domingo, 26 de dezembro de 2010
- Prove sua fé! – ordenava-lhe a mulher de longos cabelos negros – Ou deixará todos perecerem.
Naquele dia, a praça central de Preteus estava lotada. Todos compareceram com suas mais belas vestimentas e as joias ainda restantes.
Nos últimos meses, o povo de Preteus, para provar sua fidelidade à sua benfeitora, a Deusa Noite, organizou uma grande homenagem. Toda família era obrigada a doar parte de seus objetos em ouro para serem derretidos e transformados em uma gigantesca estátua. Ela estava ali, no meio da praça. E apesar dos objetos preciosos da cidade terem sido doados e investidos na estátua, as pessoas pareciam felizes.
- Isso é uma palhaçada! – reclamou o avô de Ezequiel. Ele era o único da cidade que não recebia nada da referida Deusa e portanto, não pôde contribuir. Ezequiel, o neto, era obrigado a pagar em dobro pela teimosia do avô. – Bando de bajuladores, imorais! HEREGES! TRAIDORES!
Um dos homens, provavelmente um dos líderes da Polícia se aproximou do avô de Ezequiel e gritou-lhe:
- Velho asqueroso! Infiel! Recebe os benefícios da cidade e cospe no prato em que come. O senhor é uma vergonha.
- Por favor, moço! – interferiu Agatha – Não é educado falar com as pessoas de idade nesse tom. Tenha um pouco mais de polidez.
- Cale-se estrangeira! – o homem deu um tapa com as costas da mão em Agatha. Ela caiu nos braços de Ezequiel e começaria ali uma confusão generalizada.
As vozes só se acalmaram quando o céu começou a escurecer e a lua roubou o lugar do Sol.
Uma névoa tomava conta da lua, e aos poucos ela desceu à superfície. A névoa tomou a forma de uma pessoa coberta com um manto tão negro que se confundia com a noite.
A pessoa se aproximou aos poucos e retirou o manto. Logo, apareceu uma bela mulher de cabelos negros e ondulados, com um vestido que parecia retirado do céu estrelado.
A multidão imediatamente se ajoelhou e vislumbrou pasma a Deusa. Até mesmo Agatha parou por alguns segundos para vê-la.
- É ela, pessoal! – gritou alguém – É a nossa Deusa!
A Deusa Noite olhou para todos os cantos da plateia. Levantou os braços e saudou os habitantes.
- Meus queridos súditos! Minha querida cidade! – bradou – Por vários anos eu ajudei vocês. Sinto-me gratificada com essa singela homenagem. Ajoelhem-se todos e contemplem sua Magnânima Deusa!
Todos os que estavam ajoelhados, abaixaram suas cabeças no chão. Os únicos que permaneceram de pé foram Agatha e vovô.
- Vocês, infiéis! – apontou a Deusa – Mostrem alguma gratidão a mim! Ajoelhem-se!
- Eu nunca me ajoelhei a ninguém. – respondeu Agatha, atrevida – Não é dessa vez que eu vou me ajoelhar.
- Temos uma maldita descrente aqui?! – ameaçou a Deusa. Ela abriu caminho por entre o povo até chegar à Agatha – Ajoelhe-se! É uma ordem.
- Não obedeço falsos deuses!
- Minha Deusa! – bradou um anônimo – Ela não é uma das nossas! É uma estrangeira!
- O que pensa que eu sou? Uma ignorante?! – respondeu a Deusa, rispidamente – Eu sei perfeitamente quem é essa mulher!
A Deusa pegou o queixo de Agatha e aproximou seus olhos dos dela. A princesa pôde ver que as pupilas de seus olhos azuis ficaram agudas como as pupilas de um felino.
- VEJAM! OLHEM DIREITO PRA ESSA MULHER! ESTA MULHER PERTENCE À FAMÍLIA REAL DESTE REINO. A FAMÍLIA DESTA MULHER FOI A RESPONSÁVEL PELOS ANOS DE TREVAS DESTA CIDADE!
A multidão começou a atirar pedras e sapatos na menina. O vovô se meteu no meio.
- IDIOTAS! HUMILHANDO A PRÓPRIA SOBERANA EM FAVOR DE UMA FALSA DEUSA!
- Não se esqueçam… – interrompeu a Deusa – Que enquanto esta mulher e a família se divertiam, VOCÊS passavam fome e frio! ERAM os SEUS filhos que sofriam. SUAS mulheres eram humilhadas! EU lhes dei remédios e comida! EU curei seus doentes! EU ressurgi sua cidade! Graças a mim, vocês estão cobertos de ouro e pedras preciosas!
- Não acreditem no que ela diz! – tentou persuadir Agatha – Ela cobrará um preço tão alto que não poderão pagar!
- É claro. – surpreendentemente a Deusa concordou com Agatha. De fato, ela tinha vindo cobrar seus favores – Nunca disse que faria nada gratuitamente.
- Nós pagaremos! Pagaremos o preço que for!
- Isso facilita muito as coisas… Eu vim lhes cobrar o meu preço. E em troca de tudo o que dei a vocês eu quero a alma de cada um!
- Não pode fazer isso! – interferiu o vovô – Você os enganou!
- Criaturas engraçadas, os humanos… Fazem tudo pelo dinheiro. Quando vemos, contraem dívidas que não poderão pagar.
- Eu me ofereço para ir no lugar deles!
A Deusa sorriu com satisfação. Como se esperasse que Agatha fizesse essa escolha.
- Então, eles a apedrejam, a insultam, e você ainda quer dar sua vida em favor desses idiotas?! – caçoou a Deusa Noite – Criaturas engraçadas, os humanos!
A Deusa concedeu o desejo. Agatha só ouviu gritos distantes de Ezequiel, do vovô e de alguns cidadãos de Preteus. E a sensação de ter algo tirado à força de seu peito.
Quando retornou a si, estava num lugar frio e escuro. Levantou-se do chão de pedra onde estava com muito cuidado para não escorregar no limo. A seguir, encarou a face da Deusa Lua, que a pegou violentamente pelo braço.
- Onde estou?
- No final do limbo. Em poucos instantes, estaremos diante da Deusa Lua.
- Então, você é uma aliada dela!
- Criatura tola! Trocou sua alma pela daqueles inúteis! Realmente não sabe o quanto vale! Mamãe ficará muito agradecida a mim!
Noite então era uma das filhas da Lua, de quem Agatha apenas ouvira falar. As histórias contam que a Deusa renegada teve diversos filhos com o deus da Escuridão, que ela mesma criou, e com mortais extremamente perversos.
Elas chegaram a um portal de ferro. Dentro deles, dois enormes cães pretos de olhos vermelhos e flamejantes montavam guarda. Dois semi-humanos com cabeça de corvo guardavam a entrada com lanças.
- Diga à mamãe que estou com a Princesa Agatha Tess.
Agatha notou uma certa tensão em sua voz, o que demonstrava que Noite estava com algum temor. O segundo guarda abriu o portão de ferro, e ela passou por ele. Agatha vacilou.
- Ela passará? – perguntou o guarda.
- É claro que ela passará. – assegurou Noite – É uma humana! E nem mesmo é uma criança para ser pura.
- Sabe que isso não importa se ela tiver aquilo.
- Aquilo… ah sim! Se ela tiver fé… – debochou Noite – Nenhum humano tem fé absoluta nos deuses.
- Pois eu tenho! – retrucou Agatha. Ela tremia dos pés a cabeça, mas sua voz estava incrivelmente firme.
- Você se diz uma pessoa de fé… pois bem! Apenas são impedidos de passar por esse portão aqueles que têm fé nos deuses e são bem-quistos por eles. Pois bem! Se vacilar um segundo sequer, não poderá nunca mais voltar.
Agatha caminhou a passos miúdos. Suas pernas tremiam muito. E em todos os seus pensamentos pensava: ela teria fé?
- Prove sua fé! – ordenava-lhe a mulher de longos cabelos negros – Ou deixará todos perecerem.
Muitas coisas permearam sua cabeça naquele instante. Não podia vacilar um momento sequer. Tinha que ter fé nos deuses. Mas se hesitasse, um milésimo de segundo que fosse, nunca mais retornaria, e o povo estaria à mercê de Noite.
Mas eles a apedrejaram e a insultaram. Seria digno arriscar sua vida e muito mais, sua alma, por pessoas que nem conhecia?
Eles são meus súditos. Um governante deve fazer tudo por seus súditos. – pensava. Mas em seguida, outro pensamento vinha à tona. Você não é mais herdeira de trono algum. Renunciou a isso. Não precisa se importar com eles.
- Então, não provará sua fé? – provocava Noite.
- Espere! – disse Agatha, interrompendo seus passos. - Até agora, as intenções de nosso acordo não ficaram claras.
- Não fizemos acordo algum! – respondeu Noite.
- Então quer dizer que posso ir embora agora.
- Você sabe que não. Sabe que eu voltarei e roubarei as almas que são minhas por direito.
- Eu exijo um acordo. – propôs Agatha – Quem vai me assegurar que depois de possuir minha alma, você não vai voltar e pegar a alma dos outros?
- Humpf, que seja! Quais são os seus termos?
- Você terá a minha alma, desde que eu atravesse. Não poderá pegar a alma de ninguém fora deste acordo.
- E se você não atravessar?
- Você ficará sem alma alguma.
Noite estava decidida a não aceitar o acordo. Mas pensou que a possibilidade de Agatha não atravessar o portão era quase nula.
- Temos um acordo então.
Agatha continuou a passos tímidos. Aos poucos o portão ficava mais próximo de seu ser. Já podia até ver os olhos felinos de Noite perto dela. E o ar funesto do inferno.
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Os três dias que a ex-princesa fora hóspede daquela cidade fizeram-na concluir que: primeiramente, era uma cidade rica, mas ao mesmo tempo tão pobre! Os homens, as mulheres e mesmo as crianças andavam, por mais insignificante que fosse o lugar, ricamente adornados com ouro, prata e pedras preciosas. No entanto, Agatha não viu naquela cidade vestígio algum de atividade econômica forte, muito menos de presença do Reino do Ar. Ao interpelar a seu anfitrião, obteve a seguinte resposta:
- As pessoas aqui há muito esqueceram a quem devem ser fiéis, srta. Brown.
- Nem mesmo aos deuses?
- Deuses? – estranhou o velho – Poucos aqui acreditam nos deuses. Para eles , só o que existe é a Deusa Noite.
A Deusa Noite, Agatha pôde perceber, era a criatura mais venerada em toda a cidade. Todos agradeciam imensamente a ela por ter transformado Preteus de uma cidade semi-feudal a uma verdadeiro oásis de glória e ostentação.
- Há muito tempo, a guerra passou por aqui. Os homens do Império do Fogo queimaram toda a nossa terra. – contou-lhe o balconista da padaria – Não nascia um só grão. O Exército travou por essa região uma terrível batalha para expulsar os estrangeiros daqui.
- Os soldados ficaram por aqui por dois, três meses. Isso até os guerreiros do Fogo estarem bem afastados! – dizia o farmacêutico – Depois, nos abandonaram. Fomos fadados à miséria, à fome, à humilhação. O Reino esqueceu de nós.
Em todo o lugar, a opinião dos adultos com mais de 30 anos, e mesmo dos jovens (que reproduziam a história contada) era a mesma.
“Nossa terra ficou improdutiva, os preços ficaram exorbitantes.”
”Fomos condenados a passar fome. As crianças morriam de inanição e de doença. Remédio não tinha. Isso pra não falar nos órfãos e nas viúvas”.
“Já ouvi falar de histórias que pais matavam seus filhos por não possuírem comida ou por não aguentar o sofrimento que passamos”.
“Tínhamos fome. Tínhamos sede. Morríamos de doenças, não tínhamos remédios. Nossos maridos ou morreram no campo de batalha ou ficaram imprestáveis. Algumas mulheres vendiam seu corpo aos soldados em troca de algumas moedas. Depois que eles se foram, nem essa alternativa tiveram. O jeito era rezar. E os deuses permaneceram surdos aos nossos apelos”.
Foi aí, que, segundo o povo, surgiu a deusa Noite. Ela vinha todas as noites e trazia pão, leite e remédios para os lares carentes. Depois doava ovelhas e vacas. O povo logo percebeu que ela era boa e ofereciam-lhe parte do que era doado. A Deusa agradeceu a oferta e trazia ainda mais coisas ao povo. Ela despoluiu os rios e lotou-os de peixes. Descontaminou a terra e devolveu-lhe os frutos e a fertilidade. Os doentes amanheciam bons, da noite pro dia. E assim, o povo foi se acostumando com a sua bondade. Ofereceu fidelidade. Ela aceitou.
Mas, segundo o avô de Ezequiel, o povo queria mais. E depois não mais desejava trabalhar. A Deusa Noite atendeu o pedido. E dava de tudo ao povo, que dedicava-se a outras atividades. Ouro, pedras preciosas todos possuíam. A Deusa dava-lhes de graça.
Agatha começava a achar que tinham uma certa razão. A mãe, ou como ela considerava, a mulher que a criou, a Grande Rainha, a Correta e Perfeita. A Justa. A Corajosa. A Benevolente. Essa mulher havia deixado seus súditos na mais completa miséria. E não era só ali. Pelas cidades que já havia passado, Agatha pôde perceber que boa parte dela vivia com grande dificuldade por causa da guerra e de suas consequências. Frequentemente, lembravam de seus dias de glória.
- Não deixe esse povo enganá-la, senhorita Brown. – aconselhava o avô de Ezequiel. – Esse povo é ignorante e preguiçoso. A senhorita não. Eles acham que a deusa dá tudo o que querem de graça, sem pedir nada em troca. Isso não é verdade. Ela cobrará um preço muito caro. Um preço que não poderemos pagar.
Ezequiel entrara correndo pela porta. Ofegante, sentou-se no sofá antes de proferir a mensagem.
- Venham! Vovô, senhorita Brown! A estátua da Deusa Noite já está pronta!
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segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Desde que nascera, Agatha foi criada temente aos deuses que regiam aquela terra. A Deusa-Mãe, mãe de todas as criaturas vivas na Terra, protetora da família, do casamento. O Deus-Pai, criador de tudo o que é visível e o que não é visível. O Deus Sol, amigo da humanidade, protetor da luz, da sabedoria e da vida. A Deusa Lua, deusa das trevas e da escuridão.
Dizia uma antiga lenda, que o Deus Sol se apaixonou por uma mortal e teve com ela quatro filhos: Terra, Água, Fogo e Ar. Cada um era patrono de um país, e deveriam coexistir em harmonia.
- Mas não há harmonia nesse mundo, não é mamãe? – contestava a princesinha – Porque o Império do Fogo é dono de todos os outros países.
Ela, que sempre acreditara nos deuses, agora duvidava de sua existência. Se os deuses fossem piedosos e gentis, por que deixariam seus filhos sofrerem tanto?
O sol começara a se pôr, quando a jovem chegou às portas de um povoado à beira de uma vale desabitado. Algo ali parecia diferente de todas as paisagens que já tinha visto na vida. As estrelas pareciam iluminar o céu com mais força, e os ventos brilhantes dançavam por sobre o povoado.
Cruzou o arco de pedra, onde uma estátua de bronze posava com altivez. Apesar de saber apenas que estava em um lugar longe, não imaginava que seria extremamente provinciano.
As pessoas, principalmente as mulheres, vestiam-se de modo luxuoso. De longe, era possível notar o brilho das jóias, das pérolas, a elegância das vestimentas. Logo, a presença de uma garota maltrapilha foi notada pelos habitantes.
Andou pela avenida principal. Nenhuma daquelas construções parecia-lhe viável economicamente. Afinal, Agatha renunciou ao seu título, ao seu luxo e apenas vagava pelo mundo perguntando quem seria.
Chegou à porta da mais simples estalagem da rua principal. Era um sobrado caiado com desenhos em relevo na madeira clara. Por dentro, motivos florais decoravam o papel de parede cor de malva. Elegantes poltronas cor de creme completavam a sala, marcada pela mobília de madeira claríssima.
- Quanto é o quarto? – perguntou Agatha à atendente – O mais simples, por favor.
- Duas moedas de cobre!
Agatha tirou da velha bolsinha de tecido ordinário algumas moedinhas e deu à moça. Recebeu uma chave delicadamente floreada com ouro e cobre.
Ela levantou cedinho, não por vontade própria, mas pelo barulho que as pessoas faziam pela estalagem e na rua secundária onde seu quarto tinha vista. Ao contrário do que pensara, a cidadela era vívida. Espiando pela janela, viu uma grande movimentação de pessoas pela rua.
Desceu, e foi até a rua. Perguntar aonde estava, que cidade era aquela e de quebra descobrir a razão daquele alvoroço.
- BIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!!! – Agatha ouviu um barulho de sirene ou buzina por alto. Quando recobrou a consciência, estava deitada sobre os braços de um rapaz, não muito mais velho que ela.
- Moça, moça! Moooooçaaa! – ele gritava, sacudindo-a nos braços, como se a agitação fosse ajudá-la a se recompor.
- O q-? Que? Aiii! – Agatha levava a mão à cabeça, enquanto o rapaz a carregava dali.
Ele a colocou num sofá cor de pérola muito fofo. Enquanto o garoto buscava algo dentro e gritava pelo avô, Agatha aproveitava para reparar na casa ricamente adornada com madeira talhada e relevo em formas marítimas. O garoto voltou logo depois trazendo uma taça com água, empurrando-a na garganta de Agatha.
Pela primeira vez, ela percebeu as suaves feições do jovem. Ele tinha um cabelo castanho avermelhado, um tanto quanto bagunçados e cujas pontas estavam um pouco chamuscadas. Seu rosto era de um oval quase perfeito com bochechas muito salientes e salpicadas de sardas pequenas.
- Pronto, você ficará bem. Agora diga alguma coisa. Por favor!
- Estou bem, obrigada. – respondeu Agatha, frente ao nervosismo do garoto – Sério!
- Qual o seu nome?
- Err, o meu nome… – Agatha pensou um pouquinho antes de responder – É Lena, Lena Brown.
- Ok, senhorita Brown. – o garoto deu um risinho aliviado – Por favor, fique aqui, enquanto eu chamo um médico.
- Não precisa. Realmente estou bem.
- Não é daqui da cidade, é senhorita Brown? – perguntou.
- Acho que dá pra notar né?
- É… a propósito, meu nome é Ezequiel.
Segundos depois, apareceu um velho. Uma espécie de predição de Ezequiel cinquenta anos depois. Tinha os cabelos inteiramente chamuscados e vestia um avental branco sujo com substâncias verde neón. Era uma figura totalmente amalucada.
- Quem é essa mulher, Ezequiel? Sua namorada?
- É a senhorita Brown, vovô. – respondeu Ezequiel, vermelho – Eu bem… a atropelei ainda há pouco.
- Pois trate bem dessa moça. Nós não vamos querer que algo aconteça a ela.
O velho limpou as mãos e entrou pelo corredor interno. Ezequiel virou os olhos para a visitante, tentando dar alguma satisfação diante de sua expressão perdida.
- Essa é a cidade de Preteus, caso ainda não saiba.
Logo depois, alguém bateu freneticamente à porta. Ezequiel atendeu e por ela entrou um rapaz com mais ou menos a idade de Dimitri usando uma bela farda azul marinho e alguns emblemas.
- Bom dia Ezequiel. – saudou, tirando o quepe – Que semaninha agitada, hein?
- É…
- Então, vim pra pegar a colaboração da sua família.
Agatha notara que ele era muito, muito bonito. Tinha cabelos muito escuros e olhos de um azul muito profundo. Seu rosto tinha zigomas bem definidos e expressões muito fortes. Teria sido um homem que deixaria até Vicky Valentine excitada.
- Quem é ela? – perguntou o homem, se referindo à Agatha – É sua namorada?
- Não. Eu apenas a atropelei hoje de manhã.
- Ela é muito bonita. – continuou o rapaz, tão naturalmente como se ela não estivesse ali – Se não quiser um romance com ela, poderia apresentá-la a mim.
- Pegue, Artur. Dê o fora, agora!
Artur, o rapaz de farda azul, pegou uma sacola de tecido e conferiu algumas peças. Agatha estava longe, mas viu que eram de ouro puro.
- Então? – disse Ezequiel.
- É, está tudo aqui. Mas e quanto…
- O que foi?
- Não vai mesmo nos apresentar formalmente? – insistiu Artur – Eu e a garota? Quer dizer que pretende iniciar um romance com ela?
- Saia daqui!
Artur fechou a porta com grande insatisfação. Ezequiel resmungou algumas palavras, antes de dizer algo à Agatha.
- Desculpe pela atitude do comissário Artur Negill. Ele está sempre interessado em garotas atraentes e… quer dizer… não ache que esta é… não… não quis dizer que a senhorita não seja.
- Não se confunda.
- É… desculpe…
- Esta é uma cidade muito farta hein?
- Sim. Temos sido abençoados pela Deusa nestes últimos anos. Só graças têm ocorrido a nós.
- Deusa?
- Sim. A Deusa Noite tem sido muito bondosa. Antes, nossa cidade era pobre e recebia pouquíssimos recursos do Reino Suspenso do Ar. Hoje, temos fartura em tudo.
- Então quer dizer que não acreditam nos outros deuses? Digo, no Deus Sol, no Deus Ar, o grande patrono da nossa terra.
- Os deuses nos abandonaram, senhorita Brown. Apenas a Deusa Noite lembrou de nós.
- NÃO BLASFEME CONTRA OS DEUSES, EZEQUIEL!!
Uma voz grave originara-se do interior da casa. Era, outra vez, o avô amalucado de Ezequiel.
- Não vou permitir que você seja mais um dos iludidos.
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terça-feira, 24 de agosto de 2010
O relógio tiquetaqueava no ritmo de seu coração. Ivan Gardner não queria admitir, mas para Lua, mentir parecia impossível.
- Xeque! – anunciou quando finalmente concluiu a jogada. Avançou um de seus bispos e ameaçou o Rei da adversária.
Lua virou o jogo numa jogada bem simples… utilizando sua rainha, capturou o bispo de Ivan.
- Chega! – Lua, de personalidade intempestiva, decidiu terminar o jogo ali, quando melhor lhe conviesse.
Ivan atendeu ao seu pedido e largou a peça em qualquer lugar. Lua desceu do trono e ordenou a uma de suas criadas que lhes trouxessem bebidas…
- O tempo está passando Ivan! Sabe que ele não é conveniente nem pra mim nem pra você!
- Estou precisando de mais almas Lua! A República deve cair primeiro!
- A República está em ruínas, Ivan! Porque não a derrota de uma vez?
- Porque eu tenho um plano…
A sala de reuniões era a maior do Castelo. Imitava em grande parte a sala em que se reunia com Lua. Pilares de concreto com dragões expelindo fogo, um grande mapa do mundo em alto relevo indicava a localização de todas as tropas. Ao redor, todos os generais, o ministro de Guerra e claro, a presença ilustre do Imperador.
- Vita eternus et Pium!
- At Pium eternus!
Ivan congratulou todos os seus generais pelas sucessivas conquistas. Oliver, é claro, recebeu grandes honras.
- Estamos chegando à capital, Meu Imperador, logo estaremos às portas do grande planalto.
- Nossa situação é favorável com os deuses, Meu Imperador?
- Os deuses?? EU sou o Deus desse mundo… os deuses temem a mim!
Todos se calaram. A arrogância e prepotência de Ivan eram conhecidas por todo o Império. Muitos ainda temiam os deuses, principalmente os velhos. Mas Ivan os desafiava sem pensar. Inicialmente se intitulava o enviados Deles, décadas depois, se dizia mais forte que os próprios deuses.
- Quero a cabeça do Rei da República da Terra em minhas mãos o mais rápido possível!
- Em alguns meses o senhor a terá!
- Meses? – Ivan riu sarcasticamente – Quero em semanas!
Assim que a longa reunião acabou, restaram na oca sala apenas o filho e o pai, o que há muito não eram. Oliver era o defensor, o sucessor, a continuação da maldade ardilosa do sangue ardiloso de seu pai.
- Como estão suas fontes sobre a Princesa?
- Pensei que ela não era mais importante… – Oliver tentou dissuadir o pai. Não era de seu feitio e também não tinha paciência de perseguir uma princesinha inútil. Mas pensou melhor: não era agradável contrariar o pai – Digo, meus contatos me informaram que ela voltou pra casa com a ladra do deserto e com a aldeã do País da Água.
- Quero ser informado sobre tudo. Qualquer passo que essa pirralha der!
- Pai… – Oliver interrompeu o pai, sabendo quais as consequências que poderia enfrentar. Não era da natureza de Ivan ser questionado – sobre qualquer coisa – e muito menos de perdoar a quem o desagradasse – Por que o interesse nessa garota?
- Enfim, chegou a hora de lhe contar tudo! – convenceu-se Ivan, e, puxando o filho pelo ombro, encarou bem seus olhos e disse-lhe firmemente.
- Essa garota quer arruinar o nosso Império.
Bem distante dali, a menina brincava com a água crsitalina em suas mãos e o com o calor do sol dourando um pouco a pele muito branca de anos confinada em um castelo.
- Não vai me desculpar mesmo né? – perguntou Vicky mais uma vez, enquanto Agatha jogava água em Boo.
- Eu achei que você já tivesse mudado essa sua personalidade de sempre ficar roubando as pessoas!
- Péééé – Vicky emitiu uma onomatopeia imitando uma campainha – Resposta errada, docinho! Eu não roubei ninguém de você, porque o Dimitri nunca foi seu! Se alguém tinha de reclamar era a Lara…
- Não complique mais a situação Vicky! – aconselhou Lena – Esta não é a postura de alguém que quer ser desculpada.
- Não vai dar… – divagou a princesa, que agora, fazia tranças, em vão, no cabelo de Boo – Eu não posso simplesmente ignorar isso.
- O quê que você não pode ignorar? – perguntou Vicky, olhando confusamente para Lena, que também parecia não ter entendido.
- Tudo… – continuou a princesa – Eu preciso saber o que realmente aconteceu, preciso ir atrás dos fatos.
- Não diga nada filha… – tentou intervir a Rainha.
- Por favor, Vossa Majestade… eu preciso que me deixe seguir com a minha vida em paz.
Amélia tentou abraçar a filha, mas estagnou onde estava ao ver que a ruiva recuara alguns passos e se posicionava atrás de Boo.
- Não posso continuar enganando o povo com isso… muito menos ser ignorante mais uma vez na vida.
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quinta-feira, 12 de agosto de 2010
O fogo criptava. Chamas bailando pela escuridão nefasta. Acima dela, somente as estrelas e o ulular do vento frio da noite primaveril.
As duas amigas foram chamadas às pressas. Todos à postos, procurando uma princesa angustiada, com um coração sangrando. Lena parecia confusa e perdida… não era segredo que Agatha não amava seu noivo, mas por que fugir depois de algumas semanas? E por que não comunicou nem a ela ou à Vicky? A loira, por sua vez, não deixava de sentir uma ponta de remorso por dentro, mas mal sabia conhecer apenas uma parte da verdade.
Três dias já haviam passado. O frio da viagem já chegava-lhe no corpo. Não comia ou bebia desde que saíra do palácio. Suspirou aliviada ao chegar a seu destino.
Uma criança aproximou-se a passos pequenos e vagarosos. Abriu apenas um pequeno sorriso ao vê-la ali. O corpo pequeno e frágil da princesa, os cabelos vermelhos dançando com a brisa, mas as mãos… chamuscadas, vermelhas, como que queimadas por fogo. Pegou-a no colo sem grandes dificuldades e trouxe-na para dentro do templo, onde poderia tratar suas feridas…
No jardim real, Vicky tentava acender, em vão, um cigarro, mas suas mãos tremiam a cada vez. Quando finalmente conseguiu, seu cigarro foi tomado por outra pessoa e esmagado no chão.
- Ficou doida, garota? – brigou Vicky – Cê não tá vendo que eu tento fumar há horas?
- Não precisa disto, Vicky, e você sabe…
A mulher parecia ter mais ou menos a idade da loura. Mas sua aparência se assemelhava a uma ninfa, uma ninfa de pele e cabelos negros.
- Não deveria tentar sua amiga?
- Nem sei se ela ainda me considera como amiga.
- E você? A considera?
- Do que adianta? – Vicky continuava desanimada – O país é grande demais! Ela pode estar em qualquer lugar!
- Confio em você, srta. Valentine.
Sem mais, a mulher desapareceu por entre os arbustos. Logo depois, surgiu Lena.
- Com quem estava falando? – perguntou a morena.
- Uma das serviçais do palácio… o que você quer?
- Estive pensando no porquê dela ter sumido assim, de repente.
- Vai ver que deu na telha! – disse Vicky, tentando dissipar o assunto.
- Não. – discordou Lena – Tem alguma coisa a mais… Agatha não fugiria sem nenhum motivo.
- Ah vai Lena! – ponderou Vicky – Agatha não é exatamente uma pessoa madura…
- Vicky, você sabe de alguma coisa né? – palpitou Lena – Devíamos contar à Rainha! Ela está sofrendo tanto!
- Nem você nem eu podemos fazer nada!
- Ela é nossa amiga Vicky! – insistiu Lena – Agatha sempre se mostrou generosa com os nossos erros e nos ajudou! Por que não podemos ajudá-la?
Vicky cubriu o rosto com as mãos. Algumas lágrimas escorreram pelas palmas. Lena permanecia atônita enquanto tentava formular um pedido de desculpas. Mas surpreendentemente a loira levantou-se e tranformara seu semblante um determinado e decidido.
- Lena – disse, firmemente – Quando foi que você viu a Agatha pela primeira vez?
Lena passou a mão pelos cabelos, como se a memória fosse algo palpável.
- Eu não lembro direito… a Agatha tava caída… e… – Os olhos de Lena iluminaram-se – Vamos buscar a Rainha.
Apesar daquele ser apenas o seu quarto dia, o terceiro consciente, Agatha o (a) chamava de Boo, já que esse som era o único que ele (a) emitia.
- Pensei que o Exército do Império do Fogo havia destruído esse lugar! – exclamou Agatha – Mas ele parece intacto! Você sabe o que aconteceu?
Boo não respondeu. Apenas pegou suas mãos e a levou para o cume do templo. Lá havia uma grande sala redonda com muitas estátuas antigas.
- Boo… – Agatha chamou-lhe a atenção – Você ainda não respondeu minha pergunta…
- Tudo ficou escuro por segundos, o suficiente para deixar Agatha apavorava. A luz voltou em seguida. No bolso direito do casaco da princesa apareceu um velho pergaminho. Agatha o abriu e leu. As chagas de suas mãos, feridas pelo fogo que conjurou durante a viagem, abriram-se e banharam de sangue suas vestes. Letras começaram a aparecer, como se a tinta fosse seu próprio sangue. Agatha largou o pergaminho no chão enquanto Boo reapareceu na sua frente, fitando-a com fixação.
- IDIOTAAAA! – ralhou Agatha, sacudindo-o pelos ombros – Não teve graça, Boo, não teve graça!
Agatha correu para fora do templo. Porém suas mãos ainda doíam, com grande força, uma dor que ela mal podia suportar.
Banhou suas mãos no primeiro rio que viu, um estreito rio de águas cristalinas. Uma lágrima caiu, criando uma oscilação na superfície das águas. Mas elas não vinham dos olhos castanhos de Agatha.
- Eu também costumava aliviar minhas dores aqui… – revelou uma mulher bonita, mas cujas mãos denunciavam-lhe as manchas senis – A muito e muito tempo!
- Como me encontrou? – perguntou Agatha,
- Pela perspicácia de suas amigas Lena e Vicky.
- Vicky não é minha amiga…
- Não a culpe pelo rancor que sente em seu coração querida…
Agatha levantou-se e sacudiu as mãos molhadas. Amélia a puxou pelo braço.
- Há muito o que contar, querida…
- Claro que há! – reagiu Agatha, ferozmente – Dezoito anos de mentira é um bom tempo, Vossa Majestade.
- Não gosto que me chame assim…
- E por que não devo? Afinal não sou sua filha, não tenho o sangue real… Nem sei se pertenço ao seu reino!
- Pare de me julgar… só quero que entenda a verdade…
Amélia Talidis era de longe a jovem mais promissora do Reino do Ar. Seu pai, o duque de Strattford, era um dos homens mais respeitados da região. Gozava de um grande prestígio junto ao rei.
Um prodígio! Aos quinze anos foi apresentada à corte, no baile, importantes figurões da alta sociedade do Reino do Ar, inclusive os príncipes, que lá estavam mais por obrigação que por prazer.
- Por que seus pais quiseram fazer essa festa chata? – perguntou o príncipe Victor, entediado – Sério, Amélia, baile de debutantes só serve pros pais ficarem se exibindo com os filhos.
- E você acha que eu tive escolha? – defendeu-se Amélia – Eles dizem que é importante, querem que eu me case.
- Mas você não vai topar né? – perguntou o príncipe incrédulo – Você prometeu que nós três: eu, você e o Thales faríamos Política juntos!
Amélia balançou a cabeça afirmativamente. Seus pais queriam mesmo que ela se casasse, ainda sim, permitiram que ela frequentasse a Universidade, a pedido do príncipe.
A morte do rei e a proclamação de guerra contra o Império do Fogo deixou o Reino atônito. Era precioso tomar providências e providências rápidas. A situação piorou quando a Rainha, muito querida pelo povo, definhou meses depois à morte do marido. Suas últimas palavras lamentaram sua fraqueza e por conseguinte, ela suplicou aos filhos que a próxima Rainha deveria ser forte.
- Amélia! – sussurrou o príncipe de madrugada, jogando pedrinhas na janela do dormitório. – Améliaaa, desce!
Amélia saiu pela janela, descendo pelas trepadeiras. Era frequente que o Príncipe a chamasse sempre daquela forma.
Eles se reuniram no lugar de sempre, abaixo do frondoso sabugueiro, às margens do Rio das Lágrimas. Para sua surpresa, Thales também estava lá.
- Mas, mas… – gaguejou Amélia – Eu não posso aceitar isto… Thales, você…
- Eu concordei – respondeu Thales friamente – É o nosso Reino, Amélia!
- Você é a única mulher que eu confio pra ser a Rainha! – argumentou Victor – Além disso, eu te amo, e você gosta de mim…
- Gostar não é amar! – exclamou enfaticamente antes de olhar para Thales, o namorado, suplicando que ele tivesse alguma saída brilhante para aquela situação embaraçosa – Thales…
- Amélia, pára de ser egoísta! – disse Thales – Nós não somos mais aquelas crianças bobas… nossos reis morreram, as pessoas precisam de nós, estamos em guerra! Se não agirmos logo seremos humilhados pelo Império do Fogo! É isso o que você quer? Deixar de ser a rainha para ser a escrava deles? Tudo em nome de…
- Amor! – Amélia enxugou as lágrimas. Parecia finalmente ter ouvido a voz da razão. Em algumas semanas, ela se casaria com Victor Tess e se tornaria a nova Rainha do Reino do Ar.
A barriga era demasiadamente pequena para os oito meses de gravidez. Apesar disso, as últimas semanas não tinham sido nada fáceis para ela. Agora Amélia estava no quarto, sofrendo as dores do parto, dores que há seis gestações ela esperava ansiosamente.
- Majestade… – o médico saiu do quarto com um pequeno embrulho nas mãos – Eu sinto muito, muito mesmo…
O rei carregou o corpo inerte do bebê. Ele acariciou o menino, seu sexto menino, morto.
- A Rainha já tem uma idade avançada – informou o médico – É melhor não tentar mais…
Amélia saíra do palácio logo no dia seguite. Mais uma vez ela perdera o único herdeiro do Reino, mais uma vez ela perdera a oportunidade de cumprir a promessa que fez a Thales. Uma retrospectiva passara por sua cabeça: a sexta gestação, seis crianças mortas prematuramente. Desistir de ser mãe? A idade lhe batia à porta. Se quando era mais jovem, não conseguira, por que conseguiria agora, com trinta e nove anos?
Sentou-se à beira do Rio das Lágrimas, o místico e legendário. Rezava a lenda que suas lágrimas vinham da humana que se apaixonou pelo Deus Sol no dia que perdeu para o mundo seus quatro filhos. Quem sabe uma mãe entenderia a dor de outra…
Um choro estridente. Lágrimas. Um bebêm uma menina de cabelos vermelhos boiava no rio.
sábado, 31 de julho de 2010
Com exceção de Lena, as outras mulheres no palácio pareciam tristes ou esgotadas, inclusive a Rainha. Agatha teve o descontentamento de ser acordada muito cedo, oq ue a desagradou muito, afina, não pregara os olhos. E o mesmo pivô de sua insônia foi também a razão da falta de ânimo e humor.
Vestiu com indolência a roupa de equitação e desceu as escadas com a maior falta de vontade possível. Foi recebida no saguão do palácio por dois lacaios que acompanhavam seu senhor, o lorde Van Buailt.
Pela primeira vez, prestou atenção no homem com quem iria se casar: pele macilenta, cabelos negros e levemente ondulados, barba longa, olhar escuro, olheiras profundas. Tudo em seu visual lhe conferia ar misterioso e sombrio, pra não dizer nefasto.
O lorde beijou-lhe as mãos e a conduziu para o exterior do palácio, onde dois cavalos absurdamente grandes, um negro e um branco, os esperavam. Montaram cada um no seu e prosseguiram com o passeio.
Lorde Van Buailt, Agatha logo percebey, não era muito de falar. Às pouquíssimas vezes que a princesa lhe dirigiu a palavra, ele respondia com um pigarro ou quando muito, com palavras monossilábicas.
Chegaram enfim, à sombra de uma árvore onde amarraram as montarias. Uns passos adiante, havia uma toalha com algumas cestas recheadas de comida: frutas, bolos, chás, biscoitos, geleias, queijos, pães, tortas…
- A Rainha disse-me que prefere chá de hibiscos silvestres – disse o lorde, tentando arrancar uma palavra da noiva – Mandei preparar o desjejum pra você. Não vai comer?
Agatha apenas resmungou. O lorde parecia não ouvir e continuou.
- Você sabe o que isso significa?
Novamente Agatha respondeu com um resmungo. Lorde Van Buailt prosseguiu:
- Daqui a três anos vamos nos casar, seremos coroados… Você me dará herdeiros e os criará para que assumam um dia esse trono! Creio que essa foi a escolha mais sensata da Rainha ao me escolher para essa missão.
- O que passa na sua cabeça em se casar com uma garota muito mais nova que você? Aliás, o que se passou na cabeça da minha mãe pra te escolher?
- Como já salientei, sou a escolha perfeita!
- DIMITRI ERA A MELHOR ESCOLHA! – gritou Agatha.
O Lorde ergueu sua mão, que parou a poucos centímetros do rosto da princesa. Depois, ponderou melhor e desistiu da ideia.
- Você é uma princesa e a sua obrigação é servir ao Reino! E quando for minha esposa, me obedecerá acima de qualquer coisa!
O lorde segurou a outra mão para segurar Agatha. Aproveitando-se disto, forçou um beijo. Agatha se desvencilhando de novo, jogando uma jarra de suco em sua cabeça e correu para mais longe que pôde.
Van Buailt levantou-se rapidamente e puxou pelos cabelos, prendendo-na entre os braços e forçando um segundo beijo. Desta vez, Agatha mordeu os lábios dele com grande força, seguido de um golpe baixo.
O noivo estava mais preocupado com os lábios machucados que com Agatha, por isso, deixou-a fugir.
- É uma égua baia, mas vou domá-la nem que essa seja a última coisa que eu faça!
Nas semanas subsequentes, Agatha sempre pedia a ajuda de Vicky Valentine para acompanhá-la durante os encontros com Lorde Van Buailt. Ele não tentara mais nada contra a dignidade da princesa e se reservava a fazer perguntas desnecessárias e proferir palavras hostis.
Nunca em sua vida, nem mesmo quando não passava de uma princesa inútil, se sentira tão infeliz. Fazendo algo que era forçada! E sua mãe? Porque não lhe consultara? Por que não entregou sua mão a Dimitri?
Vicky passava os dias com menos emoções em sua vida… Sem encrencas, dívidas de bar, prisão, trapaças… No entanto, seu corpo necessitava desse descanso… e sua boca necessitava a dele…
Fazia uma bela noite aquela, mas a temperatura que a incomodava seu sono. A brisa acerca da fonte lhe parecia uma boa ideia.
- O que faz aqui? – perguntou Vicky à sombra que se aproximava.
- Precisava te ver mais uma vez! – respondeu Dimitri. Deu uma longa passada para tentar beijar-lhe a boca.
- Esquece! Vários já esqueceram de mim… garanto que você vai conseguir também!
- E você acha que eu não tento isso todos os dias? Me sinto culpado quando olho pra este anel! Quando olho pra Lara!
- Você é uma pessoa desprezível.
Dimitri fez cara de surpresa. Como um homem tão leal que nem ele poderia ser considerado desprezível?
- Não vê que está fazendo três mulheres sofrerem ao mesmo tempo?
- Como?
- A Rainha iria escolhê-lo para casar-se com a Agatha! E acabou preferindo aquele lorde idiota… e graças a isso, Agatha está sofrendo imensamente.
- Não seja hipócrita Vicky! Agatha é como, como uma ir…
- ELA SEMPRE TE AMOU, SEU RETARDADO!
- Mas… mas… mas… você, eu… você não me deixaria casar com ela…
- É claro que sim! – afirmou Vicky, com lágrimas nos olhos – eu não sou nada sua!
Vicky beijou Dimitri ardorosamente;
- Eu te amo, mas vou te esquecer nem que isso custe a minha vida.
Uma sombra moveu-se entre os arbustos. Aos olhos rápidos de Vicky, a criatura assustada fora facilmente reconhecida pelo simples fato de ter cabelos vermelhos.
Tamanha era sua apatia e reclusão nos últimos dias, que nenhum serviçal ousava incomodar a princesa. Agatha entrou correndo pelo palácio, estupidamente cega a ponto de derrubar um criado levando louças a serem limpas. Não sabia exatamente aonde iria, corria sem rumo, entrando de porta em porta como se o gigantesco castelo não fosse grande o bastante para suprimir sua raiva.
Entre as portas e passagens ocultas, entrou num cômodo onde jamais pisara. Escuro e mal iluminado, exceto por um pequeno feixe de luz azul. Ali ficou a chorar e a maldizer Vicky, Dimitri, sua mãe, lorde… Todos conspirando contra a sua felicidade. Todos traindo e escarnecendo dela.
- Você está me pedindo demais! – esbravejou uma voz conhecida. Agatha escutara tanto essa voz, que na primeira palavra a reconheceu – Uma Rainha jamais se curvará a isso, muito menos quando isso envolve sua própria filha.
Agatha aos poucos se aproximou da fresta onde o feixe de luz irradiava. A voz ficou mais nítida e ela pôde identificar mais duas:
- Covarde! Como ousas chantagear Vossa Majestade! – Agatha ouviu uma voz grossa e imponente. Era a de seu tio Thales.
- Rainha? – a terceira voz se assemelhava com um sibilo ameaçador – Não tem o nosso sangue real! O Reino não precisa de uma Rainha devassa , que mantém um caso amoroso com um de seus generais… sendo o mesmo irmão de seu esposo, o Rei por direito.
Agatha ficou estupefata. Então a mãe estava enamorada de Thales? Aquilo não lhe soava tão estranho. Talvez fosse coisa de família que as mulheres se apaixonassem por seus protetores. Mas, teria Amélia sido tão egoísta a ponto de vender a felicidade de sua filha em troca da pureza de sua imagem?
- Não vou forçá-la a gostar do senhor, lorde Van Buailt – replicou a mãe – Já cedi a chantagens demais de sua parte!
- E o que o Reino vai pensar quando souber que sua matriarca, sua Rainha, a dama mais respeitada do país, foi na verdade, uma mentirosa?
- Desista Van Buailt… – disse Thales – A Rainha já disse que não se importará se você revelar a todos o nosso… relacionamento.
- Sabemos que eu não falo deste assunto, general Braus… As coisas são muito mais graves, não concorda Vossa Majestade?
Amélia caiu no choro, sendo amparada por Thales. Enquanto soluçava, o lorde exibia uma feição tranquila e triunfante. A princesa já não aguentava mais: era a primeira vez que ela vira a mãe, símbolo de força do país, cair em desespero e desilusão.
- Imagina o que ocorrerá ao reino, ao povo, ao parlamento, quando vir à tona toda a verdade?
- Páre! Páre! – pediu a Rainha, aos prantos – Por favor!
- … A verdade que todos desconfiavam mas sempre tiveram receio de perguntar…
- CALE-SE BUAILT! – ordenou Thales.
- … Que a princesa Agatha não possui o sangue real da nossa pátria…
Silêncio. A porta abriu-se e do outro lado, parada, uma jovem princesa, cujo coração caiu em desespero pela segunda vez naquela noite.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Cap. 26 Frívolas Estórias do Reino Suspenso do Ar Parte Final
1 comentários Postado por Mila às 20:19Marcadores: Princesa Agatha Tess, Reino Suspenso do Ar
sexta-feira, 4 de junho de 2010
Marcadores: Lena Brown, Princesa Agatha Tess, Reino Suspenso do Ar, Vicky Valentine
quinta-feira, 27 de maio de 2010
Sua missão havia terminado ali. Logo aquilo que havia aceitado apenas por obra do acaso, para que sua mãe não soubesse o que ela andara aprontando durante a “viagem”.Mas agora era tempo de voltar pra casa e deixar-se abraçar pelos braços calorosos de mãe. Seus dezoito anos estavam se aproximando, e querendo ou não, era a hora da sociedade conhecer verdadeiramente sua princesa.- Você nos mandará os convites não é Agatha? – cobrou Vicky dando uma piscadela, antes de tomar sua condução.- Se eu souber onde te encontrar, sim! – respondeu a jovem. Não saberia aonde encontrar a ladra. Provavelmente em algum lugar do país aplicando golpes.- Nem sei como agradecê-la – despediu-se com um abraço Lena. Ela voltaria à sua aldeia a fim de estudar para o exame de admissão à Universidade. Provavelmente apareceria algumas semanas antes do Baile de Apresentação da Princesa.
Assim, partiram as três, cada uma para o seu lado, em breve voltariam a se encontrar…
- Minha Agatha! – saudou a mãe, abraçando-na fortemente, com a força ao nível da saudade que sentira – Você está bem, se machucou? Céus! Você está imunda! E esses trapos…Agatha mal teve tempo de dizer algo, tamanha era a saudade que sentia da mãe e daquele palácio, mas não da vida que levava quando ainda era uma princesa ignorante. Não… definitivamente era uma pessoa completamente diferente daquela que um dia partira daquele reino, deixando para trás toda a segurança e felicidade que falsamente sentira durante quase dezoito anos…
Aquele palácio chamava-se Palácio de Cristal. Trabalhado em vidro que refletia a luminosidade recebida pelos raios de sol que permeavam o Reino Suspenso do Ar. Também era chamado de Fortaleza Suspensa, pois essa era a impressão que tinha-se ali, nas nuvens brancas que serviam de mãe praquele país. Por todos esses motivos, sempre se sentira mais deusa que todos os outros… e por aquele e mais outros que nunca recebera um olhar daquela pessoa como gostaria de receber.- Fui avisado do retorno de Vossa Alteza, gostaria de me ver o mais rá… – Dimitri parou imediatamento ao perceber em que tipo de recinto estava… uma névoa tão doce e aromática invadira-lhe os pulmões… as várias amas envolvendo-na com toalhas brancas e felpudas. No centro de uma grande piscina de água borbulhante, ela estava lá. Tão branca. Tão intocada. Tão pura.Com um gesto dispensou as criadas e com outro fez sinal para que o rapaz de gostos finos se aproximasse. Visivelmente constrangido, Dimitri se aproximou dela, mas fitava seus pés o tempo todo.- Se Vossa Alteza preferir, eu aguardo o término de seu banho terapêutico.- Pare de ser bobo! – interrompeu Agatha – Eu não estou completamente nua! Além disso, lembra quando nós tomávamos banho escondido no Rio das…- Mesmo assim Vossa Alteza, devo demonstrar respeito para com a …- Humpf – resmungou Agatha, incomumente à sua maneira sempre polida de pronunciar-se. Não lhe agradava a formalidade que envolvia os dois. Aquilo a constrangia mais que tudo.- Como foi a viagem?- Interessante. – respondeu Agatha – Acho que foi bastante… instrutiva.- Vossa Alteza procurou o que queria?- Talvez. – respondeu Agatha vagamente. Não queria contar todos os detalhes a Dimitri, mesmo que ele fosse fiel à sua pessoa até a morte. Mesmo assim, a jovem não estava sendo hipócrita consigo mesma. De fato, Agatha não conseguira encontrar a resposta para a crise em si mesma, mas o que seus olhos viram durante sua “peregrinação” definitivamente a ajudaram a ser uma pessoa melhor. – Eu… eu acho que não estou pronta pra ser Rainha… não ainda.- Entendi. Com sua licença…- Espere! – pediu Agatha, antes que o jovem girasse seus calcanhares.Dimitri parou aonde estava e sequer se mexeu. A princesa adivinhara por seus olhos o que transparecia e quase saltava como palavras. Então, ela notara…- Não quero lhe revelar isso… não, até o Baile. – respondeu Dimitri, sem maiores explicações.Ela suspirou, e quando tentou encontrar sua figura, ela já havia se dissipado entre a névoa.
quinta-feira, 13 de maio de 2010
- Quem está… quem está… aí? – murmurava uma voz vacilante repousando no leito de véus. Era tão fraca e sem fulgor, traduzindo o estado daquele ser.
- Calma, calma, meu nome é Agatha. Agatha Vizcov Tess. Princesa do Reino Suspenso do Ar – dizia Agatha enquanto tirava o turbante, revelando os longos e sedosos cabelos ruivos iluminados pelo luar prateado.
O rei virou-se dando um sinal para que a jovem se aproximasse um pouco mais. Agatha assim o fez, e deslizou seus pés rumo ao leito. Prostrou-se ante ao Rei, não sabia como se comportar, jamais tinha ficado frente a um rei senão seu pai.
Vira, pela primeira vez, aquele homem deitado. Coberto de panos e lenços, se assemelhando a uma múmia. No rosto, uma máscara prateada cintilava à luz do luar.
- Eu… me desculpe, eu…
- SHHHHHHH- o rei silenciou com o dedo entre os teóricos lábios – Tess… hã…
Agatha não entendeu de pronto. O que ele gostaria de lhe dizer?
- Há muito e muito tempo eu conheci uma jovem condessa. Ela era bonita e doce e meiga… – o rei contava como quem conta um devaneio. Agatha apenas ouvia pacientemente – Mas um dia ela foi embora, ela se casou com o Príncipe do Reino do Ar e nunca mais voltou.
Sim, finalmente a jovem o compreendera. Então sua avó era uma nobre do Reino do Ar!
- Mas não vejo em você nada daquela nobre…
Agatha lembrou-se de sua infância e do turbante deixado no chão. Não era a primeira vez que alguém falava da sua falta de semelhança com sua família, e não seria a última. Aquilo não mais lhe incomodava, era algo que teria de conviver pra sempre mesmo.
Um pequeno solavanco na porta, ela se abriu com tamanha força e vigor. Dela saíram vários seguranças, dois deles segurando duas inquietas moças, uma loira e uma morena. Do pequeno aglomerado de gente, saíam dois homens de meia-idade, usando vestes nobres e semblantes autoritários.
- Prendam-na – ordenou o primeiro. Dois seguranças avançavam na direção de Agatha, que receosa, recuou mais.
- NÃOO – o rei se opôs com certo vigor.
- Mas meu senhor – repetia o segundo dos homens – O cabelo dessa jovem é vermelho! Ela é uma espiã do Império do Fogo! E essas jovens, aquela é uma ladra procurada e a outra uma traidora do Reino da Água…
- Esta jovem é a herdeira do Reino Suspenso do Ar. Deve ser tratada como em seu reino, como a princesa que deveras é.
Os dois homens entreolharam-se e deixaram os seguranças liberarem as jovens. Ainda que a contragosto.
- Como quiser, majestade.
Agatha acordou com os raios solares envolvendo e iluminando seu pálido rosto de princesa recém saída do castelo. Pelo alvoroço na cozinha, presumiu que Lena e Vicky estavam acordadas.
Vestiu o robe perolado e se deparou com o motivo da gritaria. Surpreendeu-se ao ver os homens, cônsules daquele país, à sua espera na sala.
- O que vocês querem? – perguntou Agatha, cujo humor não era dos melhores ao ser subitamente acordada.
- O rei solicita vê-la… alteza – respondeu o cônsul, com tal rispidez nas palavras, como se estivesse com nojo.
- E minhas damas de companhia?
- Serão tratadas como Vossa Alteza desejar.
- Uma charrete à disposição delas? – desafiou Agatha.
- Como? – perguntou o cônsul incrédulo.
- Disseram que serão tratadas conforme o meu desejo. É isso o que quero.
O cônsul não teve outra escolha a não ser conceder o desejo da convidada. Lena ficou entusiasmada, aproveitaria a oportunidade para ir à Universidade. Vicky não pareceu tão feliz. Talvez não apreciasse a companhia de dois brutamontes do governo. (Ou talvez os lugares que frequentasse não permitisse isso).
Agatha foi conduzida pelo cônsul até a charrete, onde o segundo estava esperando-na. Aquele país, como Lena lhe dissera, apesar de ser um Reino, se chamava República da Terra, e era governado por dois cônsules. O motivo, Agatha ficara sabendo, o rei era doente, doente o bastante até para ignorar a situação do seu próprio reino.
- Bem-vinda senhorita – saudou hipocritamente o segundo cônsul.
- Bom dia – respondeu apaticamente Agatha.
Os cavalos trotavam pelas ruas de pedra. Na cabine, os cônsules insinuavam coisas à princesa.
- Vai ficar quanto tempo, princesa? – perguntou um deles.
- Tempo suficiente pra resolver questões diplomáticas.
- Espero que saiba o que está fazendo, Alteza. – falou ironicamente o outro.
- O que o senhor quer insinuar com isso? – disse Agatha, sendo objetiva.
- Nós não queremos insinuar nada, Alteza. Apenas que saiba que antes de dizer algo desnecessário ao rei, compreenda como é este país.
- Compreendo muito mais que os senhores, pode apostar!
Ambos deram sorrisos sarcasticamente falsos. E prosseguiram com a viagem.
Agatha foi levada até um pequeno palacete, adornado com flores e árvores. O jardim, tão amplo, continha um lago bonito, onde carpas nadavam. O rei estava sentado à beira do lago, a toalha xadrez estendida e várias guloseimas sob ela.
- Muito obrigada por nos defender, Majestade – agradeceu a pequena princesa – Não é a primeira vez que eu me meto em confusões por causa do meu cabelo vermelho!
- Eu li o pergaminho que sua mãe me enviou – disse o Rei – Eu… nem sei o que dizer.
- Imagino… a algumas semanas eu era como Vossa Majestade. Eu também era ignorante e não sabia o que acontecia em meu reino. Não sabia as atrocidades que o Império do Fogo cometia contra o meu povo e contra os outros. Vi a miséria no Reino da Água e o sofrimento na República da Terra.
- Os meus cônsules fazem de tudo para manter esse reino bem.
- Me desculpe, mas acho que não fazem o suficiente. – apontou Agatha, relembrando todas as intrigas em que se metera pela corrupção dos soldados – O senhor não faz ideia do que eu vi neste reino! Os seus soldados estão se vendendo a moedas para o Império do Fogo e logo logo eles irão chegar à Capital.
- Não conseguirão! – o Rei tentou convencê-la – Nossas barreiras são intransponíveis.
- Bem, se o senhor prefere acreditar nisso… – ela se levantou, mas hesitou depois que viu um gesto do rei.
- Não ache que o meu reino é governado por dois cônsules porque eu assim quis! Eu precisei fazer isto!
Agatha sentou-se novamente. E quis ouvir o porquê de um Reino se transformar em uma República.
A cinquenta anos atrás, havia um rei e ele era casado com a dama mais bela de todo o Reino. Apesar de ter dinheiro, poder e a mulher mais bela em sua cama, ele não se contentava com isso.
O rei tinha várias concubinas e era especialmente maldoso com elas, e com seu povo. Depois que alguma delas engravidava, ele mandava que lançasse o bebê no Abismo do Medo. Apesar de possuir vários filhos com suas amantes, ele não reconhecia nenhum e sua esposa não conseguia dar ao Reino um herdeiro.
Um dia, a Deusa Terra, com pena da rainha, concedeu à ela um filho varão, saudável e forte. A Rainha, então, ficara muito grata à Deusa.
Porém, o Rei continuava a praticar suas maldades contra o povo e contra seus filhos ilegítimos. A Deusa Terra se arrependeu de ter concedido a graça ao Rei ao ver o desespero das mães com seus filhos descartados. Como punição, profanou a pele do herdeiro com uma doença que nem os homens mais sábios do mundo curaria. O herdeiro jamais poderia tocar uma mulher, e assim, nunca daria filhos ao Reino da Terra.
E logo quando ele completou quinze anos, quando estava apaixonado por ela, uma bela condessa. Nunca poderia casar-se com ela, nem poderia tocá-la e dar-lhe filhos. Assim, aquele palácio feito para ela ficaria como uma lembrança nostálgica. E ela, estaria feliz, quem sabe, ao lado do Rei do Ar e lhe deu um filho forte e varão.
- Eu não sabia, me desculpe – balbuciou Agatha.
- Agora Vossa Alteza entende, entende o porquê deste Reino estar fadado a ser uma República.
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domingo, 2 de maio de 2010
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sábado, 3 de abril de 2010
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