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Louca/Estranha/Anormal/Distante/Fria/Egocêntrica E muitas outras mais... Autora de Angelus, Tokyo Revivers e A Cor da Lágrima, codinome: Horigome Namika
Mostrando postagens com marcador Lena Brown. Mostrar todas as postagens
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quinta-feira, 12 de agosto de 2010

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O fogo criptava. Chamas bailando pela escuridão nefasta. Acima dela, somente as estrelas e o ulular do vento frio da noite primaveril.

As duas amigas foram chamadas às pressas. Todos à postos, procurando uma princesa angustiada, com um coração sangrando. Lena parecia confusa e perdida… não era segredo que Agatha não amava seu noivo, mas por que fugir depois de algumas semanas? E por que não comunicou nem a ela ou à Vicky? A loira, por sua vez, não deixava de sentir uma ponta de remorso por dentro, mas mal sabia conhecer apenas uma parte da verdade.

Três dias já haviam passado. O frio da viagem já chegava-lhe no corpo. Não comia ou bebia desde que saíra do palácio. Suspirou aliviada ao chegar a seu destino.

Uma criança aproximou-se a passos pequenos e vagarosos. Abriu apenas um pequeno sorriso ao vê-la ali. O corpo pequeno e frágil da princesa, os cabelos vermelhos dançando com a brisa, mas as mãos… chamuscadas, vermelhas, como que queimadas por fogo. Pegou-a no colo sem grandes dificuldades e trouxe-na para dentro do templo, onde poderia tratar suas feridas…

No jardim real, Vicky tentava acender, em vão, um cigarro, mas suas mãos tremiam a cada vez. Quando finalmente conseguiu, seu cigarro foi tomado por outra pessoa e esmagado no chão.

- Ficou doida, garota? – brigou Vicky – Cê não tá vendo que eu tento fumar há horas?

- Não precisa disto, Vicky, e você sabe…

A mulher parecia ter mais ou menos a idade da loura. Mas sua aparência se assemelhava a uma ninfa, uma ninfa de pele e cabelos negros.

- Não deveria tentar sua amiga?

- Nem sei se ela ainda me considera como amiga.

- E você? A considera?

- Do que adianta? – Vicky continuava desanimada – O país é grande demais! Ela pode estar em qualquer lugar!

- Confio em você, srta. Valentine.

Sem mais, a mulher desapareceu por entre os arbustos. Logo depois, surgiu Lena.

- Com quem estava falando? – perguntou a morena.

- Uma das serviçais do palácio… o que você quer?

- Estive pensando no porquê dela ter sumido assim, de repente.

- Vai ver que deu na telha! – disse Vicky, tentando dissipar o assunto.

- Não. – discordou Lena – Tem alguma coisa a mais… Agatha não fugiria sem nenhum motivo.

- Ah vai Lena! – ponderou Vicky – Agatha não é exatamente uma pessoa madura…

- Vicky, você sabe de alguma coisa né? – palpitou Lena – Devíamos contar à Rainha! Ela está sofrendo tanto!

- Nem você nem eu podemos fazer nada!

- Ela é nossa amiga Vicky! – insistiu Lena – Agatha sempre se mostrou generosa com os nossos erros e nos ajudou! Por que não podemos ajudá-la?

Vicky cubriu o rosto com as mãos. Algumas lágrimas escorreram pelas palmas. Lena permanecia atônita enquanto tentava formular um pedido de desculpas. Mas surpreendentemente a loira levantou-se e tranformara seu semblante um determinado e decidido.

- Lena – disse, firmemente – Quando foi que você viu a Agatha pela primeira vez?

Lena passou a mão pelos cabelos, como se a memória fosse algo palpável.

- Eu não lembro direito… a Agatha tava caída… e… – Os olhos de Lena iluminaram-se – Vamos buscar a Rainha.

Apesar daquele ser apenas o seu quarto dia, o terceiro consciente, Agatha o (a) chamava de Boo, já que esse som era o único que ele (a) emitia.

- Pensei que o Exército do Império do Fogo havia destruído esse lugar! – exclamou Agatha – Mas ele parece intacto! Você sabe o que aconteceu?

Boo não respondeu. Apenas pegou suas mãos e a levou para o cume do templo. Lá havia uma grande sala redonda com muitas estátuas antigas.

- Boo… – Agatha chamou-lhe a atenção – Você ainda não respondeu minha pergunta…

- Tudo ficou escuro por segundos, o suficiente para deixar Agatha apavorava. A luz voltou em seguida. No bolso direito do casaco da princesa apareceu um velho pergaminho. Agatha o abriu e leu. As chagas de suas mãos, feridas pelo fogo que conjurou durante a viagem, abriram-se e banharam de sangue suas vestes. Letras começaram a aparecer, como se a tinta fosse seu próprio sangue. Agatha largou o pergaminho no chão enquanto Boo reapareceu na sua frente, fitando-a com fixação.

- IDIOTAAAA! – ralhou Agatha, sacudindo-o pelos ombros – Não teve graça, Boo, não teve graça!

Agatha correu para fora do templo. Porém suas mãos ainda doíam, com grande força, uma dor que ela mal podia suportar.

Banhou suas mãos no primeiro rio que viu, um estreito rio de águas cristalinas. Uma lágrima caiu, criando uma oscilação na superfície das águas. Mas elas não vinham dos olhos castanhos de Agatha.

- Eu também costumava aliviar minhas dores aqui… – revelou uma mulher bonita, mas cujas mãos denunciavam-lhe as manchas senis – A muito e muito tempo!

- Como me encontrou? – perguntou Agatha,

- Pela perspicácia de suas amigas Lena e Vicky.

- Vicky não é minha amiga…

- Não a culpe pelo rancor que sente em seu coração querida…

Agatha levantou-se e sacudiu as mãos molhadas. Amélia a puxou pelo braço.

- Há muito o que contar, querida…

- Claro que há! – reagiu Agatha, ferozmente – Dezoito anos de mentira é um bom tempo, Vossa Majestade.

- Não gosto que me chame assim…

- E por que não devo? Afinal não sou sua filha, não tenho o sangue real… Nem sei se pertenço ao seu reino!

- Pare de me julgar… só quero que entenda a verdade…

Amélia Talidis era de longe a jovem mais promissora do Reino do Ar. Seu pai, o duque de Strattford, era um dos homens mais respeitados da região. Gozava de um grande prestígio junto ao rei.

Um prodígio! Aos quinze anos foi apresentada à corte, no baile, importantes figurões da alta sociedade do Reino do Ar, inclusive os príncipes, que lá estavam mais por obrigação que por prazer.

- Por que seus pais quiseram fazer essa festa chata? – perguntou o príncipe Victor, entediado – Sério, Amélia, baile de debutantes só serve pros pais ficarem se exibindo com os filhos.

- E você acha que eu tive escolha? – defendeu-se Amélia – Eles dizem que é importante, querem que eu me case.

- Mas você não vai topar né? – perguntou o príncipe incrédulo – Você prometeu que nós três: eu, você e o Thales faríamos Política juntos!

Amélia balançou a cabeça afirmativamente. Seus pais queriam mesmo que ela se casasse, ainda sim, permitiram que ela frequentasse a Universidade, a pedido do príncipe.

A morte do rei e a proclamação de guerra contra o Império do Fogo deixou o Reino atônito. Era precioso tomar providências e providências rápidas. A situação piorou quando a Rainha, muito querida pelo povo, definhou meses depois à morte do marido. Suas últimas palavras lamentaram sua fraqueza e por conseguinte, ela suplicou aos filhos que a próxima Rainha deveria ser forte.

- Amélia! – sussurrou o príncipe de madrugada, jogando pedrinhas na janela do dormitório. – Améliaaa, desce!

Amélia saiu pela janela, descendo pelas trepadeiras. Era frequente que o Príncipe a chamasse sempre daquela forma.

Eles se reuniram no lugar de sempre, abaixo do frondoso sabugueiro, às margens do Rio das Lágrimas. Para sua surpresa, Thales também estava lá.

- Mas, mas… – gaguejou Amélia – Eu não posso aceitar isto… Thales, você…

- Eu concordei – respondeu Thales friamente – É o nosso Reino, Amélia!

- Você é a única mulher que eu confio pra ser a Rainha! – argumentou Victor – Além disso, eu te amo, e você gosta de mim…

- Gostar não é amar! – exclamou enfaticamente antes de olhar para Thales, o namorado, suplicando que ele tivesse alguma saída brilhante para aquela situação embaraçosa – Thales…

- Amélia, pára de ser egoísta! – disse Thales – Nós não somos mais aquelas crianças bobas… nossos reis morreram, as pessoas precisam de nós, estamos em guerra! Se não agirmos logo seremos humilhados pelo Império do Fogo! É isso o que você quer? Deixar de ser a rainha para ser a escrava deles? Tudo em nome de…

- Amor! – Amélia enxugou as lágrimas. Parecia finalmente ter ouvido a voz da razão. Em algumas semanas, ela se casaria com Victor Tess e se tornaria a nova Rainha do Reino do Ar.

A barriga era demasiadamente pequena para os oito meses de gravidez. Apesar disso, as últimas semanas não tinham sido nada fáceis para ela. Agora Amélia estava no quarto, sofrendo as dores do parto, dores que há seis gestações ela esperava ansiosamente.

- Majestade… – o médico saiu do quarto com um pequeno embrulho nas mãos – Eu sinto muito, muito mesmo…

O rei carregou o corpo inerte do bebê. Ele acariciou o menino, seu sexto menino, morto.

- A Rainha já tem uma idade avançada – informou o médico – É melhor não tentar mais…

Amélia saíra do palácio logo no dia seguite. Mais uma vez ela perdera o único herdeiro do Reino, mais uma vez ela perdera a oportunidade de cumprir a promessa que fez a Thales. Uma retrospectiva passara por sua cabeça: a sexta gestação, seis crianças mortas prematuramente. Desistir de ser mãe? A idade lhe batia à porta. Se quando era mais jovem, não conseguira, por que conseguiria agora, com trinta e nove anos?

Sentou-se à beira do Rio das Lágrimas, o místico e legendário. Rezava a lenda que suas lágrimas vinham da humana que se apaixonou pelo Deus Sol no dia que perdeu para o mundo seus quatro filhos. Quem sabe uma mãe entenderia a dor de outra…

Um choro estridente. Lágrimas. Um bebêm uma menina de cabelos vermelhos boiava no rio.

 

quarta-feira, 16 de junho de 2010

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A ESTÓRIA DE LENA - O SÁBIO DA INFINDA BIBLIOTECA
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Após duas semanas em casa, na Vila da Cascata, Lena Brown pôde lobrigar o quão sua Vila se afundava cada dia mais na miséria. Muitos já eram os que acreditavam tratar-se a situação de sua terra como castigo divino, castigo dos deuses por terem cedido tão facilmente ao domínio de uma nação estrangeira. Seu pai teve alguma melhora após a visita da filha, do neto e do genro, mas meses depois continuara a padecer da sua doença.
Lena corria contra o tempo. Foi mais cedo ao Reino cuja princesa era sua grande amiga com duas metas: passar no exame de admissão da Universidade e ser ajudada pelos médicos reais.
Assim que desceu do coche, os olhos verdes de Lena cintilaram-se perante ao imponente prédio. Poucas palavras poderiam descrever o que sentia perante à maior e mais bela Biblioteca que já vira, até mesmo em fotos.
Por dentro, a surpresa não era menor. O teto em abóbada parecia interminável, as paredes abarrotadas de livros. Um paraíso para qualquer rato de biblioteca como ela.
Tantos livros! E ela nem sabia por onde começar a procurar! Tanto o que saber e o que estudar!
- Por isso que digo que conhecimento demais faz mal – resmungou uma voz velha e etérea. Lena olhou para trás a fim de encontrar quem incomodova seu resguardo e silêncio e ficou surpresa ao ver a pessoa mais velha que já vira – Querem saber de tanto só pra se vangloriar do conhecimento supérfluo. Que gente sem amor ao conhecimento!
O velho olhou Lena fixamente. Seus olhos esbugalharam por entre os oclinhos de aro dourado. Eram extremamente azuis. Seus cabelos grisalhos e crespos confudiam-se com a barba extremamente grande. A jovem tentou desviar do olhar, mas já era tarde. O velho mancava com o cajado de madeira velha em direção à sua mesa.
Lena tremia ante a observação do velho, perdera a concentração. Ele sentou-se na cadeira em frente a sua e pôs-se a estudá-la com afinco.
- Já perdeu a concentração, menina? – grasnou – Tsc, tsc… mais uma que finge que lê.
Já havia sido insultada de várias coisas. Mas falsa estudiosa? Disparate à sua honra.
- Pare de me importunar!
- Só me diga quem está tentando impressionar.
- Não quero impressionar ninguém. Nunca tive ninguém pra impressionar. Só preciso passar no vestibular pra Medi…
- Eu sabia! Eu sabia! – o velho começou a gritar, chamando atenção dos outros frequentadores da biblioteca – Mais uma dessas jovens que buscam na medicina um status.
- O senhor não me conhece e nem tem o direito de me julgar… – Lena começou a lacrimejar de raiva do velho e levantou-se impetuosamente. Pôs o livro na prateleira e encaminhou-se para uma sessão bem longe do ancião.
- Então me conte a sua história! – a voz do senhor inconveniente a surpreendeu, visto que a morena havia se distanciado consideravelmente – Prove-me porque é diferente de todos aqui!
- Não preciso provar nada a ninguém e muito menos ao senhor! – Lena reagiu com impaciência. – Quer me deixar em paz por favor!
- Estrangeira, pobre, deixe-me ver… algum parente perto da morte! Pai talvez?
- ME DEIXA EM PAZ! – Lena fez a coisa mais impensada. Arremessou o único objeto que tinha à mão, um livro velho e pesado. O velho se desviou com imensa facilidade, deixando Lena estupefata.
- Eu sabia, desde o momento que você passou por essa porta, que você era diferente dos outros jovens.
Lena sacudiu a cabeça, sentindo que não deveria perder seu precioso tempo com aquele velho maluco. Sentou-se novamente na mesa e começou sua leitura pelos vários livros que deveria estudar. O velho, porém, não parou de observá-la estudando, causando na jovem uma grande irritação.
- Tem certeza que essa equação está certa?
- É claro que tenho – reclamou Lena, rispidamente.
- Porque esta não é a fórmula de Lenz. Não é a fórmula certa.
- A fórmula de Lenz não funciona em todos os casos. Veja! – Lena apontou com a ponta do grafite para uma das constantes – Essa constante pode variar quando o número alfa pertence à ordem dos irracionais!
O velho reclinou-se e esboçou um sorriso com o canto da boca. Logo depois, voltara com toneladas de livros e pondo-nas sobre as vistas da jovem futura médica.
Todos os dias enquanto estava lá, sentava-se na mesma mesa e estudava todos os livros que o ancião colocava sobre a mesa. Aos poucos, Lena Brown perdeu a antipatia que sentia por ele, e admirou-o pelo conhecimento que ele tinha desde história social a metafísica. Mas o que a surpreendeu mesmo foi o modo como falava da religião. Ao contrário do que esperava dos homens cultos, o  Ancião era extremamente místico.
- Não acredito em deuses porque simplesmente é muito mais fácil para as pessoas atribuírem o que acontece de bom ou ruim em suas vidas à eles – respondeu Lena, quando o Ancião lhe perguntara a respeito da razão de sua descrença – Sou racional, acredito na ciência e que tudo tem uma razão de ser.
- Nem acredita que os reis são escolhidos pelos deuses?
- Reis escolhidos pelos deuses? Eu não devo acreditar que uma criatura mesquinha e asqueirosa como Ivan Gardner seja realmente escolhido por “deuses”. E o Rei da República da Terra? Está nas últimas e entregou seu país a dois cônsules que não fazem outra coisa a não ser enganar o povo! Sem contar com a Realeza da Água! Um monte de covardes e corruptos que venderam seu povo em troca de joias! Isso é ser escolhido pelos deuses? Isso é ser descendente direto dos deuses no mundo?
- E quanto à sua amiga Agatha Tess? Você acha mesmo injusto que ela seja a futura governante desse país?
- Agatha é diferente! Ela é uma pessoa generosa demais, benevolente, justa!
- Sim, minha querida! É muito mais fácil pros humanos acreditarem nos deuses e dispensarem bibliotecas infinitas como as nossas! Mas pense nisso: os humanos não acreditam em deuses porque é mais fácil, mas sim, porque simplesmente há mistérios que nunca conseguiremos compreender enquanto pensarmos com nossas cabeças cercadas de pré-conceitos, amargura e ignorância.
- Ainda assim, não consigo aceitar isso!
- Sua cabeça não está pronta pra transcender tudo isso, querida, pelo menos não por enquanto. Mas logo logo estará pronta.
- Para quê?
- Para mudar a ordem desse mundo.
- Mudar a ordem de um mundo imutável? – Lena franziu o cenho, desconfiando da veracidade das palavras que ouvira.
- Você saberá quando compreender que até o Império do Fogo teve um dia negro.
Frase vã de um típico velho sábio. Mas, depois de tantos e tantos dias caminhando pela Infinda Biblioteca, a jovem não mais encontraria o Ancião que tantas vezes lhe inquietava com suas premissas estranhas.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

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Dezoito anos, dezoito anos. A idade de mudar para todos os jovens, especialmente as garotas. Às mais modernas, o momento de sair da casa da família e experimentar o vigor da universidade. Às mais tradicionais,  hora propícia para casamento. Mas no caso de Agatha, dezoito anos representava algo além de tudo isso. Representava a transição da princesa para a rainha.
Sempre tivera consciência de que cedo ou tarde assumiria aquele país, afinal esse é o papel de uma princesa herdeira não? As leis de seu reino diziam que um novo regente é coroado somente quando o rei completasse sessenta anos e seu herdeiro vinte e um. E talvez essa fosse a razão dela estar tão apreensiva. No ano em que completaria vinte e um anos, sua mãe, a Rainha, seria sexagenária. Ascenderia ao trono com a idade mínima. Só restava-lhe três anos, três poucos anos para se tornar verdadeiramente adulta.
Abriu o closet e dele retirou um pequeno livro. Bonito e entalhado requintadamente com ouro e pedras preciosas.
Entretanto, o que mais lhe importava não era a riqueza da capa e sim a adornada letra que lhe dava nostalgia. Doces lembranças que permearam suas dezoito primaveras, hoje, sonhos e sorrisos febris. Entre todas as muitas palavras, uma escrita milhares de vezes tocava-lhe o coração e o fazia acelerar freneticamente: Dimitri, seu primeiro amigo, protetor, o primeiro que retirou a tristeza de ser magnificada de sua alma e a compreendia pela pessoa que era. Nunca teve coragem de dizer uma só palavra a ele. Elas pareciam faltar-lhes e não ser suficientes de descrever o que ele representava pra ela.
Ela confessou seu amor, ou pelo menos para seu diário. Dizer “eu te amo” palavras tão simples e ditas demais ao menos em seus sonhos. Mas ali, naquela página amarelada ela parecia soltar-se com maior facilidade que em seus lábios e sua voz. Uma princesa não poderia confessar seu verdadeiro sentimento? O medo de não ser amada justificava, parcialmente, sua pequena confidência ao papel. Ela conhecia Dimitri mais que ninguém. Certamente ele se sentiria obrigado a retribuir seu amor, mesmo que não tenha esse sentimento genuíno em seu coração. Nessas horas, nutria um imenso anseio de não ter o sangue real correndo nas veias e a tiara cintilando em sua cabeça.
- Até pra ser cara-de-pau tem limites! – esbravejava uma voz firme no corredor.
- Ah pára com isso – retrucou a outra – Agatha é nossa amiga não é? Por que não nos receberia aqui?
Agatha reconhecera imediatamente as vozes que brigavam no corredor. Sem nenhuma dúvida, pertenciam às suas grandes amigas.
- Pra quê a discussão? – perguntou a princesa serenamente – Eu não convidei as duas para visitarem o meu reino?
- A culpa é toda da dona certinha aqui – acusou Vicky, indicando Lena Brown com a cabeça – Eu sempre disse que você não se imp… Uau! Quem é esse gatinho?
Agatha tomou das curiosas mãos de Vicky o porta-retrato prateado com a foto sorridente dela e de Dimitri.
- Não é meu namorado, é meu segurança!
Vicky levantou uma sobrancelha e deu um sorriso bem largo e brilhante. Lena, percebendo o momento constrangedor, deu um pisão no pé da loira, que urrou de dor.
- Foi até bom que vocês vieram mais cedo! – Agatha mudara de assunto e, convidando as amigas para se sentarem, começava a escolher mentalmente as palavras que utilizaria. – Acho que vocês devem saber que… bem, dezoito anos na realeza significa algo bem especial.
Vicky e Lena apuraram os ouvidos. Conforme Agatha previra, nenhuma das duas tinha ideia da dimensão de seu Baile.
- Daqui-a-três-anos-eu-vou-ser-Rainha-e-mamãe-vai escolher-um-noivo-pra-mim! – Agatha disse rapidamente, como se a velocidade das palavras tornassem o seu discurso menos chocante.
- Você vai se casar? – perguntou Lena, boquiaberta.
- Você nunca disse que tinha namorado… – lembrou Vicky
- E não tenho! – corrigiu a princesa – Não sei com quem eu vou me casar!
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quinta-feira, 27 de maio de 2010

Sua missão havia terminado ali. Logo aquilo que havia aceitado apenas por obra do acaso, para que sua mãe não soubesse o que ela andara aprontando durante a “viagem”.
Mas agora era tempo de voltar pra casa e deixar-se abraçar pelos braços calorosos de mãe. Seus dezoito anos estavam se aproximando, e querendo ou não, era a hora da sociedade conhecer verdadeiramente sua princesa.
- Você nos mandará os convites não é Agatha? – cobrou Vicky dando uma piscadela, antes de tomar sua condução.
- Se eu souber onde te encontrar, sim! – respondeu a jovem. Não saberia aonde encontrar a ladra. Provavelmente em algum lugar do país aplicando golpes.
- Nem sei como agradecê-la – despediu-se com um abraço Lena. Ela voltaria à sua aldeia a fim de estudar para o exame de admissão à Universidade. Provavelmente apareceria algumas semanas antes do Baile de Apresentação da Princesa.

Assim, partiram as três, cada uma para o seu lado, em breve voltariam a se encontrar…

- Minha Agatha! – saudou a mãe, abraçando-na fortemente, com a força ao nível da saudade que sentira – Você está bem, se machucou? Céus! Você está imunda! E esses trapos…
Agatha mal teve tempo de dizer algo, tamanha era a saudade que sentia da mãe e daquele palácio, mas não da vida que levava quando ainda era uma princesa ignorante. Não… definitivamente era uma pessoa completamente diferente daquela que um dia partira daquele reino, deixando para trás toda a segurança e felicidade que falsamente sentira durante quase dezoito anos…

Aquele palácio chamava-se Palácio de Cristal. Trabalhado em vidro que refletia a luminosidade recebida pelos raios de sol que permeavam o Reino Suspenso do Ar. Também era chamado de Fortaleza Suspensa, pois essa era a impressão que tinha-se ali, nas nuvens brancas que serviam de mãe praquele país. Por todos esses motivos, sempre se sentira mais deusa que todos os outros… e por aquele e mais outros que nunca recebera um olhar daquela pessoa como gostaria de receber.
- Fui avisado do retorno de Vossa Alteza, gostaria de me ver o mais rá… – Dimitri parou imediatamento ao perceber em que tipo de recinto estava… uma névoa tão doce e aromática invadira-lhe os pulmões… as várias amas envolvendo-na com toalhas brancas e felpudas. No centro de uma grande piscina de água borbulhante, ela estava lá. Tão branca. Tão intocada. Tão pura.
Com um gesto dispensou as criadas e com outro fez sinal para que o rapaz de gostos finos se aproximasse. Visivelmente constrangido, Dimitri se aproximou dela, mas fitava seus pés o tempo todo.
- Se Vossa Alteza preferir, eu aguardo o término de seu banho terapêutico.
- Pare de ser bobo! – interrompeu Agatha – Eu não estou completamente nua! Além disso, lembra quando nós tomávamos banho escondido no Rio das…
- Mesmo assim Vossa Alteza, devo demonstrar respeito para com a …
- Humpf – resmungou Agatha, incomumente à sua maneira sempre polida de pronunciar-se. Não lhe agradava a formalidade que envolvia os dois. Aquilo a constrangia mais que tudo.
- Como foi a viagem?
- Interessante. – respondeu Agatha – Acho que foi bastante… instrutiva.
- Vossa Alteza procurou o que queria?
- Talvez. – respondeu Agatha vagamente. Não queria contar todos os detalhes a Dimitri, mesmo que ele fosse fiel à sua pessoa até a morte. Mesmo assim, a jovem não estava sendo hipócrita consigo mesma. De fato, Agatha não conseguira encontrar a resposta para a crise em si mesma, mas o que seus olhos viram durante sua “peregrinação” definitivamente a ajudaram a ser uma pessoa melhor. – Eu… eu acho que não estou pronta pra ser Rainha… não ainda.
- Entendi. Com sua licença…
- Espere! – pediu Agatha, antes que o jovem girasse seus calcanhares.
Dimitri parou aonde estava e sequer se mexeu. A princesa adivinhara por seus olhos o que transparecia e quase saltava como palavras. Então, ela notara…
- Não quero lhe revelar isso… não, até o Baile. – respondeu Dimitri, sem maiores explicações.
Ela suspirou, e quando tentou encontrar sua figura, ela já havia se dissipado entre a névoa.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Por este país

- Quem está… quem está… aí? – murmurava uma voz vacilante repousando no leito de véus. Era tão fraca e sem fulgor, traduzindo o estado daquele ser.

- Calma, calma, meu nome é Agatha. Agatha Vizcov Tess. Princesa do Reino Suspenso do Ar – dizia Agatha enquanto tirava o turbante, revelando os longos e sedosos cabelos ruivos iluminados pelo luar prateado.

O rei virou-se dando um sinal para que a jovem se aproximasse um pouco mais. Agatha assim o fez, e deslizou seus pés rumo ao leito. Prostrou-se ante ao Rei, não sabia como se comportar, jamais tinha ficado frente a um rei senão seu pai.

Vira, pela primeira vez, aquele homem deitado. Coberto de panos e lenços, se assemelhando a uma múmia. No rosto, uma máscara prateada cintilava à luz do luar.

- Eu… me desculpe, eu…

- SHHHHHHH- o rei silenciou com o dedo entre os teóricos lábios – Tess… hã…

Agatha não entendeu de pronto. O que ele gostaria de lhe dizer?

- Há muito e muito tempo eu conheci uma jovem condessa. Ela era bonita e doce e meiga… – o rei contava como quem conta um devaneio. Agatha apenas ouvia pacientemente – Mas um dia ela foi embora, ela se casou com o Príncipe do Reino do Ar e nunca mais voltou.

Sim, finalmente a jovem o compreendera. Então sua avó era uma nobre do Reino do Ar!

- Mas não vejo em você nada daquela nobre…

Agatha lembrou-se de sua infância e do turbante deixado no chão. Não era a primeira vez que alguém falava da sua falta de semelhança com sua família, e não seria a última. Aquilo não mais lhe incomodava, era algo que teria de conviver pra sempre mesmo.

Um pequeno solavanco na porta, ela se abriu com tamanha força e vigor. Dela saíram vários seguranças, dois deles segurando duas inquietas moças, uma loira e uma morena. Do pequeno aglomerado de gente, saíam dois homens de meia-idade, usando vestes nobres e semblantes autoritários.

- Prendam-na – ordenou o primeiro. Dois seguranças avançavam na direção de Agatha, que receosa, recuou mais.

- NÃOO – o rei se opôs com certo vigor.

- Mas meu senhor – repetia o segundo dos homens – O cabelo dessa jovem é vermelho! Ela é uma espiã do Império do Fogo! E essas jovens, aquela é uma ladra procurada e a outra uma traidora do Reino da Água…

- Esta jovem é a herdeira do Reino Suspenso do Ar. Deve ser tratada como em seu reino, como a princesa que deveras é.

Os dois homens entreolharam-se e deixaram os seguranças liberarem as jovens. Ainda que a contragosto.

- Como quiser, majestade.

Agatha acordou com os raios solares envolvendo e iluminando seu pálido rosto de princesa recém saída do castelo. Pelo alvoroço na cozinha, presumiu que Lena e Vicky estavam acordadas.

Vestiu o robe perolado e se deparou com o motivo da gritaria. Surpreendeu-se ao ver os homens, cônsules daquele país, à sua espera na sala.

- O que vocês querem? – perguntou Agatha, cujo humor não era dos melhores ao ser subitamente acordada.

- O rei solicita vê-la… alteza – respondeu o cônsul, com tal rispidez nas palavras, como se estivesse com nojo.

- E minhas damas de companhia?

- Serão tratadas como Vossa Alteza desejar.

- Uma charrete à disposição delas? – desafiou Agatha.

- Como? – perguntou o cônsul incrédulo.

- Disseram que serão tratadas conforme o meu desejo. É isso o que quero.

O cônsul não teve outra escolha a não ser conceder o desejo da convidada. Lena ficou entusiasmada, aproveitaria a oportunidade para ir à Universidade. Vicky não pareceu tão feliz. Talvez não apreciasse a companhia de dois brutamontes do governo. (Ou talvez os lugares que frequentasse não permitisse isso).

 

Agatha foi conduzida pelo cônsul até a charrete, onde o segundo estava esperando-na. Aquele país, como Lena lhe dissera, apesar de ser um Reino, se chamava República da Terra, e era governado por dois cônsules. O motivo, Agatha ficara sabendo, o rei era doente, doente o bastante até para ignorar a situação do seu próprio reino.

- Bem-vinda senhorita – saudou hipocritamente o segundo cônsul.

- Bom dia – respondeu apaticamente Agatha.

Os cavalos trotavam pelas ruas de pedra. Na cabine, os cônsules insinuavam coisas à princesa.

- Vai ficar quanto tempo, princesa? – perguntou um deles.

- Tempo suficiente pra resolver questões diplomáticas.

- Espero que saiba o que está fazendo, Alteza. – falou ironicamente o outro.

- O que o senhor quer insinuar com isso? – disse Agatha, sendo objetiva.

- Nós não queremos insinuar nada, Alteza. Apenas que saiba que antes de dizer algo desnecessário ao rei, compreenda como é este país.

- Compreendo muito mais que os senhores, pode apostar!

Ambos deram sorrisos sarcasticamente falsos. E prosseguiram com a viagem.

 

Agatha foi levada até um pequeno palacete, adornado com flores e árvores. O jardim, tão amplo, continha um lago bonito, onde carpas nadavam. O rei estava sentado à beira do lago, a toalha xadrez estendida  e várias guloseimas sob ela.

- Muito obrigada por nos defender, Majestade – agradeceu a pequena princesa – Não é a primeira vez que eu me meto em confusões por causa do meu cabelo vermelho!

- Eu li o pergaminho que sua mãe me enviou – disse o Rei – Eu… nem sei o que dizer.

- Imagino… a algumas semanas eu era como Vossa Majestade. Eu também era ignorante e não sabia o que acontecia em meu reino. Não sabia as atrocidades que o Império do Fogo cometia contra o meu povo e contra os outros. Vi a miséria no Reino da Água e o sofrimento na República da Terra.

- Os meus cônsules fazem de tudo para manter esse reino bem.

- Me desculpe, mas acho que não fazem o suficiente. – apontou Agatha, relembrando todas as intrigas em que se metera pela corrupção dos soldados – O senhor não faz ideia do que eu vi neste reino! Os seus soldados estão se vendendo a moedas para o Império do Fogo e logo logo eles irão chegar à Capital.

- Não conseguirão! – o Rei tentou convencê-la – Nossas barreiras são intransponíveis.

- Bem, se o senhor prefere acreditar nisso… – ela se levantou, mas hesitou depois que viu um gesto do rei.

- Não ache que o meu reino é governado por dois cônsules porque eu assim quis! Eu precisei fazer isto!

Agatha sentou-se novamente. E quis ouvir o porquê de um Reino se transformar em uma República.

A cinquenta anos atrás, havia um rei e ele era casado com a dama mais bela de todo o Reino. Apesar de ter dinheiro, poder e a mulher mais bela em sua cama, ele não se contentava com isso.

O rei tinha várias concubinas e era especialmente maldoso com elas, e com seu povo. Depois que alguma delas engravidava, ele mandava que lançasse o bebê no Abismo do Medo. Apesar de possuir vários filhos com suas amantes, ele não reconhecia nenhum e sua esposa não conseguia dar ao Reino um herdeiro.

Um dia, a Deusa Terra, com pena da rainha, concedeu à ela um filho varão, saudável e forte. A Rainha, então, ficara muito grata à Deusa.

Porém, o Rei continuava a praticar suas maldades contra o povo e contra seus filhos ilegítimos. A Deusa Terra se arrependeu de ter concedido a graça ao Rei ao ver o desespero das mães com seus filhos descartados. Como punição, profanou a pele do herdeiro com uma doença que nem os homens mais sábios do mundo curaria. O herdeiro jamais poderia tocar uma mulher, e assim, nunca daria filhos ao Reino da Terra.

E logo quando ele completou quinze anos, quando estava apaixonado por ela, uma bela condessa. Nunca poderia casar-se com ela, nem poderia tocá-la e dar-lhe filhos. Assim, aquele palácio feito para ela ficaria como uma lembrança nostálgica. E ela, estaria feliz, quem sabe, ao lado do Rei do Ar e lhe deu um filho forte e varão.

- Eu não sabia, me desculpe – balbuciou Agatha.

- Agora Vossa Alteza entende, entende o porquê deste Reino estar fadado a ser uma República.

domingo, 2 de maio de 2010

Cap. 21 O Baile

Vicky acordara cedo e voltara logo depois que Agatha havia terminado o café da manhã. Trazia consigo três ingressos e deu cada um às companheiras
- Como você arrumou isso? - perguntou Lena, já julgando que a garota arrumara os convites ilicitamente.
- Não roubei se é isso o que você está pensando! - respondeu Vicky - Eu diria que... ganhei.
- Desculpe por perguntar, mas eu queria saber como você conseguiu nossas entradas.
- Tá, tá... se vocês insistem...
Aquele local da cidade era considerado suspeito, até mesmo para Vicky, acostumada àquele mundo. Mas daquela vez, as atenções estavam voltadas para a dama de vestido de veludo, que desde cedo, apostava com furor. A madrugada já entrara, quando a loira se aproximou dela, já pressentindo que a dama seria uma vítima fácil.
- A fim da melhor aposta da noite? - propôs Vicky.
- Não me interesso por poucos trocados, se quer saber - a lady anunciava suas condições - Já perdi muito nesta noite.
- Tenho certeza de que a senhorita se interessará por isso - Vicky tirou da bolsa o colar de rubi que pertencia à Agatha, certamente sem o consentimento dela – Jóia exclusiva do Trono do Fogo! Legítima!
Os olhos dela faiscaram de cobiça ante ao colar. Caíra no papo da maior trapaceira do mundo.
- A aposta terá que ser alta.
- Aposto o que eu tiver! – disse a lady desesperada – Aposto minhas entradas para o Baile Real.
Vicky deu um sorriso de satisfação. Sua intuição não falhara.
- Agora sim, você está falando a minha língua!
A mulher tirou as entradas e as colocou em cima da mesa. Suas mãos foram seguras pela dama de companhia, uma mocinha de pouco mais de vinte anos.
- Condessa Lilac, a senhora não pode!
- Pára de falar Gertrude! – censurou a outra – Esta é uma oportunidade única e eu não posso perde-la
Antes ela tivesse ouvido a empregada. Condessa Lilac era tão ruim no jogo que Vicky nem precisou utilizar-se dos dados viciados que sempre carregava.
- Foi muita sorte mesmo Vicky! – exaltou Agatha – Graças à você estaremos no Baile.
- Ela não fez nada mais que a obrigação Agatha! – ressaltou Lena – Afinal, ela que perdeu a sua entrada não foi?
Agatha se vestira impecavelmente como a Princesa de contos de fadas que foi criada para ser. Lena andava de queixo erguido, se esforçando a todo custo para não cair do sapato alto, Já Vicky agia com naturalidade no Baile, fazendo cara de moça de família, enquanto os olhos astutos caçavam por homens ricos e ingênuos.
Agatha foi seguida de perto por Albert Laprel, um rapaz elegante, porém um tanto vazio, que ostentava o cargo de ministro da Cultura.
- Vossa Alteza deveria ter-nos anunciado vossa presença! – dizia – Com certeza, nossos cônsules a receberiam com a cortesia esperada de uma aliada.
- Fico contente por isso, senhor! – repetia Agatha, cansada da intromissão do ministro – Mas preciso, de verdade, falar com o Rei…
Albert parecia não ter ouvido. Continuava a tagarelar sobre as benfeitorias dos cônsules.
Já estava tarde, e como Agatha lastimava, o Rei não aparecia. Embora o horário já fosse bastante adiantado, os nobres continuavam a comer e beber, e mais bebida e comida chegavam. Lena discutia furtivamente com os professores da Universidade e o Ministro da Educação enquanto Vicky, bêbada, conseguira seduzir todos os ricos e burros. Agatha já havia se aborrecido com o lenga-lenga do ministro e não conseguia se aproximar dos cônsules da República da Terra para obter alguma resposta. Na certa, assim ela pensava, os cônsules tentavam evitar suas perguntas, e para isso, utilizava-se do ministro anti-pático.
- Eu sabia – dizia Lena – Está óbvio que os cônsules não querem que Agatha veja o rei.
- E por que fariam isso? – perguntava Vicky, servindo-se de mais ponche.
- Não sei, o que você acha, Agatha?
- Vicky, aquela senhora não gostou de você. – informou Agatha de repente – Ela diz que você não passa de uma vadia louca que dá em cima de todo homem com mais de 20 moedas de ouro.
Lena não entendeu o porquê daquilo, mas a reação de Vicky foi instantânea. A loira pegou o ponche que bebia, encheu mais um pouco e atirou na cabeça da dama. Os guardas começaram a se mover, enquanto lentamente Agatha adentrava o interior do palácio.
Apesar do tamanho, e das inúmeras vezes que teve de cruzar por corredores escuros, Agatha chegou aos aposentos reais com alguma facilidade.
Como manda a etiqueta, ela bateu na porta não uma, mas seis vezes. Não obtendo resposta, decidiu entrar, murmurando desculpas.
O que viu naquele rico leito, não fora um rei. E sim um enfermo que como seu país se encaminhava a largos passos para a destruição.

sábado, 3 de abril de 2010

     Ao contrário do que as três imaginavam, chegar à Capital da República da Terra não significava ter dinheiro, ou pelo menos não imediatamente. Agatha contatou a mãe por um dos bancos; pedia mais alguma verba pra continuar sua missão. O difícil era a Rainha Amélia acreditar: a princesa tinha sim uma grande quantia, mas não seria plausível explicar como tanto dinheiro fora gasto em tão pouco tempo.
    As três se ocupavam de problemas diferentes que no fundo não passavam de um problema maior. Lena tentava de alguma forma conseguir boas vestes para penetrar no Baile da noite seguinte, baile o qual Vicky jurava que conseguiria fazer com que as moças entrassem. A ladra, aliás, mal tinha deixado suas coisas na estalagem e já sumira por entre a cidade.
   Como Lena dissera, a Capital era uma das maiores cidades do mundo, perdendo talvez para a Cidade Imperial (Império do Fogo) e para a Cidade do Vento (capital do Reino Suspenso do Ar). Agatha, que pouquíssimas vezes saíra do palácio, nunca havia estado numa cidade tão grande e tão viva. 
    A cidade era dividida por camadas: na mais baixa e maior delas, era localizada a periferia: casas feias de madeira pobre, poucas de alvenaria mal concluída; esgoto pelas ruas; crianças sujismundas correndo por aqui e ali; gente enganando os outros; maus elementos; milícias policiais e até mesmo jovens vendendo seus corpos em plena luz do dia. Na parte mediana, moravam comerciantes e funcionários de baixo escalão, as ruas eram calçadas de pedra, mas também volta e meia trambiqueiros eram encontrados. Por fim, no alto, em ricas e luxuosas casas, residiam altos funcionários do Estado, oficiais de altas patentes, professores, sacerdotes e estudantes da Universidade. Lá também estavam os prédios das maiores instituições da República: o Castelo do Rei (sede dos cônsules); a Universidade; o Quartel General das Forças Armadas etc...
    
   O crepúsculo já penetrava a cidade quando Lena chegara da loja de roupas trazendo boas, mas antigas vestes murmurando um "só deu pra comprar isso com trinta moedas de cobre". Vicky chegara logo depois, fazendo cara de desentendida, e pegando para si alguns poucos panos.
  - Vai dizer que você vai a um baile usando só isso? - repreendeu Lena, ao ver o decotado e curto vestido escolhido pela loira.
   Muito menos que o vestido de Vicky, Agatha estava preocupada com os modos de suas acompanhantes. Já que entrariam de penetra, conforme Vicky prometera, o mínimo que fariam era se comportar adequadamente. As inutéis e estressantes aulas de etiquetas lhe valeriam de alguma coisa agora, embora um pensamento ruim lhe passava pela cabeça: algo lhe dizia que seria muito difícil ensinar anos de etiqueta em um dia e ainda mais em suas alunas - uma ladra e uma caipira.
   - Temos mesmo que fazer isso? - reclamou Vicky, já se preparando pra um cochilo. - Isso me parece tão... chato.
  - Não temos escolha...além disso...
  - Além disso?
  - O baile dos meus dezoito anos será em breve e eu ficaria muito honrada se vocês duas fossem!
  - Bebida de graça! - alegrou-se Vicky
  - E muita gente interessante pra conhecer! - completou Lena
  - Concordo baixinha! 
  - Eu disse gente interessante e não gente rica!
  - Pois pra mim ricos são interessantes - rebateu Vicky.
   Agatha encerrou a confusão antes que desse mais briga entre as duas e começou sua árdua tarefa de manter Vicky e Lena num mesmo ambiente sem discutir.

   A lição acabara tarde da noite, com as duas cansadas. Vicky excedera suas expectativas, provando à princesa que se comportava como uma lady (o que a menina supunha que era mais um artifício pra enganar alguém). Lena teve alguma dificuldade, mas também aprendera rápido os modos afrescalhados passados pela professora. 
   Apesar de um dia corrido e cansativo, precedido de noites mal dormidas, Agatha não conseguia dormir. Estava calor, como sempre fazia na República da Terra, mas não suficiente para tirar seu sono. Estava cansada: olheiras eram visíveis em sua pele clara, mas mesmo assim, seus olhos teimavam em não permanecer fechados. Decidiu sair da casa alugada: fora caminhar um pouco pela rua de pedras.
  Todo seu percurso até ali: o Templo; Lena; como sobrevivera ao cair das nuvens; Julian e a Cidade Oculta da Montanha; os embates com Oliver; a pobreza; os espertalhões que lhe tiravam o dinheiro; o deserto; Vicky Valentine... como sua mente se abrira desde então! Como deixara de ser uma princesinha em seu castelo pra enfim estar a caminho de ser uma governante mais sensível!
   O amadurecimento seria a lição mais importante que tiraria daquela missão. Mas outras coisas lhe atordoavam a cabeça, fatos que sempre lhe incomodavam e ela apenas fingia que essa dor não existia. Aquela dor estava ali, a perseguia e morreria com ela. Aquela dor estava em suas mãos, na ponta de seus dedos indicadores que atendiam pelo nome de Dom de Fogo. Aqueles dedinhos que tantas vezes lhe fora um martírio salvara sua vida e de suas companheiras em momentos cruciais daquela jornada. Seria justo ignorá-la?
   "Fingir é a minha arte... Finjo tão bem que engano a mim mesma" pensava consigo. E sob a dor da dúvida fora dormir.

   Louco. Como qualquer sonho. E sem nexo algum. Ou será que não. Ela não quis comentar com ninguém.
   Tudo era vermelho e laranja, como um crepúsculo de um sol apunhalado e banhado em sangue. Dores. Gritos. Choros e lágrimas... Fogo. Chamas dançantes. Mais grito. Mais dor. Mais choro. A sensação de estar caindo no vazio e ressurgir depois sob o céu límpido... 
   Acordou sob os olhares severos das parceiras. Falar... não. P melhor a fazer seria o que fazia de melhor: ignorar. Fingir era sua arte e fingia tão bem que enganava a si mesma. Mas como era difícil para ela enganar a alguém... mesmo que esse alguém fosse aquele que aparecia no espelho todas as vezes que ela mirava seu reflexo.

quarta-feira, 31 de março de 2010

     Todos - homens e mulheres, jovens e velhos - estavam enfileirados em pleno meio-dia esperando uma acareação. As três forasteiras não eram exceção, principalmente uma delas, que exibia um sorriso vitorioso, como uma criança que faz travessura.
   - Você tem ideia da merda que você fez? - murmurou Lena, entre os dentes. Afinal, explodir uma fábrica inteira só seria obra dela.
   - Aff... - Vicky deu um muxoxo fazendo cara de "vocês falam demais, eu prefiro agir" - Se eu não destruísse aquela porcaria ninguém ia fazer. Cansei do blá blá blá.
  As duas se calaram quando um soldado passou por elas carregando um fuzil.
  - Hoje, um de vocês agiu com muita... imaturidade... falta de respeito... ingratidão! - começou o capitão. Era um homem de meia idade, alto, alguns fios grisalhos, um monóculo e uma porção de insígnias na farda. Falava austeramente, e todos os cidadãos tinham certo temor dele - Posso garantir que o culpado será acusado de traição à República da Terra.
    As crianças se escondiam nas barras das saias das mães. Mesmo os homens tremiam quando em presença do capitão.
  - Tem ideia do que fizeram? - continuou - Traíram sua nação, seu povo! Era essa fábrica que garantia que vocês, almas desgraçadas continuassem a viver! E agora, espero sinceramente, que caiam na mais profunda miséria! Porém... se alguém se acusar ou souber do verdadeiro culpado... mostrarei clemência pelo povo...
   Ninguém se movia, afinal ninguém sabia quem poderia ter feito tal ato... a não ser que não tivessem vindo da cidade...
  - A mulher loura... Aquela da ponta! - disse alguém - Não estava aqui na hora que a fábrica explodiu.
   As atenções voltaram-se ao trio. O capitão apenas deu uma ordem: prendam-nas. Lena deu um passo à frente para garantir seus direitos, mas Agatha se adiantou.
  - Não podem nos prender sem provas!
  - Silêncio garotinha! - ameaçou o capitão - Aqui é a minha terra, eu mando aqui e nem a sua coroa de princesa garante algo aqui!
  - Parabéns Vicky - murmurava Lena.
  - Qual o problema? Eu que mandei essa porra pelos ares mesmo.
  As duas se atracaram antes mesmo que os soldados viessem. A multidão se aglomerou para ver: o capitão atravessava por entre os curiosos para colocar ordem na baderna.
  Lena e Vicky brigando? Sim, elas viviam se estranhando. Mas desta vez, a luta simulada entre as duas eram parte do plano. Vicky sacou a arma e apontou para a cabeça do capitão, enquanto os soldados não abaixassem as armas.
  Mas um soldado ao fundo viera avançando, oculto. Já engatilhara a arma: atiraria pelas costas de Vicky e colocaria de vez um ponto final nessa insurreição. Seus planos foram frustrados uma vez atingido por uma barra de ferro empunhada por Bruce. Os soldados viraram-se para atirar, mas tiveram de se ver com a fúria dos populares. 
   Em pouco tempo, estavam todos rendidos e amarrados por cordas. Vicky arrombou o quartel, toneladas de moedas em ouro, prata e bronze, além de inúmeros alimentos e remédios estocados. O povo se organizou para receber tudo, enquanto os soldados e o capitão permaneciam amarrados na praça sob o sol escaldante.
   - Traidores! Marginais! Saqueadores! O governo pronvincial ficará sabendo dessa insurreição. Vocês serão todos presos e terão as cabeças cortadas.

    As injúrias do capitão só foram caladas por uma bota de mulher. A mesma mulher loura que começara aquilo tudo.

  - Não sabemos como agradecer: senhorita Brown, senhorita Valentine, Princesa... Graças à vocês, não mais teremos que nos submeter às vontades do exército corrupto.
  - Não se preocupem... Amanhã iremos nos encontrar com o rei e eu farei questão de alertá-lo da corrupção em seu país... Minha mãe sempre disse que o rei é justo, ele ouvirá meus apelos...
  - Mas agora que já fizemos o trabalho duro - observou Vicky - o que vão fazer agora?
  - Pretendemos limpar o rio, voltar a plantar e a criar animais... logo as pessoas não vão mais adoecer e não teremos mais que suportar os soldados corruptos - respondeu Bruce.

   As jovens conseguiram montaria, ou melhor, pegaram as dos soldados corruptos. Agatha foi a última a deixar a cidade, com um sorriso estampado no rosto e a alegria de ter ajudado mais pessoas, mesmo que elas não fossem seus súditos.
   - Quer andar fofa? - alertou Vicky - Precisamos chegar amanhã à capital!
  
   As horas voaram, a madrugada não foi hora para dormir. O dia raiava quando chegaram à Capital. Ela se localiza no alto de um grande planalto, cercado por um gigantesco fosso. Havia uma ponte que baixava e funcionários que verificavam os documentos de cada cidadão que entrava.
  - Pra que toda essa burocracia? - perguntou Agatha
  - A Capital é a maior cidade da República da Terra e a mais rica também... além disso há o temor de invasão por parte do Império do Fogo por meio de espiões...
  
  

domingo, 28 de março de 2010

     A viagem seria muito desconfortável se não fosse Vicky Valentine. Ela "convenceu" o condutor de uma charrete de mercadorias a dar-lhes carona até alguma cidade perto da capital. A manobra deu certo: no final do dia, na paisagem deserta esboçavam-se algumas colinas e alguns pontos verdes, sinal de que deixavam o deserto e aos poucos se aproximavam da Capital.
   Era uma cidade entre várias colinas, um vale. Mas ao contrário do que se pensa dos vales, aquela vila não parecia nada bonita. As casas eram todas muito pobres, a fumaça dominava a atmosfera e o rio, se é que se podia chamar de rio, se restringia apenas à um veio de esgoto.
  - Puta cidade fedorenta! - resmungava Vicky, tampando o nariz com um lenço.
  - Pára de falar palavrão, Vicky - repreendeu Lena, que também protegia o olfato do odor putrefato do local.
  Agatha avançava por entre a leve fumaça de esgoto. Nos caminhos tortuosos e sujos, ruas vazias. Sequer anoitecera e as casas estavam todas fechadas, dando a impressão de uma cidade fantasma. 
  Seus olhos castanhos repararam no simples abrir da cortina de uma das casas. Agatha correu a bater na porta, era a única casa que dava sinal de vida.
  - Ei, ei - Agatha chamava, batendo com as mãos na porta - Somos viajantes, precisamos de pernoite, não sabe onde podemos...
  A porta abriu revelando um homem de uns vinte e poucos anos, barba mal feita e um macacão sujo de óleo. Atrás dele, a pessoa que vira abrir a cortina outrora, um menino.
  Bruce era mecânico, morava numa das simples casas da Vila. Não tinha muito luxo, ele dizia, todos na cidade mal tinham dinheiro para comer.
  - E ainda temos de pagar altos tributos pro Exército - explicava.
  - Como assim, pagar tributos? - estranhou Agatha - Os soldados recebem soldo do governo da província e do governo geral, e ainda exploram a população.
  - Isso não é nada, fofa! - interveio Vicky - A República da Terra está jogada às traças, os soldados, quando não se vendem ao Império do Fogo, exploram seu próprio povo. 
  - E ainda mandam na cidade... - continuou Bruce, com tristeza - Desde que o nosso líder morreu, eles tomaram de conta daqui... Além de nos exigir dinheiro, pegam nossos filhos, humilham nossas mulheres, chantageiam a todos, declaram toque de recolher.
  - Toque de recolher?!?!? - perguntaram, incrédulas, as três moças. Toque de recolher ao pôr-do-sol.
  - E essa fedentina que domina esta cidade? - perguntou Vicky, levando um cutucão de Lena - O que foi? Essa cidade fede ou não?
  Bruce suspirava:
  - Há muitos anos, um regente pronvicial instalou a fábrica de chumbo, sabem, há chumbo debaixo do leito do rio... enfim, a indústria existe a mais de cinquenta anos e ainda utiliza tecnologia velha... eu mesmo trabalho lá. Por causa da indústria, nosso ar é podre e nosso rio não dá mais peixes, e as crianças vivem doentes.
  Uma lágrima escorreu pelo rosto de Lena. Aquele lugar, mesmo a quilômetros de distância, era muito parecido com sua vila natal onde as pessoas eram exploradas e adoeciam e os peixes eram podres.
  
  Aquela cidade definitivamente não tinha feito bem, principalmente à Lena e à Agatha. Vicky escondia, mas também estava comovida com tamanha injustiça.
  - Deve ter um jeito de ajudar esse povo - dizia Agatha - Não tem como passar por aqui e ficar de braços cruzados!
  - Você tem razão Agatha! - concordou Lena - As pessoas estão sofrendo e nem podem contar com seus governantes... eu não quero nunca mais ver isso na minha vida.
  - Ah não gente, por favor - rebatia Vicky - Temos de chegar à capital depois de amanhã e vocês querem ajudar esse gente pobre? Não podemos fazer nada, entenderam? Uma princesa, uma nerd e uma ladra podem enfrentar um exército todo sozinhas?

   Agatha e Lena tiraram o dia pra fazer caridade. Enquanto a morena ajudava as crianças com remédios e cuidados paliativos, Agatha ainda tentava dialogar em vão com o comandante-em-chefe da cidade. Vicky, por sua vez, não fora vista desde o nascer do Sol.
  Para o desagrado de Lena, as crianças sofriam de doenças de pele bastante graves, além de doenças respiratórias complicadas. 
  - E então? - perguntava Lena à Agatha, já presumindo a resposta ante a expressão desanimada da garota - Conseguiu falar com o comandante?
  - O Capitão deu uma série de desculpas... na certa achando que eu ia engolir aquilo né? - contou Agatha.
  - Pelo que estou verificando, as pessoas não vão melhorar enquanto a fábrica não for fechada e o Exército não parar de maltratar os outros...
  
  Força de expressão? Ou de pensamento? Só Deus sabia... Mas a terra tremeu, primeiro com fracas vibrações... depois... ganhou as dimensões de um terremoto considerável. No horizonte via-se a fábrica tombar tal como um castelo... a cidade recobria-se de pó...

sábado, 20 de março de 2010

     Cada uma falava alguma coisa, lutava com alguma gana para não ficar lá.
   - Vocês sabem com quem estão falando? Eu sou Agatha Vizcov Tess! Princesa e herdeira do trono do Reino Suspenso do Ar!
   - Vocês não podem sair prendendo as pessoas desse jeito! - protestava Lena - Eu tenho direito a um telefonema e a um advogado, entendeu?
  As palavras das duas entraram por um lado e saíram por outro. Os soldados as empurraram para dentro da cela. Escura, suja, cheia de limo e mofo. De longe, o pior lugar onde já estiveram.
 Vicky demorou mais um tempo a entrar. Os soldados passaram um bom tempo revistando-na, tirando pistolas ocultas em todos os lugares possíveis: no decote, nas meias... até nas calçolas havia um pequeno cinto onde ela guardava duas mini-armas.
  Passada a revista, ela foi empurrada para dentro da sala onde estavam as outras duas. Isso sem perder a pose.
   Vicky Valentine olhou a sala de cima a baixo expressando asco por tudo que vira. Apenas sentou-se num dos bancos de concreto, cruzou as pernas, e cantarolou alguma coisa. Sua voz só foi calada quando as mãos de uma morena possessa agarraram seus cabelos.
  Lena arrancou-lhe dois ou três chumaços de cabelos antes de ser apartada por Agatha. A loira passava as mãos na cabeleira, e resmungava:
  - Ficou doida?? O que eu fiz pra você?
  - O que você fez? Você ainda tem a audácia de perguntar o que você fez? Por sua causa estamos nessa situação!
  - Minha causa? - defendeu-se Vicky - Eu nunca te vi na vida garota! A única que eu prejudiquei foi essa garota aí.
  Vicky apontou para Agatha, sentada no banco que tinha seu olhar distante e vago. A loira se ajoelhou em frente a ela, e, unindo suas mãos às dela, pediu perdão:
  - Foi malz aê.
  Lena levou a mão à cabeça, repugnando-se da atitude da outra. "Foi malz aê, é tudo o que ela fala?" pensou.
  - Se eu quisesse teria matado ela fácil, fácil - disse Vicky, como se estivesse lendo a mente das duas - Mas não quis... Não mato as pessoas por causa de outras... principalmente por causa do Oliver.
   - Oliver? - perguntou Agatha, despertando do aparente transe - Você quis dizer Oliver Gardner?
   Vicky confirmou com um aceno. Lena levou a mão à cabeça mais uma vez. 
   - Então ele mandou você me matar! Por quanto?
   - 500 moedas de ouro iniciais e mais 500 quando terminasse. - respondeu Vicky.
   - E naturalmente não terminou o serviço porque viu o monte de grana que poderia ganhar com as coisas da Agatha né?
   Vicky deu de ombros. Não queria admitir, mas sim, a morena de gênio forte estava certa.
  - E onde estão as coisas que você roubou?
  - Deixe-me ver... - pensava Vicky, com a mão no queixo e olhando pra cima - A tiara ainda tá comigo, ou melhor, tava, porque os policiais pegaram quando me revistaram...
  Agatha soltou um suspiro de alívio. Não seria nada bom se a tiara real do Reino Suspenso do Ar estivesse por aí. 
  - Tinha um convite pro baile real lá na capital... esse eu tive que dar pro atravessador... miserável!
  Agatha abriu a boca estupefata. Vicky roubara o convite que lhe permitia a audiência com o Rei, conforme a mãe pedira. E agora, o que faria?
  - Também tinha um colar muito bonito, com um rubi desse tamanhão ó! Esse aí me rendeu uma boa grana, quase quarennta moedas de ouro!
   Lena tentou mais uma vez pular no pescoço de Vicky. Agatha se debulhou em lágrimas, tinha aquele colar desde muito cedo, desde que era uma criancinha. Sua mãe lhe dizia que era uma herança de família.
   
   Não era possível determinar quanto tempo havia se passado. A noite terminara... o dia estava raiando. Nenhuma das três jovens dormira... estavam todas com olheiras notáveis. A mais jovem das três tinha seus olhos castanhos inchados do choro. A morena andava de um lado para o outro, enquanto a loira vez ou outra cantarolava alguma coisa.
   - E se a gente fugir daqui hein? - sugeriu Vicky - Já notei que a garota ali é inteligente, podemos bolar um plano e dar o fora daqui.
  - O que? Sermos foragidas da justiça? - estranhou Lena.
  - Qual o problema? Nós já estamos sendo caçadas pelo Império do Fogo!! Aliás, se demorarmos aqui, logo logo seremos entregues para os soldados e nossas coisas serão vendidas!
   - Ela tem razão - concordou Agatha.
   
   O cheiro ocre no ar, as celas oxidadas, as paredes cobertas de musgo e desenhos obscenos e pra completar a horrível lavagem servida aos detentos. Estavam na última e na pior cela do corredor escuro: os policiais morriam de medo da má influência de Vicky Valentine, um motim seria o fim. 
   Foi a distância e o afastamento que contribuiu para que as moças arquitetassem um plano simples, mas que necessitava de toda a habilidade de Agatha, habilidade que nem mesmo ela sabia dominar.
   Suas mãos queimavam... já estavam vermelhas... poderia reclamar da dor? Não, isso seria injusto. Não apenas fugiriam, teriam que recuperar a tiara de Agatha e as armas de Vicky. 
   A de baixo estava solta, as condições da barra de metal contribuíram fortemente para isso. Usar o dom de fogo nas mãos da princesa foi uma ideia boba de Lena, mas que as outras duas acataram com satisfação. No período da tarde, onde os policiais não as importunavam, Agatha terminou o serviço na parte de cima. Pronto! Duas barras soltas seria o suficiente para que as três estivessem livres da cela.
   Conforme Vicky Valentine, a madrugada seria a hora perfeita. Não ficavam muitos soldados guardando a delegacia, e os que ficariam, com certeza estariam sonolentos demais. Dito e feito. As duas barras de metal que Agatha derretera usando os dons de fogo foram removidas e uma a uma, elas avançavam pelo corredor escuro, com ligeiros passos.
   Assim como Vicky previra, haviam dois soldados. Um cochilava com profundos roncos. O outro resistia a dormir, sentado na cadeira fazendo palavras cruzadas. 
   Vicky deslizou até o dorminhoco e apertou com demasiada força o pescoço gordo. O homem despertou assustado, a face pouco a pouco se avermelhando. Quando o companheiro se moveu, Agatha e Lena imitaram a companheira: Lena segurou-o pelos braços, enquanto Agatha pegava a arma. A princesa apontou para a cabeça dele, arrancando um sorriso de Vicky, que fizera o mesmo.
  - Estouro seus miolos se não devolver nossas coisas! - ameaçou Vicky.
  Lena soltou o outro e olhava ameaçadoramente para os soldados, na mira de duas garotas.
  O gordo apontou para a gaveta embutida na mesa, sinalizando que a chave estaria ali. Lena abriu-a e pegou a pequenina chave de zinco. Depois, o gordo apontou para um velho armário oxidado.
  Lena abriu o armário e tirou seis pistolas de diversos tamanhos, um colete de balas, e várias bolsinhas com facas e canivetes. Tirou também a mochila da garota e seu arco desmontável.
   - Agatha, abre todas as celas! E você, senhorita certinha, pega as chaves do almoxarifado e pega tudo o que puder!
  - Peraí, Vicky! Vamos libertar bandidos e roubar a polícia?
  - Lena - interveio Agatha - Esses policiais são corruptos, certamente há pessoas presas porque o Império do Fogo quer! 


   O sol esboçava amanhecer quando as três estavam a uma distância segura da cidade. Todas exibiam em seus rostos a expressão de insônia que as perseguia há dias. A poucas horas estavam em uma cadeia suja e podre, agora estavam num botequim de beira de estrada. Agatha saboreava torrada com leite, Lena bebericava café e Vicky já estava em sua segunda dose de rum.
  - Pra uma princesa até que você não é ruim! E nem você, senhorita nerd!
  - É Lena Brown! - corrigiu Lena - Lena Brown!
  - É, mas agora não temos dinheiro, e precisamos chegar à Capital dentro de dois dias e falar com o Rei!
  - É... e entrar de penetra no baile, já que ALGUÉM vendeu o convite... - ressaltou Lena, olhando categoricamente pra Vicky.
  - Já disse que foi mal! 
  - É, mas você deve tanto à Agatha que...
  - Você também saiu da cadeia graças à Agatha... - rebateu Vicky.
  - Querem calar a boca vocês duas! - pediu Agatha - Vocês falam, falam e falam, mas quem vai se ferrar bonito se não chegar à Capital sou eu. Não sei que tipo de coisa tem na correspondência da mamãe, mas tenho certeza que é alguma coisa muito importante!
  As duas suspiraram. Agatha tinha razão: não seria problema de nenhuma delas se Agatha chegasse ou não.
  - Eu sempre quis ir num baile real... Provavelmente muitos intelectuais estarão lá! - comentou Lena.
  - E muitos milionários também - completou Vicky.
  
   Agatha tirou da bolsa uma moeda de bronze, uma das únicas que sobrara. Pagou o consumido e se retirou do botequim. Ao seu lado ia Lena Brown, a intelectual e Vicky Valentine, a ladra. Companhia perfeita? Talvez não... Mas a partir daquele dia, os destinos das três estariam mais entrelaçados que uma simples fuga da cadeia ou um café da manhã num botequim de beira de estrada.