Mostrando postagens com marcador Vila da Cascata. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Vila da Cascata. Mostrar todas as postagens
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Agatha já estava no seu segundo prato de mingau de aveia. Segundo Lena Brown, a mulher que a salvara, estava há três dias desacordada. Era-lhe grata, afinal, as escoriações de seu corpo causadas pela queda já estavam quase sarando.
- Quem é você? De verdade?
- Acho melhor você não saber, Lena! - Agatha fugira da pergunta - Pode trazer problemas pra você.
Agatha analisou mais uma vez a casa. Era a menos pior do que as que sua vista pela janela pôde notar, mas mesmo assim, não passava de um pequeno e sujo casebre. O pai, pescador, já começava a dar sinais de perda da sanidade e constantemente resmungava de sua má sorte, dos deuses, da família real da Água, do Exército do Império do Fogo... A casa só conhecia a limpeza quando a filha voltava do trabalho, no lado leste das Geleiras. No mais, exalava aquele terrível e já permanente odor de peixe.
- Acaso está fugindo, Alteza? - perguntou Lena, de sopetão. Agatha paralisou a colher de mingau no ar, estupefata.
- Por que mexeu nas minhas coisas Lena? Eu não permito que você faça isso, entendeu?
Lena entendeu que agira errado. Levantou-se da mesa e prostrou-se ante a princesa.
Agatha também se levantou. Mas aquele gesto, que deveria ser algo comum a uma Princesa, era algo que lhe incomodava profundamente.
- Levante-se Lena, por favor!
- Se prefere assim, Vossa Alteza! - Lena se levantou humildemente, mas ainda continuava com a cabeça baixa.
- Perdoe-me Lena, eu... eu me expressei muito mal. Na verdade, eu não queria que ninguém soubesse da minha existência por aqui.
- E por que não Alteza? Vosso Reino é famoso no mundo por ser justo e por combater o Exército do Fogo.
- Lena, por favor... me chame apenas de Agatha. Saí do palácio justamente por isso. Cansei de ser uma princesa inútil que nem ao menos conhece seu povo! E o povo que por sua vez nem conhece sua própria Princesa!
- Imagino que deve ser um choque de realidade, Alte... Agatha!
Agatha olhou com pena para toda aquela pobreza. O Reino da Água sucumbiu graças à incompetência da Família Real. E se ela fosse incompetente também? Deixaria seu povo sofrer sob as mãos do Imperador do Fogo.
- Ao menos sabe pra onde vai? - perguntou Lena à Agatha - quando esta já arrumava a bolsa de viagem.
- Não faço ideia...
- Avisou seu pai que deixaria a Vila?
- Deixei um bilhete... Mas creio que ele não tomará partido nisso.
Agatha olhou com tristeza. Sabia que o sr. Brown estava doente e aos poucos perderia sua sanidade. Lena pareceu adivinhar os pensamentos dela.
- Há muito precisava sair da Vila da Cascata, mas não tive coragem de fazer isso! - justificou Lena - Meu pai está muito doente, perde o juízo aos poucos... É por isso que eu preciso estudar! Tenho que entrar numa Universidade e ser uma médica.
A Vila da Cascata... A família Brown... O Reino da Água... O abandono de tudo. O Reino sucumbira pela covardia de seus governantes. O povo abandonado, entregue à própria sorte. E Lena Brown... a mulher mais inteligente daquela vila, se esforçando pra que se, não conseguindo salvar a vida do pai, ao menos salvar a vida daquele povo inocente, que pagava todo o preço pela ingerência da elite.
- Mas antes de tentar entrar na Universidade... Preciso fazer uma coisa...
Lena contou à Princesa a história de sua família. Quando a irmã, Angeline, partira, o pai teve razão. Ela partira da Vila para se tornar uma prostituta nos acampamentos do Exército. Mas não por muito tempo.
- Ela me escreveu contando que havia conhecido um tenente do Exército e que se casaria com ele. Meu pai, é claro, ficou com mais raiva da minha irmã. Eu recebi mais duas ou três cartas dela, antes do papai descobrir e queimar todas as cartas que eu recebia dela.
Então a meta de Lena era encontrar a irmã. O motivo era óbvio. Ao pai não restaria muito tempo de vida, pelo menos unir a família era um direito dele.
Agatha se sentiu no dever de ajudá-la. Afinal, Lena salvara-lhe a vida, nada mais justo que dar a ela um pouco de felicidade.
As duas jovens partiram ao pôr-do-sol sob desejos de boa sorte da Vila. Toda aquela vila apostava no sucesso daquela menina, e colocava sob suas mãos, vidas que poderiam ter sido salvas.
A sede do Reino Suspenso do Ar ficava no alto daquelas nuvens brancas e fofas. Erguia-se majestoso como um obelisco cristalino nos céus cercado de campos verdejantes apoiado nas nuvens.
O garoto de cabelos arroxeados se aproximava do Palácio das Nuvens com passos firmes e determinados. Ao chegar no Salão Real, cumprimentou a Soberana, às voltas com montes de papéis.
- Majestade... - anunciou-se.
- Ah, Dimitri, que bom te ver!
- Igualmente Majestade! - retribuiu o garoto - Lamento não ter vindo antes, estava em missão no leste.
- O assunto que te traz aqui é extremamente... preocupante.
Dimitri Braus franziu a testa.
- Registramos um atentado no Templo das Nuvens do Sul. E... e... bem... - sua voz perdeu o imponente tom, assumindo um tom maternalmente preocupado - Agatha não dá notícias há dias... Eu temo... temo...
- Não tema, Minha Rainha! - tranquilizou-a Dimitri - Apenas me forneça alguns homens, que procuraremos Agatha até o fim do mundo.
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
Nos tempos em que a família real do Reino da Água governava com justiça, as terras ao extremo sul e norte conhecidas como Geleiras, era próspera e seus habitantes não passavam por quaisquer necessidades.
Se a terra era só gelo, as montanhas garantiam ao povo terras fertéis durante todo o ano. Nelas eram produzidos uva para vinhos, pêra, maçã, framboesa, batata, além de pasto para ovelhas e cabras.
Mas o que mais pesava na economia das Geleiras era mesmo o pescado. Considerado o melhor do mundo, ele lhe valia uma balança comercial positiva.
O povo viveu feliz por muitos anos, mas quando a família real trocou seu povo por seu próprio conforto, as culturas perderam qualidade, e o pescado cada vez mais escasso. E como se isso não bastasse, os soldados do Império do Fogo ainda humilhavam os aldeões e exigiam o que não tinham. Com o passar dos tempos, os velhos adoeceram; as crianças foram forçadas a trabalhar; os rapazes, em busca de alguma condição de vida, se alistavam no Exército do Império do Fogo e morriam nas guerras; as moças ganhavam alguns trocados oferecendo seus corpos aos viajantes e soldados estrangeiros.
Diziam ser as ilhas do Reino da Água o lugar dos degredados, esquecidos e desgraçados. Na família Brown não era diferente. Depois de anos definhando, a enferma mãe finalmente teve suas dores encerradas. Deixou o marido, pescador, e duas filhas.
- Pra que você tá chorando? - perguntava a irmã mais velha, Angeline, irritada - Todos morrem um dia!
- Não fale assim com sua irmã - repreendeu o pai - Até parece que está insensível à morte da mãe!
- Insensível eu? - retrucou Angeline - Mamãe ficou doente e por sua culpa que não põe comida em casa!!
O pai deu-lhe uma bofetada na cara. Lena, a mais nova, chorou ainda mais.
- Não vou ficar enterrada nesse fim de mundo!
- Quer virar a prostituta deles? É isso o que você quer? Vender sua honra aos soldados?
- Antes uma prostituta do Império do Fogo, que uma mendiga do Reino da Água.
Fora a última vez que Lena Brown vira a irmã. E segundo o pai, nunca mais tornaria a vê-la.
Alguns anos se passaram e a situação na Vila da Cascata só fazia piorar. Ninguém permanecia lá, pois não era uma Vila com muitos recursos. Quase não havia lavoura, e o pescado era de péssima qualidade. Os jovens que não se dedicavam a estudar nas péssimas escolas locais, partiam para o território do Império do Fogo, no lado oriental das Geleiras, para terem subempregos e ajudarem as famílias do outro lado. Os que estudavam eram raros, e se queriam cursar uma Universidade teriam que se aventurar nas Universidades estrangeiras.
Lena Brown era talvez a aluna mais inteligente da Vila da Cascata. Como era uma das poucas que sabia ler, escrever e contar, trabalhava para o governo provincial, que na teoria ainda pertencia ao Reino da Água mas na prática não passava de uma filial do Império do Fogo.
Voltava para casa, como todos os finais de semana, a fim de ver seu pai, que ainda insistia em pescar os peixes podres da Geleira. Não era rica, mas o salário garantia a ela e ao pai uma condição de vida superior ao dos vizinhos. Parou para beber água num riacho, quando viu uma jovem de vestes brancas e lilás inanimada sob às margens.
- Meu Deus! - exclamou Lena.
Agatha Tess abriu os olhos depois de muito tempo. Não portava as jóias reais, nem o turbante que escondia os cabelos vermelhos. Suas roupas foram trocadas por roupas de tecido grosseiro, mas limpos. Não estava mais no templo, é claro, o cenário ao redor parecia um casebre muito pobre.
- Tudo bem! - disse uma jovem de cabelos muito castanhos e olhos amendoados - Você está segura agora!
Marcadores: Geleiras do Sul, Lena Brown, Princesa Agatha Tess, Vila da Cascata
Assinar:
Postagens (Atom)
