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quarta-feira, 10 de março de 2010
No País de Agatha Tess, era absolutamente comum consultar-se com videntes, cartomantes e oráculos. Do camponês ao general, do operário ao nobre, até mesmo sua mãe, a Rainha, tinha um oráculo particular, que lhe orientava na administração do Reino.
A cigana mirava com seus olhos azuis cristalinos, enquanto passava os finos dedos pela bola de cristal. A tenda toda cheirava a incenso enjoativamente doce, se a mulher não se apressasse, provavelmente Agatha ficaria asfixiada pelas finas fumaças.
- Então a senhorita está aqui por que tem a cabeça confusa, princesa? - perguntou a cigana.
Agatha confirmou com um aceno. Coincidência ou não, mas aquela desconhecida adivinhara um pensamento que nem ela mesma havia pensado. Desde que abandonara o Reino, essa era a palavra que resumiria sua vida: confusão.
- Sua mão, querida, a sua mão.
Agatha estendeu as mãos macias e perfumadas de princesa à cigana, que as apertou com um precioso tesouro. Agatha se reduzia a acompanhar passivamente a avaliação sobre seu futuro astrológico.
- Vejo uma grande ferida! Uma grande confusão! A cabeça... não... que cabecinha nebulosa! Vejo... um ferimento... sangue.
Mais uma vez a cigana adivinhara. Apesar de parcialmente oculta sobre as vestes, ela ainda sentia pontadas de dor no ombro, onde anteriormente havia sido atacada no deserto.
- Para curar uma grande ferida... precisa curar o corpo. A senhorita sofreu alguma ferida recentemente?
- Fui atacada por falcões do deserto. - respondeu Agatha - As garras deles... rasgaram meu ombro. Ainda dói muito.
A cigana tocou no curativo da Princesa. Ela soltou um uivo de dor, na certa, ainda não cicatrizara.
- Tem outra coisa, Madame Beaumont... - interrompeu Agatha. - Sou uma princesa do ar, mas tenho... dons de fogo.
A cigana levantou uma sobrancelha visivelmente espantada com a revelação.
- Quando, quer dizer... Você tem dom do fogo.
- Acontece de vez em quando... Quando estou assustada e com medo...
- Muito bem querida... O que você precisa para curar a ferida da alma e do corpo é de um mergulho nas águas termais sagradas... a única água que brota no deserto.
No fundo da tenda, havia um compartimento com uma outra tenda. Lá havia uma enorme banheira feita em madeira com água fervendo. Dentro da banheira, algumas pétalas de flores e sais de banho. A mulher mandou a jovem retirar as vestes e guardá-las num cômodo mais ao fundo.
- Fique o tempo que precisar querida... além disso... segure isso.
A cigana deu-lhe um rosário de contas de madeira. Deu um sorriso afável e afastou-se.
Como planejou, em pouco tempo, a menina adormeceu, entorpecida. Foi até o cômodo onde suas roupas estavam guardadas e revirou a mochila. Lá encontrou um colar real e um envelope com timbragem oficial. Colocou-os no decote do vestido e saiu à francesa.
Não era fácil encontrar a ladra Vicky Valentine, a mulher mais esperta da República da Terra. Ganhava a vida dando pequenos e médios golpes, enganando os homens tolos com sua beleza, cantando em bares insalubres durante a noite e bebendo às custas dos clientes. Fugia de cidade em cidade, em cada uma delas dando um novo golpe, e escapando da polícia. Mas ele era o Príncipe do Império do Fogo! Nada era impossível para ele, nem encontrar a Senhora das Mil Faces.
Seu novo esconderijo era denso pelos sete véus que passara até ver a silhueta de seus longos cabelos dourados. Vicky estava sentada em sua almofada de veludo, tragando um longo cigarro e contando maços de dinheiro, provavelmente obtido de forma ilícita.
- Há quanto tempo não tenho a honra de receber a realeza! - saudou Vicky.
- Como você sabia que era eu?
- Nunca me esqueço dos cheiros das pessoas... especialmente daquelas que já passaram pelos meus braços - a ladra o abraçou suavemente e beijou o pescoço de Oliver.
- Tenho um serviço pra você... pago bem...
- Não quero Oliver... sabe que não trabalho pra ninguém... muito menos pra realeza.
- Tem uma pessoa que quero... eliminar...
- Ora... mande um de seus homens... você não tem quase todo o planeta aos pés do seu país...
- Se executar o serviço... pode ficar com o tesouro.
Vicky, a pouco desinteressada, ficou com os olhos brilhando, faiscando de ganância.
- Estamos falando de qual tipo de tesouro?
- Tesouros reais... da Princesa do Reino Suspenso do Ar... E então?
Agora ela estava ali, com tesouros reais em suas mãos. Sua missão oficial estava inacabada, já que a menina ainda estava viva. Mas para ela isso não importava. Agatha era problema de Oliver e não era de seu feitio se envolver no problemas dos outros. Honrar compromissos? Isso não existia em seu vocabulário, afinal, ninguém mandou Oliver confiar nela. Seu papel era apenas pegar o tesouro e fugir dali, para aplicar um golpe em mais um tolo.
segunda-feira, 8 de março de 2010
A estalagem aonde estava, com seus quartos de sequoia e seus hóspedes de origem duvidosa, não lhe dava o mesmo conforto que tinha no luxuoso palácio. Mas aquilo pouco lhe importava: O barco para a República da Terra sairia dali a poucas horas. Ainda bem! Já começava a cansar do café da manhã repleto de colesterol que lhe era servido a três dias.
Lena tomava uma xícara de café com leite e lia atentamente o jornal. Nem notou quando Agatha chegou e se sentou, continuava com o olhar vidrado.
- O que tanto você lê nesse jornal? - perguntou Agatha intrigada.
Lena não lhe respondera. Apenas virou o jornal e colocou os dedos entre os lábios.
O rosto de Agatha estava estampado numa página inteira do jornal. Abaixo da foto um lide: PROCURADA. Os "crimes" foram especificados abaixo. Entre eles, a acusação de ter liderado a insurreição nas Geleiras do Sul e a pior: ser namorada de Julian, o "ursupador". O de Lena estava ao lado, porém bem menor, junto com o resto dos rebeldes.
- Meu Deus Lena! - cochichou - O que a gente vai fazer? E se esse povo entregar a gente?
- O problema não é esse povo. - concluiu Lena - O problema é o Exército do Fogo que já chegou aqui.
Lena apontou para a porta por onde alguns soldados chegaram a poucos segundos. Eles se encaminharam para o balcão da estalagem e exibiram ao balconista as fotos. Lena e Agatha subiram de fininho para o quarto e pegaram seus poucos pertences.
Precisavam de um plano. Ir de barco à República da Terra estava fora de cogitação. Era a oportunidade perfeita para serem pegas. Só restavam-lhe uma opção, e ela não seria nada fácil.
Lena arquitetou o plano. Elas venderam a passagem a preço de banana a duas jovens viajantes e compraram outras duas, para viajar de uma maneira bem mais arriscada: montadas em quimeras.
- Levem muita água e comida. - recomendou o vendedor - Atravessar o deserto é muito perigoso.
Estavam no terceiro dia atravessando o Vale das Dunas. Assim era chamado o deserto que dominava a República da Terra. A água não duraria mais que um dia e a comida talvez nem desse para aquele dia. Viajavam em comboio com outras pessoas: algumas mulheres e homens pobres, além de pessoas de índole suspeita.
O chão sob os pés começou a rastejar. Mas não fora o vento, a areia ou simplesmente o cansaço. O chão realmente tremia cada vez mais até derrubar algumas pessoas de suas quimeras. Os rostos das pessoas assumiram um tom de dúvida e desespero como se cada um deles esperasse que alguém soubesse a resposta. Lena, a mente que ali parecia a mais sensata, resolveu assumir o controle da situação e bolar algum plano.
- Calma! - pediu a morena agitando os braços - Vamos ficar calmos e sair daqui!
Mais um tremor se seguiu. Ninguém teve coragem de ver quando a terra se moveu sob os pés de um dos viajantes. Em poucos segundos, centenas, talvez milhares de pequenos pontos se moveram a partir dos pés. Três ou quatro segundos para sobrarem apenas ossos.
- Merda! - resmungou Lena, puxando Agatha pelo braço. As sanguessugas do deserto podiam ser pequenas, mas eram as criaturas mais perigosas do deserto.
O grupo se dispersou, correndo para qualquer lado. Seis ou sete pessoas seguiam-nas, prevendo que Lena era a pessoa mais inteligente do grupo, assim, chances de sobrevivência seriam maiores.
- Pra onde vamos? - perguntou um homem, elegendo Lena como a líder.
- Abismo do Medo - respondeu Lena com segurança - É o único lugar que as sanguessugas do deserto têm medo de ir.
- Por qual motivo será? - perguntou sarcasticamente um dos integrantes - Lá é o Abismo do Medo! O lugar mais mal - assombrado do mundo! Se formos lá vamos morrer!
- Se não quiser ir, então não vá! - concluiu Agatha - Devo presumir que você tem uma solução melhor, não?
O rapaz balançou a cabeça negativamente até segui-los. A pouca comida foi deixada para trás já que poderiam atrair coiotes e outros caçadores.
A noite não tardou a chegar. Acampar foi necessário, assim como fazer uma fogueira. O frio noturno do deserto era equivalente ao frio das geleiras. Agatha cedeu sua barraca à uma mulher grávida e preferiu dormir num saco de dormir improvisado no chão.
- Eu ouvi boatos desse lugar! - contou Agatha à Lena e ao rapaz incrédulo da primeira ocasião - Dizem que abriga as almas perdidas na guerra!
- A Guerra do deserto, sim! - contou o rapaz - Há cem anos, o Exército do Fogo tentou invadir a República da Terra, que ainda se chamava Reino da Terra. Foi a primeira vez que o Exército do Fogo foi derrotado... Mas não por inimigos. Dizem que suas almas pecadoras foram devoradas pelos espíritos das trevas... E então... desde aí... elas atormentam todos os viajantes que passam por aqui!
Agatha olhou para os lados temerosa. A chama bailando na escuridão deixava aquele abismo ainda mais assustador.
- Isso é tudo lenda! - contrapôs Lena.
- A Guerra é lenda, senhorita Brown?
- Não da guerra. - esclareceu Lena - Realmente ela ocorreu e foi essa guerra que deixou o mundo como ele é hoje. O que eu digo é que... o Exército do Fogo realmente foi derrotado, mas não por espíritos malignos ou algo do tipo. Morreram aqui devido a questões climáticas. Além disso, alguns pesquisadores aceitam a hipótese de terem sido devorados por animais e mesmo canibalismo, devido à fome.
- Então senhorita sabe-tudo, por que as ossadas dos homens não foram encontradas?
- Simplesmente porque estamos num deserto. As areias devem ter soterrado as ossadas e não sou eu quem digo... são estudiosos da Universidade da Cidade da Montanha, a mais importante Universidade da República da Terra. Mas reconheço que isso é um mecanismo bem potente contra a invasão de soldados do Exército do Fogo...
- Eu não acredito que uma pessoa possa ser tão cética como você!
Os dois replicavam e treplicavam nos argumentos um do outro. Agatha acompanhava à discussão movendo os olhos de um lado a outro. Mas quando o bate-rebate estava em seu auge, ela tentou levantar a mão, inutilmente.
- Gente... - sussurrava Agatha. Mas os dois continuavam a discutir. - Galeraaa...
- O que foi Agatha? - perguntou Lena, um pouco irritada.
- Vocês não ouviram esse barulho?
Lena fez conchinha com as mãos nos ouvidos. O rapaz repetiu o mesmo movimento.
- Foi só sua imaginação Agatha, quando a pessoa ainda não despertou totalmente...
O rapaz fez um Pssiu. Ele também ouvira algo.
O som parecia algo rasgando o ar. Respiraram fundo. Mas em um tempo não estimado, algo segurou a princesa pelos ombros. Quando ela deu por si, estava a alguns metros do solo, os ombros sangrando.
- Me ajuda! Gente, me ajuda! - gritava Agatha do alto. Vira seu capturador. Um pássaro gigante preto com cinza que cravava suas fortes e afiadas garras em seu ombro. Sentiu a carne despedaçando e segurou com as forças que tinha nas pernas finas e secas da criatura.
No solo, Lena e o outro se jogaram no chão na tentativa de não serem capturados. O garoto tentava afastar com uma tora de madeira queimando em brasa os pássaros. Pessoas assustadas saíam das barracas, mas foram recomendadas pelos dois a permanecerem lá.
- O que é isso? - perguntou o jovem.
- Falcões do deserto! Noite de caça...
Nove indivíduos sobrevoavam a área, visivelmente almejando um dos dois. Agatha voava em círculos, urrando de dor.
- Por que eles ainda estão aqui?
- Só caçam de uma vez! - respondeu Lena - Só vão embora quando pegarem um de nós.
O garoto pegou uma das tochas da fogueira e correu desesperado.
- Ei Lena!! Vou distrair eles! Atira neles!
- Grégor! Você...
Mas o garoto correu com a tocha levando em seu encalço todos as aves. Lena mirou com o arco e flecha. Ela disparou pelo forte vento do deserto.
A princesa fechou os olhos, quando os abriu estava no chão, com seu atacante atingido no olho.
Acordara em uma confortável tenda. O calor era insuportável, mas não tanto quanto o deserto. Lena estava no mesmo quarto, arrumando a mochila com os incontáveis livros que carregava.
- Onde estamos? - perguntou Agatha.
- Cidade das Dunas! Você foi fortemente envenenada pelas garras dos falcões, demorou pra tirar o veneno! Mas mesmo assim, estou impressionada! Faz três dias e já cicatrizou.
- Três dias! - admirou-se Agatha.
- Os habitantes ficaram felizes ao saber que a Princesa está aqui! Trouxeram comida, coma o quanto quiser!
Lena bateu a porta. Provavelmente ficaria um tempão na biblioteca, lendo. Mas enquanto a amiga se divertia, à sua maneira, Agatha não queria ficar à margem da diversão. Quem sabe dar uma andada pela cidade.
Não parecia muito rica, era recoberta de areia, com pequenas casinhas em madeira. Mesmo assim, abarrotada de gente, a maioria aglomerada em torno de mascates comprando tudo. Mas diante daquela paisagem monocromática, era uma tenda colorida que lhe chamava a atenção.
Mal não faria entrar. Era um ambiente com um forte cheiro de incenso no ar. Cortina de miçangas ocupavam a porta. No mais, a tenda era forrada por tecidos vermelhos e alaranjados. Na mesa, a cigana passava seus dedos finos sobre a bola de cristal empoeirada.
- Hã, oi! - saudou Agatha, sem jeito.
- Sente-se Princesa! - disse a cigana.
Agatha se aproximou ainda mais. Sob os dedos finos, anéis de pedras grandes e falsas. Um turbante na cabeça e uma voz fina e etérea.
- O que deseja saber, minha princesa?
- Calma! - pediu a morena agitando os braços - Vamos ficar calmos e sair daqui!
Mais um tremor se seguiu. Ninguém teve coragem de ver quando a terra se moveu sob os pés de um dos viajantes. Em poucos segundos, centenas, talvez milhares de pequenos pontos se moveram a partir dos pés. Três ou quatro segundos para sobrarem apenas ossos.
- Merda! - resmungou Lena, puxando Agatha pelo braço. As sanguessugas do deserto podiam ser pequenas, mas eram as criaturas mais perigosas do deserto.
O grupo se dispersou, correndo para qualquer lado. Seis ou sete pessoas seguiam-nas, prevendo que Lena era a pessoa mais inteligente do grupo, assim, chances de sobrevivência seriam maiores.
- Pra onde vamos? - perguntou um homem, elegendo Lena como a líder.
- Abismo do Medo - respondeu Lena com segurança - É o único lugar que as sanguessugas do deserto têm medo de ir.
- Por qual motivo será? - perguntou sarcasticamente um dos integrantes - Lá é o Abismo do Medo! O lugar mais mal - assombrado do mundo! Se formos lá vamos morrer!
- Se não quiser ir, então não vá! - concluiu Agatha - Devo presumir que você tem uma solução melhor, não?
O rapaz balançou a cabeça negativamente até segui-los. A pouca comida foi deixada para trás já que poderiam atrair coiotes e outros caçadores.
A noite não tardou a chegar. Acampar foi necessário, assim como fazer uma fogueira. O frio noturno do deserto era equivalente ao frio das geleiras. Agatha cedeu sua barraca à uma mulher grávida e preferiu dormir num saco de dormir improvisado no chão.
- Eu ouvi boatos desse lugar! - contou Agatha à Lena e ao rapaz incrédulo da primeira ocasião - Dizem que abriga as almas perdidas na guerra!
- A Guerra do deserto, sim! - contou o rapaz - Há cem anos, o Exército do Fogo tentou invadir a República da Terra, que ainda se chamava Reino da Terra. Foi a primeira vez que o Exército do Fogo foi derrotado... Mas não por inimigos. Dizem que suas almas pecadoras foram devoradas pelos espíritos das trevas... E então... desde aí... elas atormentam todos os viajantes que passam por aqui!
Agatha olhou para os lados temerosa. A chama bailando na escuridão deixava aquele abismo ainda mais assustador.
- Isso é tudo lenda! - contrapôs Lena.
- A Guerra é lenda, senhorita Brown?
- Não da guerra. - esclareceu Lena - Realmente ela ocorreu e foi essa guerra que deixou o mundo como ele é hoje. O que eu digo é que... o Exército do Fogo realmente foi derrotado, mas não por espíritos malignos ou algo do tipo. Morreram aqui devido a questões climáticas. Além disso, alguns pesquisadores aceitam a hipótese de terem sido devorados por animais e mesmo canibalismo, devido à fome.
- Então senhorita sabe-tudo, por que as ossadas dos homens não foram encontradas?
- Simplesmente porque estamos num deserto. As areias devem ter soterrado as ossadas e não sou eu quem digo... são estudiosos da Universidade da Cidade da Montanha, a mais importante Universidade da República da Terra. Mas reconheço que isso é um mecanismo bem potente contra a invasão de soldados do Exército do Fogo...
- Eu não acredito que uma pessoa possa ser tão cética como você!
Os dois replicavam e treplicavam nos argumentos um do outro. Agatha acompanhava à discussão movendo os olhos de um lado a outro. Mas quando o bate-rebate estava em seu auge, ela tentou levantar a mão, inutilmente.
- Gente... - sussurrava Agatha. Mas os dois continuavam a discutir. - Galeraaa...
- O que foi Agatha? - perguntou Lena, um pouco irritada.
- Vocês não ouviram esse barulho?
Lena fez conchinha com as mãos nos ouvidos. O rapaz repetiu o mesmo movimento.
- Foi só sua imaginação Agatha, quando a pessoa ainda não despertou totalmente...
O rapaz fez um Pssiu. Ele também ouvira algo.
O som parecia algo rasgando o ar. Respiraram fundo. Mas em um tempo não estimado, algo segurou a princesa pelos ombros. Quando ela deu por si, estava a alguns metros do solo, os ombros sangrando.
- Me ajuda! Gente, me ajuda! - gritava Agatha do alto. Vira seu capturador. Um pássaro gigante preto com cinza que cravava suas fortes e afiadas garras em seu ombro. Sentiu a carne despedaçando e segurou com as forças que tinha nas pernas finas e secas da criatura.
No solo, Lena e o outro se jogaram no chão na tentativa de não serem capturados. O garoto tentava afastar com uma tora de madeira queimando em brasa os pássaros. Pessoas assustadas saíam das barracas, mas foram recomendadas pelos dois a permanecerem lá.
- O que é isso? - perguntou o jovem.
- Falcões do deserto! Noite de caça...
Nove indivíduos sobrevoavam a área, visivelmente almejando um dos dois. Agatha voava em círculos, urrando de dor.
- Por que eles ainda estão aqui?
- Só caçam de uma vez! - respondeu Lena - Só vão embora quando pegarem um de nós.
O garoto pegou uma das tochas da fogueira e correu desesperado.
- Ei Lena!! Vou distrair eles! Atira neles!
- Grégor! Você...
Mas o garoto correu com a tocha levando em seu encalço todos as aves. Lena mirou com o arco e flecha. Ela disparou pelo forte vento do deserto.
A princesa fechou os olhos, quando os abriu estava no chão, com seu atacante atingido no olho.
Acordara em uma confortável tenda. O calor era insuportável, mas não tanto quanto o deserto. Lena estava no mesmo quarto, arrumando a mochila com os incontáveis livros que carregava.
- Onde estamos? - perguntou Agatha.
- Cidade das Dunas! Você foi fortemente envenenada pelas garras dos falcões, demorou pra tirar o veneno! Mas mesmo assim, estou impressionada! Faz três dias e já cicatrizou.
- Três dias! - admirou-se Agatha.
- Os habitantes ficaram felizes ao saber que a Princesa está aqui! Trouxeram comida, coma o quanto quiser!
Lena bateu a porta. Provavelmente ficaria um tempão na biblioteca, lendo. Mas enquanto a amiga se divertia, à sua maneira, Agatha não queria ficar à margem da diversão. Quem sabe dar uma andada pela cidade.
Não parecia muito rica, era recoberta de areia, com pequenas casinhas em madeira. Mesmo assim, abarrotada de gente, a maioria aglomerada em torno de mascates comprando tudo. Mas diante daquela paisagem monocromática, era uma tenda colorida que lhe chamava a atenção.
Mal não faria entrar. Era um ambiente com um forte cheiro de incenso no ar. Cortina de miçangas ocupavam a porta. No mais, a tenda era forrada por tecidos vermelhos e alaranjados. Na mesa, a cigana passava seus dedos finos sobre a bola de cristal empoeirada.
- Hã, oi! - saudou Agatha, sem jeito.
- Sente-se Princesa! - disse a cigana.
Agatha se aproximou ainda mais. Sob os dedos finos, anéis de pedras grandes e falsas. Um turbante na cabeça e uma voz fina e etérea.
- O que deseja saber, minha princesa?
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