a hora da sociedade conhecer verdadeiramente sua princesa.
- Você nos mandará os convites não é Agatha? – cobrou Vicky dando uma piscadela, antes de tomar sua condução.
- Se eu souber onde te encontrar, sim! – respondeu a jovem. Não saberia aonde encontrar a ladra. Provavelmente em algum lugar do país aplicando golpes.
- Nem sei como agradecê-la – despediu-se com um abraço Lena. Ela voltaria à sua aldeia a fim de estudar para o exame de admissão à Universidade. Provavelmente apareceria algumas semanas antes do Baile de Apresentação da Princesa.

Assim, partiram as três, cada uma para o seu lado, em breve voltariam a se encontrar…

- Minha Agatha! – saudou a mãe, abraçando-na fortemente, com a força ao nível da saudade que sentira – Você está bem, se machucou? Céus! Você está imunda! E esses trapos…
Agatha mal teve tempo de dizer algo, tamanha era a saudade que sentia da mãe e daquele palácio, mas não da vida que levava quando ainda era uma princesa ignorante. Não… definitivamente era uma pessoa completamente diferente daquela que um dia partira daquele reino, deixando para trás toda a segurança e felicidade que falsamente sentira durante quase dezoito anos…

Aquele palácio chamava-se Palácio de Cristal. Trabalhado em vidro que refletia a luminosidade recebida pelos raios de sol que permeavam o Reino Suspenso do Ar. Também era chamado de Fortaleza Suspensa, pois essa era a impressão que tinha-se ali, nas nuvens brancas que serviam de mãe praquele país. Por todos esses motivos, sempre se sentira mais deusa que todos os outros… e por aquele e mais outros que nunca recebera um olhar daquela pessoa como gostaria de receber.
- Fui avisado do retorno de Vossa Alteza, gostaria de me ver o mais rá… – Dimitri parou imediatamento ao perceber em que tipo de recinto estava… uma névoa tão doce e aromática invadira-lhe os pulmões… as várias amas envolvendo-na com toalhas brancas e felpudas. No centro de uma grande piscina de água borbulhante, ela estava lá. Tão branca. Tão intocada. Tão pura.
Com um gesto dispensou as criadas e com outro fez sinal para que o rapaz de gostos finos se aproximasse. Visivelmente constrangido, Dimitri se aproximou dela, mas fitava seus pés o tempo todo.
- Se Vossa Alteza preferir, eu aguardo o término de seu banho terapêutico.
- Pare de ser bobo! – interrompeu Agatha – Eu não estou completamente nua! Além disso, lembra quando nós tomávamos banho escondido no Rio das…
- Mesmo assim Vossa Alteza, devo demonstrar respeito para com a …
- Humpf – resmungou Agatha, incomumente à sua maneira sempre polida de pronunciar-se. Não lhe agradava a formalidade que envolvia os dois. Aquilo a constrangia mais que tudo.
- Como foi a viagem?
- Interessante. – respondeu Agatha – Acho que foi bastante… instrutiva.
- Vossa Alteza procurou o que queria?
- Talvez. – respondeu Agatha vagamente. Não queria contar todos os detalhes a Dimitri, mesmo que ele fosse fiel à sua pessoa até a morte. Mesmo assim, a jovem não estava sendo hipócrita consigo mesma. De fato, Agatha não conseguira encontrar a resposta para a crise em si mesma, mas o que seus olhos viram durante sua “peregrinação” definitivamente a ajudaram a ser uma pessoa melhor. – Eu… eu acho que não estou pronta pra ser Rainha… não ainda.
- Entendi. Com sua licença…
- Espere! – pediu Agatha, antes que o jovem girasse seus calcanhares.
Dimitri parou aonde estava e sequer se mexeu. A princesa adivinhara por seus olhos o que transparecia e quase saltava como palavras. Então, ela notara…
- Não quero lhe revelar isso… não, até o Baile. – respondeu Dimitri, sem maiores explicações.
Ela suspirou, e quando tentou encontrar sua figura, ela já havia se dissipado entre a névoa.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Cap. 7 Partida

         Agatha já estava no seu segundo prato de mingau de aveia. Segundo Lena Brown, a mulher que a salvara, estava há três dias desacordada. Era-lhe grata, afinal, as escoriações de seu corpo causadas pela queda já estavam quase sarando.
      - Quem é você? De verdade?
     - Acho melhor você não saber, Lena! - Agatha fugira da pergunta - Pode trazer problemas pra você.
     Agatha analisou mais uma vez a casa. Era a menos pior do que as que sua vista pela janela pôde notar, mas mesmo assim, não passava de um pequeno e sujo casebre. O pai, pescador, já começava a dar sinais de perda da sanidade e constantemente resmungava de sua má sorte, dos deuses, da família real da Água, do Exército do Império do Fogo... A casa só conhecia a limpeza quando a filha voltava do trabalho, no lado leste das Geleiras. No mais, exalava aquele terrível e já permanente odor de peixe. 
     - Acaso está fugindo, Alteza? - perguntou Lena, de sopetão. Agatha paralisou a colher de mingau no ar, estupefata.
     - Por que mexeu nas minhas coisas Lena? Eu não permito que você faça isso, entendeu?
      Lena entendeu que agira errado. Levantou-se da mesa e prostrou-se ante a princesa.
      Agatha também se levantou. Mas aquele gesto, que deveria ser algo comum a uma Princesa, era  algo que lhe incomodava profundamente.
       - Levante-se Lena, por favor!
     - Se prefere assim, Vossa Alteza! - Lena se levantou humildemente, mas ainda continuava com a cabeça baixa.
        - Perdoe-me Lena, eu... eu me expressei muito mal. Na verdade, eu não queria que ninguém soubesse da minha existência por aqui.
     - E por que não Alteza? Vosso Reino é famoso no mundo por ser justo e por combater o Exército do Fogo.
    - Lena, por favor... me chame apenas de Agatha. Saí do palácio justamente por isso. Cansei de ser uma princesa inútil que nem ao menos conhece seu povo! E o povo que por sua vez nem conhece sua própria Princesa! 
     - Imagino que deve ser um choque de realidade, Alte... Agatha!
      Agatha olhou com pena para toda aquela pobreza. O Reino da Água sucumbiu graças à incompetência da Família Real. E se ela fosse incompetente também? Deixaria seu povo sofrer sob as mãos do Imperador do Fogo.
      - Ao menos sabe pra onde vai? - perguntou Lena à Agatha - quando esta já arrumava a bolsa de viagem.
      - Não faço ideia...

      - Avisou seu pai que deixaria a Vila?
      - Deixei um bilhete... Mas creio que ele não tomará partido nisso.
       Agatha olhou com tristeza. Sabia que o sr. Brown estava doente e aos poucos perderia sua sanidade. Lena pareceu adivinhar os pensamentos dela.
        - Há muito precisava sair da Vila da Cascata, mas não tive coragem de fazer isso! - justificou Lena - Meu pai está muito doente, perde o juízo aos poucos... É por isso que eu preciso estudar! Tenho que entrar numa Universidade e ser uma médica.
        A Vila da Cascata... A família Brown... O Reino da Água...  O abandono de tudo. O Reino sucumbira pela covardia de seus governantes. O povo abandonado, entregue à própria sorte. E Lena Brown... a mulher mais inteligente daquela vila, se esforçando pra que se, não conseguindo salvar a vida do pai, ao menos salvar a vida daquele povo inocente, que pagava todo o preço pela ingerência da elite.
     - Mas antes de tentar entrar na Universidade... Preciso fazer uma coisa...
      Lena contou à Princesa a história de sua família. Quando a irmã, Angeline, partira, o pai teve razão. Ela partira da Vila para se tornar uma prostituta nos acampamentos do Exército. Mas não por muito tempo.
       - Ela me escreveu contando que havia conhecido um tenente do Exército e que se casaria com ele. Meu pai, é claro, ficou com mais raiva da minha irmã. Eu recebi mais duas ou três cartas dela, antes do papai descobrir e queimar todas as cartas que eu recebia dela.
        Então a meta de Lena era encontrar a irmã. O motivo era óbvio. Ao pai não restaria muito tempo de vida, pelo menos unir a família era um direito dele.
        Agatha se sentiu no dever de ajudá-la. Afinal, Lena salvara-lhe a vida, nada mais justo que dar a ela um pouco de felicidade.
         
        As duas jovens partiram ao pôr-do-sol sob desejos de boa sorte da Vila. Toda aquela vila apostava no sucesso daquela menina, e colocava sob suas mãos, vidas que poderiam ter sido salvas.

      A sede do Reino Suspenso do Ar ficava no alto daquelas nuvens brancas e fofas. Erguia-se majestoso como um obelisco cristalino nos céus cercado de campos verdejantes apoiado nas nuvens. 
       O garoto de cabelos arroxeados se aproximava do Palácio das Nuvens com passos firmes e determinados. Ao chegar no Salão Real, cumprimentou a Soberana, às voltas com montes de papéis.
        - Majestade... - anunciou-se.
        - Ah, Dimitri, que bom te ver!
      - Igualmente Majestade! - retribuiu o garoto - Lamento não ter vindo antes, estava em missão no leste.
      - O assunto que te traz aqui é extremamente... preocupante.
         Dimitri Braus franziu a testa. 
        -  Registramos um atentado no Templo das Nuvens do Sul. E... e... bem... - sua voz perdeu o imponente tom, assumindo um tom maternalmente preocupado - Agatha não dá notícias há dias... Eu temo... temo...
         - Não tema, Minha Rainha! - tranquilizou-a Dimitri - Apenas me forneça alguns homens, que procuraremos Agatha até o fim do mundo.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

           Milhares de garotas, segundo a mãe, invejavam a vida que Agatha Tess tinha. Um palácio gigante, um quarto cheio de luxos, guarda-costas, roupas e jóias fabulosas... Mas Agatha não se julgava mais que uma simples princesa confinada em seu palácio. Os poucos dias que saía era simplesmente para ficar ao lado da Rainha enquanto discursava. E só.
       Nunca usava a tiara real. Apenas um turbante para esconder seus belos cabelos vermelhos. Aqueles cabelos vermelhos... eles eram o motivo para que a Princesa vivesse reclusa no Palácio.

       Tinha apenas seis anos e se preparava para deixar os estudos particulares do palácio para ingressar na Escola Regular. Conhecer crianças... pessoas novas! Ter amigos que não a chamassem de Vossa Alteza. 
        Suas expectativas foram frustradas logo ao chegar na sala de aula. As crianças a olhavam com perplexidade e até com um pouco de receio. Agatha não se importou, afinal, era a primeira vez que elas viam a Princesa do Reino Suspenso do Ar tão te perto.
       -Oi - saudou a garota, animada. Mas não recebeu nenhuma resposta enquanto a professora não olhou com a cara feia para os alunos.
       Seus dias escolares, para a sua frustração, pareciam piores que suas aulas no Castelo. As crianças, os professores, todos a olhavam com a cara mais esquisita do mundo e tentavam se distanciar o máximo dela, embora Agatha estivesse se esforçando para ser o mais gentil possível.
           Depois de dois anos sendo apenas tolerada, a princesa enfim, começava a se integrar e  a conhecer pessoas diferentes. A primeira, exatamente, não seria uma pessoa diferente, e sim, seu primo distante, Dimitri, quatro anos mais velho que ela.
            - Parece que finalmente as pessoas começam a me aceitar nessa escola - desabafava a princesa.
             - Não fique tão preocupada, Agatha, as pessoas não estão tão acostumadas a ter a Princesa de seu país como colegas de sala!
           - Não é isso Dimitri! Ainda sinto que tem pessoas que não gostam de mim de verdade.
         Agatha se referia a Clara Duboc, que estudava com ela desde o primeiro ano. Clara sempre a tratava com desdém e parecia incentivar as pessoas a se distanciarem de Agatha. A princesa, é lógico, teve essa certeza e foi tirar satisfações com ela.
        - Qual o seu problema comigo? O que eu fiz pra você? - perguntava a princesa.
        - Só não quero você perto de mim! Você dá agouro!
        - Eu??? 
      - As pessoas tem de ficar longe de você, Princesa Amaldiçoada!!
        Agatha não soube explicar o que aconteceu. Apenas que depois de ser ofendida, a colega fora arremessada a alguns metros e seu cabelo chamuscado.
        - Princesa Amaldiçoada! Princesa Amaldiçoada!! - ela chorava - Símbolo do Fogo! Fogo!

        Só depois desse dia que Agatha soube qual era o real motivo de ser chamada de Princesa Amaldiçoada. Conforme Dimitri lhe disse mais tarde, a família real era distinta dos demais pela cor do cabelo, e o da família do Ar era de cor roxa. Além disso, ter dons de fogo não era comum para uma descendente direta do Deus Ar.
        Foi por causa de seus cabelos que ela saíra da escola e terminou seus estudos no Palácio. Agora, aos 18 anos, estava pronta para ir à Universidade. Ou não...
        - Mamãe, não quero ir pra Universidade - contou Agatha à Rainha Amélia.
        - Mas que besteira é essa, minha filha? Como assim você não deseja ir pra Universidade! É uma princesa, tem que se preparar pra um dia ser uma Rainha!
        - Não quero mamãe! Como serei uma Rainha se não conheço o meu povo? Ou pior: se pensam que eu sou uma Princesa Amaldiçoada?
        - Agatha, já conversamos sobre isso, filha... Não há nada de Princesa Amaldiçoada, tudo isso é lenda!
        - Lenda ou não, mamãe, mas por toda a vida vivi confinada nesse palácio! Preciso conhecer o meu povo e sozinha!
        Amélia não teve outra escolha a não ser deixá-la ir. Afinal, de certa forma, ela entendia a filha. Também ganhara o trono de uma hora para outra e foi obrigada a amadurecer para se tornar uma boa Rainha. Não queria que Agatha herdasse o Reino sob as mesmas circunstâncias. Ela estava ficando velha, suscetível a doenças... e se morresse? Sua filha teria que passar pelo que ela passara também?

        Dos dez dias que a Princesa percorreu todo o Reino do Ar, pôde constatar que nas regiões mais afastadas o povo ainda vivia isolado. Alguns até não sabiam quem era o Rei ou Rainha. Agatha percebeu como fora ignorante! Como cometera erros! Aquelas pessoas também eram parte de seu povo, a quem ela deveria proteger! Mas era uma princesa inútil e impotente que nem tinha mesmo o Dom do Ar.
        - Se procura pelo Dom do Ar, precisa ir a um dos Templos das Nuvens. Há um em cada parte do mundo, mas você precisa ter cuidado com o Império do Fogo!
        Agatha decidiu ir a um desses Templos. Precisava aprender o Dom do Ar de maneira mais rápida possível.
        - Qual o Templo mais próximo daqui?
        - O mais próximo daqui é o do Sul, acima das Geleiras. Mas cuidado! Nas geleiras do Sul tem tropas do Império do Fogo!

        Agatha rumou ao Templo do Sul. Estava abandonado há muito, exceto por um monge que persistia em cuidar de um enorme templo sozinho. 
        - Estranho! - disse o monge - A senhorita ser da família real e não possuir o Dom do Ar!
       Agatha sentiu um tremor no Templo. Terremoto? Não era possível, estavam nas nuvens! 
        - Proteja-se princesa! O exército do Fogo! 
        Agatha escondeu-se atrás de uma estátua do Deus do Ar. 
        - Entregue o Templo, monge! - ordenou uma voz masculina, grave. Agatha observou com o canto de olho. Era um soldado vestindo trajes vermelhos, jovem, e de cabelos vermelhos.
       - Príncipe Oliver, não profane o Templo do Deus Ar! - advertiu o monge.
        - Pro inferno com seu Deus! - e dizendo isso, o jovem sacou sua espada e decepou a cabeça de pedra da estátua do Deus Ar. - Entregue-me as chaves do Templo!
        O monge escondeu a chave em suas vestes. O jovem soldado, irritado, mandou seus homens pegarem o que quiserem do templo.
        - Não faça isso, Príncipe Oliver! Não desafie os deuses!
      - Pois avise pessoalmente ao Seu Deus que Oliver Gardner, Príncipe do Império do Fogo, não teme a nenhum Deus! - Oliver sacou mais uma vez sua espada e decepou a cabeça do monge, que rolou até perto da princesa. Ela não se conteve e soltou um grito de horror.
       - Ora, ora, ora! Sobrou uma sacerdotisa?
       - Seu monstro! Como pode não respeitar a crença dos outros?
       - Garota tola!
       - O senhor desrespeitou um acordo! Eu, como Princesa do...
        - Princesa? Então você é uma princesa!! - Oliver retirou o turbante da princesa, revelando seus cabelos vermelhos. - Cabelos vermelhos?
        Oliver atacou a princesa com o Dom do Fogo. Ela não pôde fazer nada a não ser fechar os olhos.
        - Princesa do Ar com Dom do Fogo?
        Agatha abriu os olhos. Não estava morta e sim, vira Oliver com parte da vestimenta chamuscada.
        
        A Princesa desfaleceu com o Dom do Fogo. Oliver a carregou nos braços até chegar na beira do Templo.
        - Preciso me livrar de você, princesinha! Se não ainda vai me trazer problemas! - e dizendo isso, soltou o corpo inerte de Agatha no ar. Se ela caísse em terra ou mar, não importava, estavam no céu, e daquela altura, nem a descendente de Ar sobreviveria.

                     

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

            - Agora já chega, Agatha, hora de dormir!- aconselhou a rainha, depois que fechara o livro de estórias.
           - Mas mamãe! - argumentou a princesa - Você ainda não explicou o que aconteceu com a Luz e o Sol! E os filhos deles? Por que eram monstros?
            - Amanhã eu explico, meu bem! - a mãe se despediu com um beijo na testa - Agora trate de dormir!
          - Aff! - resmungou Agatha - Se fosse o papai, teria explicado tudo direitinho!

           A Rainha se despediu da filha, uma garotinha linda e esperta de apenas três anos e voltara para o hall principal, onde os conselheiros esperavam-na ansiosamente.
           - Boa noite, senhores! - saudou - A princesa demorou a dormir!
          Dormir. Era uma coisa que não fazia há muito tempo, principalmente depois que seu marido assumiu o controle do Exército Real pessoalmente. Ter uma boa noite de sono durante aquela guerra, que já durava quase quatro anos, era um privilégio que apenas as crianças tinham.
           - A guerra está fugindo ao nosso controle, Vossa Majestade! - opinou um dos conselheiros - Devemos assinar um Acordo de Paz logo com o Império do Fogo antes que percamos ainda mais territórios e mais soldados!
          - Assinar um acordo com Ivan? - discordou outro - De maneira alguma! Ele quer em troca de nossa rendição regiões ricas em minérios! Isso seria um desastre para nossa economia!
             - Desastre econômico teremos se não encerrarmos a Guerra imediatamente! Armamentos, comida, montaria... Tudo isso custa demais aos cofres do Reino do Ar! 
             - Então devemos firmar uma aliança com o País da Terra! O Rei é justo e também está sendo ameaçado por Ivan! O que acha, Majestade.
            - Devemos esperar Victor voltar para tomar qualquer decisão! - concluiu a Rainha, absorta nas discussões. - A reunião está encerrada.
            
            - Tudo isso é peso demais nas suas costas - disse Thales, um de seus fiéis seguidores quando a Rainha repousava na sala de estar real - É uma guerra e nunca esteve preparada para assumir o trono sob essas circunstâncias.
             - Eu sei, Thales, mas não sinto nenhuma segurança enquanto Victor não voltar.
             - Meu primo voltará, Amélia, ele com certeza voltará.
            Amélia se preocupou se a sua falta de experiência e segurança transpareceriam aos conselheiros e pior, ao povo. Simplesmente não sabia como agir. O reino foi-lhe dado sem a menor cerimônia, ou preparação. Era uma Rainha tola e ignorante que se deixava levar pela decisão de seus conselheiros. 
            
             A Rainha olhava aquele acordo com o País da Terra com a maior satisfação. Com as tropas unidas, conseguiriam frear as pretensões de Ivan e quem sabe extinguir a guerra.
           - Majestade! Majestade! - anunciou-se um menino franzino - Notícias do Exército Real!
          - Reporte!
         - O Exército Real liderado pelo Rei encontrou-se com o Exército Real do Fogo! 
          - Mande reforços! - ordenou Amélia - E peça ajuda para o País da Terra!

           O coração de Amélia ficou aflito durante uma semana. Todos os dias recebia as notícias do front enquanto fazia malabarismos para entreter a filha e governar o Reino. E, num dia, que chovia incessantemente, as Tropas Reais chegavam cansadas.
          - Vitória, Vossa Majestade! - informou Thales - Vencemos!
           Mas seu rosto não transparecia a menor sensação de alegria. Pelo contrário.
          - E Victor, onde está? - perguntou a Rainha, esticando o pescoço para encontrar, entre os soldados algum vestígio do marido.
           - Lamento Vossa Majestade, lamento! - sussurrou Thales, oferecendo à Rainha o pergaminho preto, que só tinha um significado.
           - Não, não isso não é possível, Thales. Com certeza houve um engano e... - a Rainha paralisou ao ver o cortejo trazendo o corpo do Rei, morto.
           
           A guerra cessou entre o período de morte de Victor. Amélia encontrava-se em estado de choque e evitava até mesmo ver a pequena Agatha, não queria revelar-lhe que o pai fora morto pela espada de Ivan, o Imperador do Fogo. De agora em diante, não haveria ninguém por elas, teria de ser forte o suficiente para governar o Reino e ainda ser mãe. 
           O corpo de Victor foi enterrado no mausoléu da família. Amélia morreu junto a ele naquele dia. Nascera outra pessoa, uma Rainha de verdade.