BLOGGER TEMPLATES AND TWITTER BACKGROUNDS »

About Me

Minha foto
Louca/Estranha/Anormal/Distante/Fria/Egocêntrica E muitas outras mais... Autora de Angelus, Tokyo Revivers e A Cor da Lágrima, codinome: Horigome Namika
Mostrando postagens com marcador Reino Suspenso do Ar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Reino Suspenso do Ar. Mostrar todas as postagens

domingo, 26 de dezembro de 2010

lilith3545ba9

- Prove sua fé! – ordenava-lhe a mulher de longos cabelos negros – Ou deixará todos perecerem.

Naquele dia, a praça central de Preteus estava lotada. Todos compareceram com suas mais belas vestimentas e as joias ainda restantes.

Nos últimos meses, o povo de Preteus, para provar sua fidelidade à sua benfeitora, a Deusa Noite, organizou uma grande homenagem. Toda família era obrigada a doar parte de seus objetos em ouro para serem derretidos e transformados em uma gigantesca estátua. Ela estava ali, no meio da praça. E apesar dos objetos preciosos da cidade terem sido doados e investidos na estátua, as pessoas pareciam felizes.

- Isso é uma palhaçada! – reclamou o avô de Ezequiel. Ele era o único da cidade que não recebia nada da referida Deusa e portanto, não pôde contribuir. Ezequiel, o neto, era obrigado a pagar em dobro pela teimosia do avô. – Bando de bajuladores, imorais! HEREGES! TRAIDORES!

Um dos homens, provavelmente um dos líderes da Polícia se aproximou do avô de Ezequiel e gritou-lhe:

- Velho asqueroso! Infiel! Recebe os benefícios da cidade e cospe no prato em que come. O senhor é uma vergonha.

- Por favor, moço! – interferiu Agatha – Não é educado falar com as pessoas de idade nesse tom. Tenha um pouco mais de polidez.

- Cale-se estrangeira! – o homem deu um tapa com as costas da mão em Agatha. Ela caiu nos braços de Ezequiel e começaria ali uma confusão generalizada.

As vozes só se acalmaram quando o céu começou a escurecer e a lua roubou o lugar do Sol.

Uma névoa tomava conta da lua, e aos poucos ela desceu à superfície. A névoa tomou a forma de uma pessoa coberta com um manto tão negro que se confundia com a noite.

A pessoa se aproximou aos poucos e retirou o manto. Logo, apareceu uma bela mulher de cabelos negros e ondulados, com um vestido que parecia retirado do céu estrelado.

A multidão imediatamente se ajoelhou e vislumbrou pasma a Deusa. Até mesmo Agatha parou por alguns segundos para vê-la.

- É ela, pessoal! – gritou alguém – É a nossa Deusa!

A Deusa Noite olhou para todos os cantos da plateia. Levantou os braços e saudou os habitantes.

- Meus queridos súditos! Minha querida cidade! – bradou – Por vários anos eu ajudei vocês. Sinto-me gratificada com essa singela homenagem. Ajoelhem-se todos e contemplem sua Magnânima Deusa!

Todos os que estavam ajoelhados, abaixaram suas cabeças no chão. Os únicos que permaneceram de pé foram Agatha e vovô.

- Vocês, infiéis! – apontou a Deusa – Mostrem alguma gratidão a mim! Ajoelhem-se!

- Eu nunca me ajoelhei a ninguém. – respondeu Agatha, atrevida – Não é dessa vez que eu vou me ajoelhar.

- Temos uma maldita descrente aqui?! – ameaçou a Deusa. Ela abriu caminho por entre o povo até chegar à Agatha – Ajoelhe-se! É uma ordem.

- Não obedeço falsos deuses!

- Minha Deusa! – bradou um anônimo – Ela não é uma das nossas! É uma estrangeira!

- O que pensa que eu sou? Uma ignorante?! – respondeu a Deusa, rispidamente – Eu sei perfeitamente quem é essa mulher!

A Deusa pegou o queixo de Agatha e aproximou seus olhos dos dela. A princesa pôde ver que as pupilas de seus olhos azuis ficaram agudas como as pupilas de um felino.

- VEJAM! OLHEM DIREITO PRA ESSA MULHER! ESTA MULHER PERTENCE À FAMÍLIA REAL DESTE REINO. A FAMÍLIA DESTA MULHER FOI A RESPONSÁVEL PELOS ANOS DE TREVAS DESTA CIDADE!

A multidão começou a atirar pedras e sapatos na menina. O vovô se meteu no meio.

- IDIOTAS! HUMILHANDO A PRÓPRIA SOBERANA EM FAVOR DE UMA FALSA DEUSA!

- Não se esqueçam… – interrompeu a Deusa – Que enquanto esta mulher e a família se divertiam, VOCÊS passavam fome e frio! ERAM os SEUS filhos que sofriam. SUAS mulheres eram humilhadas! EU lhes dei remédios e comida! EU curei seus doentes! EU ressurgi sua cidade! Graças a mim, vocês estão cobertos de ouro e pedras preciosas!

- Não acreditem no que ela diz! – tentou persuadir Agatha – Ela cobrará um preço tão alto que não poderão pagar!

- É claro. – surpreendentemente a Deusa concordou com Agatha. De fato, ela tinha vindo cobrar seus favores – Nunca disse que faria nada gratuitamente.

- Nós pagaremos! Pagaremos o preço que for!

- Isso facilita muito as coisas… Eu vim lhes cobrar o meu preço. E em troca de tudo o que dei a vocês eu quero a alma de cada um!

- Não pode fazer isso! – interferiu o vovô – Você os enganou!

- Criaturas engraçadas, os humanos… Fazem tudo pelo dinheiro. Quando vemos, contraem dívidas que não poderão pagar.

- Eu me ofereço para ir no lugar deles!

A Deusa sorriu com satisfação. Como se esperasse que Agatha fizesse essa escolha.

- Então, eles a apedrejam, a insultam, e você ainda quer dar sua vida em favor desses idiotas?! – caçoou a Deusa Noite – Criaturas engraçadas, os humanos!

A Deusa concedeu o desejo. Agatha só ouviu gritos distantes de Ezequiel, do vovô e de alguns cidadãos de Preteus. E a sensação de ter algo tirado à força de seu peito.

Quando retornou a si, estava num lugar frio e escuro. Levantou-se do chão de pedra onde estava com muito cuidado para não escorregar no limo. A seguir, encarou a face da Deusa Lua, que a pegou violentamente pelo braço.

- Onde estou?

- No final do limbo. Em poucos instantes, estaremos diante da Deusa Lua.

- Então, você é uma aliada dela!

- Criatura tola! Trocou sua alma pela daqueles inúteis! Realmente não sabe o quanto vale! Mamãe ficará muito agradecida a mim!

Noite então era uma das filhas da Lua, de quem Agatha apenas ouvira falar. As histórias contam que a Deusa renegada teve diversos filhos com o deus da Escuridão, que ela mesma criou, e com mortais extremamente perversos.

Elas chegaram a um portal de ferro. Dentro deles, dois enormes cães pretos de olhos vermelhos e flamejantes montavam guarda. Dois semi-humanos com cabeça de corvo guardavam a entrada com lanças.

- Diga à mamãe que estou com a Princesa Agatha Tess.

Agatha notou uma certa tensão em sua voz, o que demonstrava que Noite estava com algum temor. O segundo guarda abriu o portão de ferro, e ela passou por ele. Agatha vacilou.

- Ela passará? – perguntou o guarda.

- É claro que ela passará. – assegurou Noite – É uma humana! E nem mesmo é uma criança para ser pura.

- Sabe que isso não importa se ela tiver aquilo.

- Aquilo… ah sim! Se ela tiver fé… – debochou Noite – Nenhum humano tem fé absoluta nos deuses.

- Pois eu tenho! – retrucou Agatha. Ela tremia dos pés a cabeça, mas sua voz estava incrivelmente firme.

- Você se diz uma pessoa de fé… pois bem! Apenas são impedidos de passar por esse portão aqueles que têm fé nos deuses e são bem-quistos por eles. Pois bem! Se vacilar um segundo sequer, não poderá nunca mais voltar.

Agatha caminhou a passos miúdos. Suas pernas tremiam muito. E em todos os seus pensamentos pensava: ela teria fé?

- Prove sua fé! – ordenava-lhe a mulher de longos cabelos negros – Ou deixará todos perecerem.

Muitas coisas permearam sua cabeça naquele instante. Não podia vacilar um momento sequer. Tinha que ter fé nos deuses. Mas se hesitasse, um milésimo de segundo que fosse, nunca mais retornaria, e o povo estaria à mercê de Noite.

Mas eles a apedrejaram e a insultaram. Seria digno arriscar sua vida e muito mais, sua alma, por pessoas que nem conhecia?

Eles são meus súditos. Um governante deve fazer tudo por seus súditos. – pensava. Mas em seguida, outro pensamento vinha à tona. Você não é mais herdeira de trono algum. Renunciou a isso. Não precisa se importar com eles.

- Então, não provará sua fé? – provocava Noite.

- Espere! – disse Agatha, interrompendo seus passos. -  Até agora, as intenções de nosso acordo não ficaram claras.

- Não fizemos acordo algum! – respondeu Noite.

- Então quer dizer que posso ir embora agora.

- Você sabe que não. Sabe que eu voltarei e roubarei as almas que são minhas por direito.

- Eu exijo um acordo. – propôs Agatha – Quem vai me assegurar que depois de possuir minha alma, você não vai voltar e pegar a alma dos outros?

- Humpf, que seja! Quais são os seus termos?

- Você terá a minha alma, desde que eu atravesse. Não poderá pegar a alma de ninguém fora deste acordo.

- E se você não atravessar?

- Você ficará sem alma alguma.

Noite estava decidida a não aceitar o acordo. Mas pensou que a possibilidade de Agatha não atravessar o portão era quase nula.

- Temos um acordo então.

Agatha continuou a passos tímidos. Aos poucos o portão ficava mais próximo de seu ser. Já podia até ver os olhos felinos de Noite perto dela. E o ar funesto do inferno.

Os três dias que a ex-princesa fora hóspede daquela cidade fizeram-na concluir que: primeiramente, era uma cidade rica, mas ao mesmo tempo tão pobre! Os homens, as mulheres e mesmo as crianças andavam, por mais insignificante que fosse o lugar, ricamente adornados com ouro, prata e pedras preciosas. No entanto, Agatha não viu naquela cidade vestígio algum de atividade econômica forte, muito menos de presença do Reino do Ar. Ao interpelar a seu anfitrião, obteve a seguinte resposta:

- As pessoas aqui há muito esqueceram a quem devem ser fiéis, srta. Brown.

- Nem mesmo aos deuses?

- Deuses? – estranhou o velho – Poucos aqui acreditam nos deuses. Para eles , só o que existe é a Deusa Noite.

A Deusa Noite, Agatha pôde perceber, era a criatura mais venerada em toda a cidade. Todos agradeciam imensamente a ela por ter transformado Preteus de uma cidade semi-feudal a uma verdadeiro oásis de glória e ostentação.

- Há muito tempo, a guerra passou por aqui. Os homens do Império do Fogo queimaram toda a nossa terra. – contou-lhe o balconista da padaria – Não nascia um só grão. O Exército travou por essa região uma terrível batalha para expulsar os estrangeiros daqui.

- Os soldados ficaram por aqui por dois, três meses. Isso até os guerreiros do Fogo estarem bem afastados! – dizia o farmacêutico – Depois, nos abandonaram. Fomos fadados à miséria, à fome, à humilhação. O Reino esqueceu de nós.

Em todo o lugar, a opinião dos adultos com mais de 30 anos, e mesmo dos jovens (que reproduziam a história contada) era a mesma.

Nossa terra ficou improdutiva, os preços ficaram exorbitantes.”

”Fomos condenados a passar fome. As crianças morriam de inanição e de doença. Remédio não tinha. Isso pra não falar nos órfãos e nas viúvas”.

“Já ouvi falar de histórias que pais matavam seus filhos por não possuírem comida ou por não aguentar o sofrimento que passamos”.

“Tínhamos fome. Tínhamos sede. Morríamos de doenças, não tínhamos remédios. Nossos maridos ou morreram no campo de batalha ou ficaram imprestáveis. Algumas mulheres vendiam seu corpo aos soldados em troca de algumas moedas. Depois que eles se foram, nem essa alternativa tiveram. O jeito era rezar. E os deuses permaneceram surdos aos nossos apelos”.

Foi aí, que, segundo o povo, surgiu a deusa Noite. Ela vinha todas as noites e trazia pão, leite e remédios para os lares carentes. Depois doava ovelhas e vacas. O povo logo percebeu que ela era boa e ofereciam-lhe parte do que era doado. A Deusa agradeceu a oferta e trazia ainda mais coisas ao povo. Ela despoluiu os rios e lotou-os de peixes. Descontaminou a terra e devolveu-lhe os frutos e a fertilidade. Os doentes amanheciam bons, da noite pro dia. E assim, o povo foi se acostumando com a sua bondade. Ofereceu fidelidade. Ela aceitou.

Mas, segundo o avô de Ezequiel, o povo queria mais. E depois não mais desejava trabalhar. A Deusa Noite atendeu o pedido. E dava de tudo ao povo, que dedicava-se a outras atividades. Ouro, pedras preciosas todos possuíam. A Deusa dava-lhes de graça.

Agatha começava a achar que tinham uma certa razão. A mãe, ou como ela considerava, a mulher que a criou, a Grande Rainha, a Correta e Perfeita. A Justa. A Corajosa. A Benevolente. Essa mulher havia deixado seus súditos na mais completa miséria. E não era só ali. Pelas cidades que já havia passado, Agatha pôde perceber que boa parte dela vivia com grande dificuldade por causa da guerra e de suas consequências. Frequentemente, lembravam de seus dias de glória.

- Não deixe esse povo enganá-la, senhorita Brown. – aconselhava o avô de Ezequiel. – Esse povo é ignorante e preguiçoso. A senhorita não. Eles acham que a deusa dá tudo o que querem de graça, sem pedir nada em troca. Isso não é verdade. Ela cobrará um preço muito caro. Um preço que não poderemos pagar.

Ezequiel entrara correndo pela porta. Ofegante, sentou-se no sofá antes de proferir a mensagem.

- Venham! Vovô, senhorita Brown! A estátua da Deusa Noite já está pronta!

Forest_Fire1

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

wispy-urban-sunset

Desde que nascera, Agatha foi criada temente aos deuses que regiam aquela terra. A Deusa-Mãe, mãe de todas as criaturas vivas na Terra, protetora da família, do casamento. O Deus-Pai, criador de tudo o que é visível e o que não é visível. O Deus Sol, amigo da humanidade, protetor da luz, da sabedoria e da vida. A Deusa Lua, deusa das trevas e da escuridão.

Dizia uma antiga lenda, que o Deus Sol se apaixonou por uma mortal e teve com ela quatro filhos: Terra, Água, Fogo e Ar. Cada um era patrono de um país, e deveriam coexistir em harmonia.

- Mas não há harmonia nesse mundo, não é mamãe? – contestava a princesinha – Porque o Império do Fogo é dono de todos os outros países.

Ela, que sempre acreditara nos deuses, agora duvidava de sua existência. Se os deuses fossem piedosos e gentis, por que deixariam seus filhos sofrerem tanto?

O sol começara a se pôr, quando a jovem chegou às portas de um povoado à beira de uma vale desabitado. Algo ali parecia diferente de todas as paisagens que já tinha visto na vida. As estrelas pareciam iluminar o céu com mais força, e os ventos brilhantes dançavam por sobre o povoado.

Cruzou o arco de pedra, onde uma estátua de bronze posava com altivez. Apesar de saber apenas que estava em um lugar longe, não imaginava que seria extremamente provinciano.

As pessoas, principalmente as mulheres, vestiam-se de modo luxuoso. De longe, era possível notar o brilho das jóias, das pérolas, a elegância das vestimentas. Logo, a presença de uma garota maltrapilha foi notada pelos habitantes.

Andou pela avenida principal. Nenhuma daquelas construções parecia-lhe viável economicamente. Afinal, Agatha renunciou ao seu título, ao seu luxo e apenas vagava pelo mundo perguntando quem seria.

Chegou à porta da mais simples estalagem da rua principal. Era um sobrado caiado com desenhos em relevo na madeira clara. Por dentro, motivos florais decoravam o papel de parede cor de malva. Elegantes poltronas cor de creme completavam a sala, marcada pela mobília de madeira claríssima.

- Quanto é o quarto? – perguntou Agatha à atendente – O mais simples, por favor.

- Duas moedas de cobre!

Agatha tirou da velha bolsinha de tecido ordinário algumas moedinhas e deu à moça. Recebeu uma chave delicadamente floreada com ouro e cobre.

Ela levantou cedinho, não por vontade própria, mas pelo barulho que as pessoas faziam pela estalagem e na rua secundária onde seu quarto tinha vista. Ao contrário do que pensara, a cidadela era vívida. Espiando pela janela, viu uma grande movimentação de pessoas pela rua.

Desceu, e foi até a rua. Perguntar aonde estava, que cidade era aquela e de quebra descobrir a razão daquele alvoroço.

- BIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!!! – Agatha ouviu um barulho de sirene ou buzina por alto. Quando recobrou a consciência, estava deitada sobre os braços de um rapaz, não muito mais velho que ela.

- Moça, moça! Moooooçaaa! – ele gritava, sacudindo-a nos braços, como se a agitação fosse ajudá-la a se recompor.

- O q-? Que? Aiii! – Agatha levava a mão à cabeça, enquanto o rapaz a carregava dali.

 

Ele a colocou num sofá cor de pérola muito fofo. Enquanto o garoto buscava algo dentro e gritava pelo avô, Agatha aproveitava para reparar na casa ricamente adornada com madeira talhada e relevo em formas marítimas. O garoto voltou logo depois trazendo uma taça com água, empurrando-a na garganta de Agatha.

Pela primeira vez, ela percebeu as suaves feições do jovem. Ele tinha um cabelo castanho avermelhado, um tanto quanto bagunçados e cujas pontas estavam um pouco chamuscadas. Seu rosto era de um oval quase perfeito com bochechas muito salientes e salpicadas de sardas pequenas.

- Pronto, você ficará bem. Agora diga alguma coisa. Por favor!

- Estou bem, obrigada. – respondeu Agatha, frente ao nervosismo do garoto – Sério!

- Qual o seu nome?

- Err, o meu nome… – Agatha pensou um pouquinho antes de responder – É Lena, Lena Brown.

- Ok, senhorita Brown. – o garoto deu um risinho aliviado – Por favor, fique aqui, enquanto eu chamo um médico.

- Não precisa. Realmente estou bem.

- Não é daqui da cidade, é senhorita Brown? – perguntou.

- Acho que dá pra notar né?

- É… a propósito, meu nome é Ezequiel.

Segundos depois, apareceu um velho. Uma espécie de predição de Ezequiel cinquenta anos depois. Tinha os cabelos inteiramente chamuscados e vestia um avental branco sujo com substâncias verde neón. Era uma figura totalmente amalucada.

- Quem é essa mulher, Ezequiel? Sua namorada?

- É a senhorita Brown, vovô. – respondeu Ezequiel, vermelho – Eu bem… a atropelei ainda há pouco.

- Pois trate bem dessa moça. Nós não vamos querer que algo aconteça a ela.

O velho limpou as mãos e entrou pelo corredor interno. Ezequiel virou os olhos para a visitante, tentando dar alguma satisfação diante de sua expressão perdida.

- Essa é a cidade de Preteus, caso ainda não saiba.

Logo depois, alguém bateu freneticamente à porta. Ezequiel atendeu e por ela entrou um rapaz com mais ou menos a idade de Dimitri usando uma bela farda azul marinho e alguns emblemas.

- Bom dia Ezequiel. – saudou, tirando o quepe – Que semaninha agitada, hein?

- É…

- Então, vim pra pegar a colaboração da sua família.

Agatha notara que ele era muito, muito bonito. Tinha cabelos muito escuros e olhos de um azul muito profundo. Seu rosto tinha zigomas bem definidos e expressões muito fortes. Teria sido um homem que deixaria até Vicky Valentine excitada.

- Quem é ela? – perguntou o homem, se referindo à Agatha – É sua namorada?

- Não. Eu apenas a atropelei hoje de manhã.

- Ela é muito bonita. – continuou o rapaz, tão naturalmente como se ela não estivesse ali – Se não quiser um romance com ela, poderia apresentá-la a mim.

- Pegue, Artur. Dê o fora, agora!

Artur, o rapaz de farda azul, pegou uma sacola de tecido e conferiu algumas peças. Agatha estava longe, mas viu que eram de ouro puro.

- Então? – disse Ezequiel.

- É, está tudo aqui. Mas e quanto…

- O que foi?

- Não vai mesmo nos apresentar formalmente? – insistiu Artur – Eu e a garota? Quer dizer que pretende iniciar um romance com ela?

- Saia daqui!

Artur fechou a porta com grande insatisfação. Ezequiel resmungou algumas palavras, antes de dizer algo à Agatha.

- Desculpe pela atitude do comissário Artur Negill. Ele está sempre interessado em garotas atraentes e… quer dizer… não ache que esta é… não… não quis dizer que a senhorita não seja.

- Não se confunda.

- É… desculpe…

- Esta é uma cidade muito farta hein?

- Sim. Temos sido abençoados pela Deusa nestes últimos anos. Só graças têm ocorrido a nós.

- Deusa?

- Sim. A Deusa Noite tem sido muito bondosa. Antes, nossa cidade era pobre e recebia pouquíssimos recursos do Reino Suspenso do Ar. Hoje, temos fartura em tudo.

- Então quer dizer que não acreditam nos outros deuses? Digo, no Deus Sol, no Deus Ar, o grande patrono da nossa terra.

- Os deuses nos abandonaram, senhorita Brown. Apenas a Deusa Noite lembrou de nós.

- NÃO BLASFEME CONTRA OS DEUSES, EZEQUIEL!!

Uma voz grave originara-se do interior da casa. Era, outra vez, o avô amalucado de Ezequiel.

- Não vou permitir que você seja mais um dos iludidos.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

jpeg-1-533x800

O fogo criptava. Chamas bailando pela escuridão nefasta. Acima dela, somente as estrelas e o ulular do vento frio da noite primaveril.

As duas amigas foram chamadas às pressas. Todos à postos, procurando uma princesa angustiada, com um coração sangrando. Lena parecia confusa e perdida… não era segredo que Agatha não amava seu noivo, mas por que fugir depois de algumas semanas? E por que não comunicou nem a ela ou à Vicky? A loira, por sua vez, não deixava de sentir uma ponta de remorso por dentro, mas mal sabia conhecer apenas uma parte da verdade.

Três dias já haviam passado. O frio da viagem já chegava-lhe no corpo. Não comia ou bebia desde que saíra do palácio. Suspirou aliviada ao chegar a seu destino.

Uma criança aproximou-se a passos pequenos e vagarosos. Abriu apenas um pequeno sorriso ao vê-la ali. O corpo pequeno e frágil da princesa, os cabelos vermelhos dançando com a brisa, mas as mãos… chamuscadas, vermelhas, como que queimadas por fogo. Pegou-a no colo sem grandes dificuldades e trouxe-na para dentro do templo, onde poderia tratar suas feridas…

No jardim real, Vicky tentava acender, em vão, um cigarro, mas suas mãos tremiam a cada vez. Quando finalmente conseguiu, seu cigarro foi tomado por outra pessoa e esmagado no chão.

- Ficou doida, garota? – brigou Vicky – Cê não tá vendo que eu tento fumar há horas?

- Não precisa disto, Vicky, e você sabe…

A mulher parecia ter mais ou menos a idade da loura. Mas sua aparência se assemelhava a uma ninfa, uma ninfa de pele e cabelos negros.

- Não deveria tentar sua amiga?

- Nem sei se ela ainda me considera como amiga.

- E você? A considera?

- Do que adianta? – Vicky continuava desanimada – O país é grande demais! Ela pode estar em qualquer lugar!

- Confio em você, srta. Valentine.

Sem mais, a mulher desapareceu por entre os arbustos. Logo depois, surgiu Lena.

- Com quem estava falando? – perguntou a morena.

- Uma das serviçais do palácio… o que você quer?

- Estive pensando no porquê dela ter sumido assim, de repente.

- Vai ver que deu na telha! – disse Vicky, tentando dissipar o assunto.

- Não. – discordou Lena – Tem alguma coisa a mais… Agatha não fugiria sem nenhum motivo.

- Ah vai Lena! – ponderou Vicky – Agatha não é exatamente uma pessoa madura…

- Vicky, você sabe de alguma coisa né? – palpitou Lena – Devíamos contar à Rainha! Ela está sofrendo tanto!

- Nem você nem eu podemos fazer nada!

- Ela é nossa amiga Vicky! – insistiu Lena – Agatha sempre se mostrou generosa com os nossos erros e nos ajudou! Por que não podemos ajudá-la?

Vicky cubriu o rosto com as mãos. Algumas lágrimas escorreram pelas palmas. Lena permanecia atônita enquanto tentava formular um pedido de desculpas. Mas surpreendentemente a loira levantou-se e tranformara seu semblante um determinado e decidido.

- Lena – disse, firmemente – Quando foi que você viu a Agatha pela primeira vez?

Lena passou a mão pelos cabelos, como se a memória fosse algo palpável.

- Eu não lembro direito… a Agatha tava caída… e… – Os olhos de Lena iluminaram-se – Vamos buscar a Rainha.

Apesar daquele ser apenas o seu quarto dia, o terceiro consciente, Agatha o (a) chamava de Boo, já que esse som era o único que ele (a) emitia.

- Pensei que o Exército do Império do Fogo havia destruído esse lugar! – exclamou Agatha – Mas ele parece intacto! Você sabe o que aconteceu?

Boo não respondeu. Apenas pegou suas mãos e a levou para o cume do templo. Lá havia uma grande sala redonda com muitas estátuas antigas.

- Boo… – Agatha chamou-lhe a atenção – Você ainda não respondeu minha pergunta…

- Tudo ficou escuro por segundos, o suficiente para deixar Agatha apavorava. A luz voltou em seguida. No bolso direito do casaco da princesa apareceu um velho pergaminho. Agatha o abriu e leu. As chagas de suas mãos, feridas pelo fogo que conjurou durante a viagem, abriram-se e banharam de sangue suas vestes. Letras começaram a aparecer, como se a tinta fosse seu próprio sangue. Agatha largou o pergaminho no chão enquanto Boo reapareceu na sua frente, fitando-a com fixação.

- IDIOTAAAA! – ralhou Agatha, sacudindo-o pelos ombros – Não teve graça, Boo, não teve graça!

Agatha correu para fora do templo. Porém suas mãos ainda doíam, com grande força, uma dor que ela mal podia suportar.

Banhou suas mãos no primeiro rio que viu, um estreito rio de águas cristalinas. Uma lágrima caiu, criando uma oscilação na superfície das águas. Mas elas não vinham dos olhos castanhos de Agatha.

- Eu também costumava aliviar minhas dores aqui… – revelou uma mulher bonita, mas cujas mãos denunciavam-lhe as manchas senis – A muito e muito tempo!

- Como me encontrou? – perguntou Agatha,

- Pela perspicácia de suas amigas Lena e Vicky.

- Vicky não é minha amiga…

- Não a culpe pelo rancor que sente em seu coração querida…

Agatha levantou-se e sacudiu as mãos molhadas. Amélia a puxou pelo braço.

- Há muito o que contar, querida…

- Claro que há! – reagiu Agatha, ferozmente – Dezoito anos de mentira é um bom tempo, Vossa Majestade.

- Não gosto que me chame assim…

- E por que não devo? Afinal não sou sua filha, não tenho o sangue real… Nem sei se pertenço ao seu reino!

- Pare de me julgar… só quero que entenda a verdade…

Amélia Talidis era de longe a jovem mais promissora do Reino do Ar. Seu pai, o duque de Strattford, era um dos homens mais respeitados da região. Gozava de um grande prestígio junto ao rei.

Um prodígio! Aos quinze anos foi apresentada à corte, no baile, importantes figurões da alta sociedade do Reino do Ar, inclusive os príncipes, que lá estavam mais por obrigação que por prazer.

- Por que seus pais quiseram fazer essa festa chata? – perguntou o príncipe Victor, entediado – Sério, Amélia, baile de debutantes só serve pros pais ficarem se exibindo com os filhos.

- E você acha que eu tive escolha? – defendeu-se Amélia – Eles dizem que é importante, querem que eu me case.

- Mas você não vai topar né? – perguntou o príncipe incrédulo – Você prometeu que nós três: eu, você e o Thales faríamos Política juntos!

Amélia balançou a cabeça afirmativamente. Seus pais queriam mesmo que ela se casasse, ainda sim, permitiram que ela frequentasse a Universidade, a pedido do príncipe.

A morte do rei e a proclamação de guerra contra o Império do Fogo deixou o Reino atônito. Era precioso tomar providências e providências rápidas. A situação piorou quando a Rainha, muito querida pelo povo, definhou meses depois à morte do marido. Suas últimas palavras lamentaram sua fraqueza e por conseguinte, ela suplicou aos filhos que a próxima Rainha deveria ser forte.

- Amélia! – sussurrou o príncipe de madrugada, jogando pedrinhas na janela do dormitório. – Améliaaa, desce!

Amélia saiu pela janela, descendo pelas trepadeiras. Era frequente que o Príncipe a chamasse sempre daquela forma.

Eles se reuniram no lugar de sempre, abaixo do frondoso sabugueiro, às margens do Rio das Lágrimas. Para sua surpresa, Thales também estava lá.

- Mas, mas… – gaguejou Amélia – Eu não posso aceitar isto… Thales, você…

- Eu concordei – respondeu Thales friamente – É o nosso Reino, Amélia!

- Você é a única mulher que eu confio pra ser a Rainha! – argumentou Victor – Além disso, eu te amo, e você gosta de mim…

- Gostar não é amar! – exclamou enfaticamente antes de olhar para Thales, o namorado, suplicando que ele tivesse alguma saída brilhante para aquela situação embaraçosa – Thales…

- Amélia, pára de ser egoísta! – disse Thales – Nós não somos mais aquelas crianças bobas… nossos reis morreram, as pessoas precisam de nós, estamos em guerra! Se não agirmos logo seremos humilhados pelo Império do Fogo! É isso o que você quer? Deixar de ser a rainha para ser a escrava deles? Tudo em nome de…

- Amor! – Amélia enxugou as lágrimas. Parecia finalmente ter ouvido a voz da razão. Em algumas semanas, ela se casaria com Victor Tess e se tornaria a nova Rainha do Reino do Ar.

A barriga era demasiadamente pequena para os oito meses de gravidez. Apesar disso, as últimas semanas não tinham sido nada fáceis para ela. Agora Amélia estava no quarto, sofrendo as dores do parto, dores que há seis gestações ela esperava ansiosamente.

- Majestade… – o médico saiu do quarto com um pequeno embrulho nas mãos – Eu sinto muito, muito mesmo…

O rei carregou o corpo inerte do bebê. Ele acariciou o menino, seu sexto menino, morto.

- A Rainha já tem uma idade avançada – informou o médico – É melhor não tentar mais…

Amélia saíra do palácio logo no dia seguite. Mais uma vez ela perdera o único herdeiro do Reino, mais uma vez ela perdera a oportunidade de cumprir a promessa que fez a Thales. Uma retrospectiva passara por sua cabeça: a sexta gestação, seis crianças mortas prematuramente. Desistir de ser mãe? A idade lhe batia à porta. Se quando era mais jovem, não conseguira, por que conseguiria agora, com trinta e nove anos?

Sentou-se à beira do Rio das Lágrimas, o místico e legendário. Rezava a lenda que suas lágrimas vinham da humana que se apaixonou pelo Deus Sol no dia que perdeu para o mundo seus quatro filhos. Quem sabe uma mãe entenderia a dor de outra…

Um choro estridente. Lágrimas. Um bebêm uma menina de cabelos vermelhos boiava no rio.

 

sábado, 31 de julho de 2010

foraredgirl

Com exceção de Lena, as outras mulheres no palácio pareciam tristes ou esgotadas, inclusive a Rainha. Agatha teve o descontentamento de ser acordada muito cedo, oq ue a desagradou muito, afina, não pregara os olhos. E o mesmo pivô de sua insônia foi também a razão da falta de ânimo e humor.

Vestiu com indolência a roupa de equitação e desceu as escadas com a maior falta de vontade possível. Foi recebida no saguão do palácio por dois lacaios que acompanhavam seu senhor, o lorde Van Buailt.

Pela primeira vez, prestou atenção no homem com quem iria se casar: pele macilenta, cabelos negros e levemente ondulados, barba longa, olhar escuro, olheiras profundas. Tudo em seu visual lhe conferia ar misterioso e sombrio, pra não dizer nefasto.

O lorde beijou-lhe as mãos e a conduziu para o exterior do palácio, onde dois cavalos absurdamente grandes, um negro e um branco, os esperavam. Montaram cada um no seu e prosseguiram com o passeio.

Lorde Van Buailt, Agatha logo percebey, não era muito de falar. Às pouquíssimas vezes que a princesa lhe dirigiu a palavra, ele respondia com um pigarro ou quando muito, com palavras monossilábicas.

Chegaram enfim, à sombra de uma árvore onde amarraram as montarias. Uns passos adiante, havia uma toalha com algumas cestas recheadas de comida: frutas, bolos, chás, biscoitos, geleias, queijos, pães, tortas…

- A Rainha disse-me que prefere chá de hibiscos silvestres – disse o lorde, tentando arrancar uma palavra da noiva – Mandei preparar o desjejum pra você. Não vai comer?

Agatha apenas resmungou. O lorde parecia não ouvir e continuou.

- Você sabe o que isso significa?

Novamente Agatha respondeu com um resmungo. Lorde Van Buailt prosseguiu:

- Daqui a três anos vamos nos casar, seremos coroados… Você me dará herdeiros e os criará para que assumam um dia esse trono! Creio que essa foi a escolha mais sensata da Rainha ao me escolher para essa missão.

- O que passa na sua cabeça em se casar com uma garota muito mais nova que você? Aliás, o que se passou na cabeça da minha mãe pra te escolher?

- Como já salientei, sou a escolha perfeita!

- DIMITRI ERA A MELHOR ESCOLHA! – gritou Agatha.

O Lorde ergueu sua mão, que parou a poucos centímetros do rosto da princesa. Depois, ponderou melhor e desistiu da ideia.

- Você é uma princesa e a sua obrigação é servir ao Reino! E quando for minha esposa, me obedecerá acima de qualquer coisa!

O lorde segurou a outra mão para segurar Agatha. Aproveitando-se disto, forçou um beijo. Agatha se desvencilhando de novo, jogando uma jarra de suco em sua cabeça e correu para mais longe que pôde.

Van Buailt levantou-se rapidamente e puxou pelos cabelos, prendendo-na entre os braços e forçando um segundo beijo. Desta vez, Agatha mordeu os lábios dele com grande força, seguido de um golpe baixo.

O noivo estava mais preocupado com os lábios machucados que com Agatha, por isso, deixou-a fugir.

- É uma égua baia, mas vou domá-la nem que essa seja a última coisa que eu faça!

Nas semanas subsequentes, Agatha sempre pedia a ajuda de Vicky Valentine para acompanhá-la durante os encontros com Lorde Van Buailt. Ele não tentara mais nada contra a dignidade da princesa e se reservava a fazer perguntas desnecessárias e proferir palavras hostis.

Nunca em sua vida, nem mesmo quando não passava de uma princesa inútil, se sentira tão infeliz. Fazendo algo que era forçada! E sua mãe? Porque não lhe consultara? Por que não entregou sua mão a Dimitri?

Vicky passava os dias com menos emoções em sua vida… Sem encrencas, dívidas de bar, prisão, trapaças… No entanto, seu corpo necessitava desse descanso… e sua boca necessitava a dele…

Fazia uma bela noite aquela, mas a temperatura que a incomodava seu sono. A brisa acerca da fonte lhe parecia uma boa ideia.

- O que faz aqui? – perguntou Vicky à sombra que se aproximava.

- Precisava te ver mais uma vez! – respondeu Dimitri. Deu uma longa passada para tentar beijar-lhe a boca.

- Esquece! Vários já esqueceram de mim… garanto que você vai conseguir também!

- E você acha que eu não tento isso todos os dias? Me sinto culpado quando olho pra este anel! Quando olho pra Lara!

- Você é uma pessoa desprezível.

Dimitri fez cara de surpresa. Como um homem tão leal que nem ele poderia ser considerado desprezível?

- Não vê que está fazendo três mulheres sofrerem ao mesmo tempo?

- Como?

- A Rainha iria escolhê-lo para casar-se com a Agatha! E acabou preferindo aquele lorde idiota… e graças a isso, Agatha está sofrendo imensamente.

- Não seja hipócrita Vicky! Agatha é como, como uma ir…

- ELA SEMPRE TE AMOU, SEU RETARDADO!

- Mas… mas… mas… você, eu… você não me deixaria casar com ela…

- É claro que sim! – afirmou Vicky, com lágrimas nos olhos – eu não sou nada sua!

Vicky beijou Dimitri ardorosamente;

- Eu te amo, mas vou te esquecer nem que isso custe a minha vida.

Uma sombra moveu-se entre os arbustos. Aos olhos rápidos de Vicky, a criatura assustada fora facilmente reconhecida pelo simples fato de ter cabelos vermelhos.

Tamanha era sua apatia e reclusão nos últimos dias, que nenhum serviçal ousava incomodar a princesa. Agatha entrou correndo pelo palácio, estupidamente cega a ponto de derrubar um criado levando louças a serem limpas. Não sabia exatamente aonde iria, corria sem rumo, entrando de porta em porta como se o gigantesco castelo não fosse grande o bastante para suprimir sua raiva.

Entre as portas e passagens ocultas, entrou num cômodo onde jamais pisara. Escuro e mal iluminado, exceto por um pequeno feixe de luz azul. Ali ficou a chorar e a maldizer Vicky, Dimitri, sua mãe, lorde… Todos conspirando contra a sua felicidade. Todos traindo e escarnecendo dela.

- Você está me pedindo demais! – esbravejou uma voz conhecida. Agatha escutara tanto essa voz, que na primeira palavra a reconheceu – Uma Rainha jamais se curvará a isso, muito menos quando isso envolve sua própria filha.

Agatha aos poucos se aproximou da fresta onde o feixe de luz irradiava. A voz ficou mais nítida e ela pôde identificar mais duas:

- Covarde! Como ousas chantagear Vossa Majestade! – Agatha ouviu uma voz grossa e imponente. Era a de seu tio Thales.

- Rainha? – a terceira voz se assemelhava com um sibilo ameaçador – Não tem o nosso sangue real! O Reino não precisa de uma Rainha devassa , que mantém um caso amoroso com um de seus generais… sendo o mesmo irmão de seu esposo, o Rei por direito.

Agatha ficou estupefata. Então a mãe estava enamorada de Thales? Aquilo não lhe soava tão estranho. Talvez fosse coisa de família que as mulheres se apaixonassem por seus protetores. Mas, teria Amélia sido tão egoísta a ponto de vender a felicidade de sua filha em troca da pureza de sua imagem?

- Não vou forçá-la a gostar do senhor, lorde Van Buailt – replicou a mãe – Já cedi a chantagens demais de sua parte!

- E o que o Reino vai pensar quando souber que sua matriarca, sua Rainha, a dama mais respeitada do país, foi na verdade, uma mentirosa?

- Desista Van Buailt… – disse Thales – A Rainha já disse que não se importará se você revelar a todos o nosso… relacionamento.

- Sabemos que eu não falo deste assunto, general Braus… As coisas são muito mais graves, não concorda Vossa Majestade?

Amélia caiu no choro, sendo amparada por Thales. Enquanto soluçava, o lorde exibia uma feição tranquila e triunfante. A princesa já não aguentava mais: era a primeira vez que ela vira a mãe, símbolo de força do país, cair em desespero e desilusão.

- Imagina o que ocorrerá ao reino, ao povo, ao parlamento, quando vir à tona toda a verdade?

- Páre! Páre! – pediu a Rainha, aos prantos – Por favor!

- … A verdade que todos desconfiavam mas sempre tiveram receio de perguntar…

- CALE-SE BUAILT! – ordenou Thales.

- … Que a princesa Agatha não possui o sangue real da nossa pátria…

Silêncio. A porta abriu-se e do outro lado, parada, uma jovem princesa, cujo coração caiu em desespero pela segunda vez naquela noite.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

1700857209_163522604d

PÉROLAS – A ESTÓRIA DE AGATHA TESS
Dentre todas as joias que possuía a pérola era a que mais lhe encantava. Pela cor e brilho únicos de sua natureza.
- Alteza! – pedira humildemente a estilista – Com licença!
Agatha permitira a entrada com um aceno. Em questão de minutos, o quarto se enchera de costureiros, fitas, agulhas e tecidos.
- Modéstia à parte, temos todas as cores nobres, sua Alteza! – gabava-se a estilista mostrando à princesa diversas tonalidades de tecidos – E os tecidos então! Este tafetá coral combina perfeitamente com vosso cabelo!
Agatha aguçava os olhinhos à procura do tom perfeito e da textura perfeita. Finalmente vislumbrou aquele que mais se aproximava de seus intentos.
- Quero este!
A modista arregalou os olhos?
- Tem certeza, Alteza?– gaguejou – Quer dizer, esta tonalidade não tem muito que ver com vosso belíssimo cabelo e …
- Quero este! – insistiu Agatha.
À modista nada haveria de fazer. A não ser, confeccionar o vestido da princesa, seu último como solteira, cuja cor era pérola, a que mais lhe encantava.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

4089592923_5d5bc9f43e
UMA DOSE DE BOURBON – A ESTÓRIA DE VICKY VALENTINE
ist2_3178141-blank-note-post-it-to-do-list

A ardente loira abriu os olhos, passou a mão pela cama e, constatando que sua companhia já não estava ali, procurou sair o mais rápido possível. Observou pelo canto do olho um papel dobrado em cima do criado-mudo. Fez uma leitura dinâmica, e sorriu.
Não estava acostumada a receber tratamento como aquele no Reino Suspenso do Ar. Mas sua alma ansiava por algum tipo de aventura, uma real necessidade tal qual necessitava respirar.
O poente anunciava-lhe a hora de sair. Ali tinha muito mais que precisava. Faria algo que raras vezes se dispusera a fazer por vários fatores, em grande parte financeiros.
A animada casa de dança tinha um nível muito maior das quais sempre frequentava. Mas naquela noite, Vicky Valentine estava ali puramente por diversão.
Ambiente bem iluminado, gente jovem e culta conversando ou dançando o agradável folk-rock. Vicky olhou para os lados, procurando um lugar entre os vários frequentadores.
- Senhorita Valentine, aqui por favor! – Vicky fora puxada por alguém, que logo identificou como uma das damas de companhia do palácio.
A criada acomodou Vicky numa grande mesa de madeira clara onde vários bebiam bourbon, whisky e soda. Dentre todos, um casal parecia especialmente iluminado: uma moça de cabelos negros e ondulados e grande sorriso nos lábios; o outro, um rapaz de cabelos arroxeados e expressão cansada mas não descontente. Reconheceu-o rapidamente pelas amplas memórias: indiscutivelmente o homem que estava ali era o mesmo do porta-retrato no quarto de Agatha Tess.
A noite caía e apenas permaneciam os bebedores assíduos do bourbon, da cerveja e da vodca. A mesa, inicialmente com vinte ou trinta pessoas, àquela hora contava apenas com duas pessoas, além de Vicky e do casal. Não mais folk-rock, entretanto ouviam jazz os bêbados desafortunados.
A outra, que se chamava Lara, queixou-se do cansaço a Dimitri:
- Quero ir-me embora, meu bem!
Dimitri, mesmo parecendo exausto, não quis ir embora para o descontentamento de Lara. Então, pediu a um dos camaradas para levá-la em casa.
- Você não vem? – insistiu Lara, ao despedir-se de Dimitri – Hein?
O rapaz balançou a cabeça negativamente.
- Não quero ir agora. Vai com Bruno. – respondeu secamente, voltando a beber mais um drink.
Meia hora depois, o outro amigo deu adeus e já muito bêbado, cambaleou para casa. Àquela hora, o clube já esvaziara a ponto de sobrar uns poucos boêmios. Na mesa, permaneceram apenas Vicky, na sétima ou oitva dose de bebida, e um Dimitri levemente embriagado.
- Quer dançar? – convidou Dimitri, quando a banda iniciou um jazz melancólico.
Alguma coisa estava presente na atmosfera ocre do bar. As notas tristemente melódicas os envolveram a tal ponto de não se distinguirem e transformarem-nos em simples amantes das noites boêmias. Dimitri sentiu a necessidade de tê-la ali, fato que não podia, mas o fez. Ele a trouxe para junto de si e abraçou-lhe com a força viril do soldado que sempre fora. Depois estalou-lhe um beijo profundo em seus lábios. A música cessou e o soldado despertou daquele transe, da overdose de testosterona que sofrera. Porém, foi a vez da garota beijá-lo.
A ardente loira abriu os olhos, passou a mão pela cama e, constatando que sua companhia já não estava ali, procurou sair o mais rápido possível. Observou pelo canto do olho um papel dobrado em cima do criado-mudo. Fez uma leitura dinâmica, e sorriu. Em poucos instantes, sua mão amassou o papel, o rosto mudou de semblante, e ela atingiu a porta com a pequena bola de papel, amaldiçoando o dia em que fora pega em sua própria armadilha.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

610x
A ESTÓRIA DE LENA - O SÁBIO DA INFINDA BIBLIOTECA
fra_l20
Após duas semanas em casa, na Vila da Cascata, Lena Brown pôde lobrigar o quão sua Vila se afundava cada dia mais na miséria. Muitos já eram os que acreditavam tratar-se a situação de sua terra como castigo divino, castigo dos deuses por terem cedido tão facilmente ao domínio de uma nação estrangeira. Seu pai teve alguma melhora após a visita da filha, do neto e do genro, mas meses depois continuara a padecer da sua doença.
Lena corria contra o tempo. Foi mais cedo ao Reino cuja princesa era sua grande amiga com duas metas: passar no exame de admissão da Universidade e ser ajudada pelos médicos reais.
Assim que desceu do coche, os olhos verdes de Lena cintilaram-se perante ao imponente prédio. Poucas palavras poderiam descrever o que sentia perante à maior e mais bela Biblioteca que já vira, até mesmo em fotos.
Por dentro, a surpresa não era menor. O teto em abóbada parecia interminável, as paredes abarrotadas de livros. Um paraíso para qualquer rato de biblioteca como ela.
Tantos livros! E ela nem sabia por onde começar a procurar! Tanto o que saber e o que estudar!
- Por isso que digo que conhecimento demais faz mal – resmungou uma voz velha e etérea. Lena olhou para trás a fim de encontrar quem incomodova seu resguardo e silêncio e ficou surpresa ao ver a pessoa mais velha que já vira – Querem saber de tanto só pra se vangloriar do conhecimento supérfluo. Que gente sem amor ao conhecimento!
O velho olhou Lena fixamente. Seus olhos esbugalharam por entre os oclinhos de aro dourado. Eram extremamente azuis. Seus cabelos grisalhos e crespos confudiam-se com a barba extremamente grande. A jovem tentou desviar do olhar, mas já era tarde. O velho mancava com o cajado de madeira velha em direção à sua mesa.
Lena tremia ante a observação do velho, perdera a concentração. Ele sentou-se na cadeira em frente a sua e pôs-se a estudá-la com afinco.
- Já perdeu a concentração, menina? – grasnou – Tsc, tsc… mais uma que finge que lê.
Já havia sido insultada de várias coisas. Mas falsa estudiosa? Disparate à sua honra.
- Pare de me importunar!
- Só me diga quem está tentando impressionar.
- Não quero impressionar ninguém. Nunca tive ninguém pra impressionar. Só preciso passar no vestibular pra Medi…
- Eu sabia! Eu sabia! – o velho começou a gritar, chamando atenção dos outros frequentadores da biblioteca – Mais uma dessas jovens que buscam na medicina um status.
- O senhor não me conhece e nem tem o direito de me julgar… – Lena começou a lacrimejar de raiva do velho e levantou-se impetuosamente. Pôs o livro na prateleira e encaminhou-se para uma sessão bem longe do ancião.
- Então me conte a sua história! – a voz do senhor inconveniente a surpreendeu, visto que a morena havia se distanciado consideravelmente – Prove-me porque é diferente de todos aqui!
- Não preciso provar nada a ninguém e muito menos ao senhor! – Lena reagiu com impaciência. – Quer me deixar em paz por favor!
- Estrangeira, pobre, deixe-me ver… algum parente perto da morte! Pai talvez?
- ME DEIXA EM PAZ! – Lena fez a coisa mais impensada. Arremessou o único objeto que tinha à mão, um livro velho e pesado. O velho se desviou com imensa facilidade, deixando Lena estupefata.
- Eu sabia, desde o momento que você passou por essa porta, que você era diferente dos outros jovens.
Lena sacudiu a cabeça, sentindo que não deveria perder seu precioso tempo com aquele velho maluco. Sentou-se novamente na mesa e começou sua leitura pelos vários livros que deveria estudar. O velho, porém, não parou de observá-la estudando, causando na jovem uma grande irritação.
- Tem certeza que essa equação está certa?
- É claro que tenho – reclamou Lena, rispidamente.
- Porque esta não é a fórmula de Lenz. Não é a fórmula certa.
- A fórmula de Lenz não funciona em todos os casos. Veja! – Lena apontou com a ponta do grafite para uma das constantes – Essa constante pode variar quando o número alfa pertence à ordem dos irracionais!
O velho reclinou-se e esboçou um sorriso com o canto da boca. Logo depois, voltara com toneladas de livros e pondo-nas sobre as vistas da jovem futura médica.
Todos os dias enquanto estava lá, sentava-se na mesma mesa e estudava todos os livros que o ancião colocava sobre a mesa. Aos poucos, Lena Brown perdeu a antipatia que sentia por ele, e admirou-o pelo conhecimento que ele tinha desde história social a metafísica. Mas o que a surpreendeu mesmo foi o modo como falava da religião. Ao contrário do que esperava dos homens cultos, o  Ancião era extremamente místico.
- Não acredito em deuses porque simplesmente é muito mais fácil para as pessoas atribuírem o que acontece de bom ou ruim em suas vidas à eles – respondeu Lena, quando o Ancião lhe perguntara a respeito da razão de sua descrença – Sou racional, acredito na ciência e que tudo tem uma razão de ser.
- Nem acredita que os reis são escolhidos pelos deuses?
- Reis escolhidos pelos deuses? Eu não devo acreditar que uma criatura mesquinha e asqueirosa como Ivan Gardner seja realmente escolhido por “deuses”. E o Rei da República da Terra? Está nas últimas e entregou seu país a dois cônsules que não fazem outra coisa a não ser enganar o povo! Sem contar com a Realeza da Água! Um monte de covardes e corruptos que venderam seu povo em troca de joias! Isso é ser escolhido pelos deuses? Isso é ser descendente direto dos deuses no mundo?
- E quanto à sua amiga Agatha Tess? Você acha mesmo injusto que ela seja a futura governante desse país?
- Agatha é diferente! Ela é uma pessoa generosa demais, benevolente, justa!
- Sim, minha querida! É muito mais fácil pros humanos acreditarem nos deuses e dispensarem bibliotecas infinitas como as nossas! Mas pense nisso: os humanos não acreditam em deuses porque é mais fácil, mas sim, porque simplesmente há mistérios que nunca conseguiremos compreender enquanto pensarmos com nossas cabeças cercadas de pré-conceitos, amargura e ignorância.
- Ainda assim, não consigo aceitar isso!
- Sua cabeça não está pronta pra transcender tudo isso, querida, pelo menos não por enquanto. Mas logo logo estará pronta.
- Para quê?
- Para mudar a ordem desse mundo.
- Mudar a ordem de um mundo imutável? – Lena franziu o cenho, desconfiando da veracidade das palavras que ouvira.
- Você saberá quando compreender que até o Império do Fogo teve um dia negro.
Frase vã de um típico velho sábio. Mas, depois de tantos e tantos dias caminhando pela Infinda Biblioteca, a jovem não mais encontraria o Ancião que tantas vezes lhe inquietava com suas premissas estranhas.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

3fd8732f-d4a3-488e-92bf-ad4f9fe499d5
Dezoito anos, dezoito anos. A idade de mudar para todos os jovens, especialmente as garotas. Às mais modernas, o momento de sair da casa da família e experimentar o vigor da universidade. Às mais tradicionais,  hora propícia para casamento. Mas no caso de Agatha, dezoito anos representava algo além de tudo isso. Representava a transição da princesa para a rainha.
Sempre tivera consciência de que cedo ou tarde assumiria aquele país, afinal esse é o papel de uma princesa herdeira não? As leis de seu reino diziam que um novo regente é coroado somente quando o rei completasse sessenta anos e seu herdeiro vinte e um. E talvez essa fosse a razão dela estar tão apreensiva. No ano em que completaria vinte e um anos, sua mãe, a Rainha, seria sexagenária. Ascenderia ao trono com a idade mínima. Só restava-lhe três anos, três poucos anos para se tornar verdadeiramente adulta.
Abriu o closet e dele retirou um pequeno livro. Bonito e entalhado requintadamente com ouro e pedras preciosas.
Entretanto, o que mais lhe importava não era a riqueza da capa e sim a adornada letra que lhe dava nostalgia. Doces lembranças que permearam suas dezoito primaveras, hoje, sonhos e sorrisos febris. Entre todas as muitas palavras, uma escrita milhares de vezes tocava-lhe o coração e o fazia acelerar freneticamente: Dimitri, seu primeiro amigo, protetor, o primeiro que retirou a tristeza de ser magnificada de sua alma e a compreendia pela pessoa que era. Nunca teve coragem de dizer uma só palavra a ele. Elas pareciam faltar-lhes e não ser suficientes de descrever o que ele representava pra ela.
Ela confessou seu amor, ou pelo menos para seu diário. Dizer “eu te amo” palavras tão simples e ditas demais ao menos em seus sonhos. Mas ali, naquela página amarelada ela parecia soltar-se com maior facilidade que em seus lábios e sua voz. Uma princesa não poderia confessar seu verdadeiro sentimento? O medo de não ser amada justificava, parcialmente, sua pequena confidência ao papel. Ela conhecia Dimitri mais que ninguém. Certamente ele se sentiria obrigado a retribuir seu amor, mesmo que não tenha esse sentimento genuíno em seu coração. Nessas horas, nutria um imenso anseio de não ter o sangue real correndo nas veias e a tiara cintilando em sua cabeça.
- Até pra ser cara-de-pau tem limites! – esbravejava uma voz firme no corredor.
- Ah pára com isso – retrucou a outra – Agatha é nossa amiga não é? Por que não nos receberia aqui?
Agatha reconhecera imediatamente as vozes que brigavam no corredor. Sem nenhuma dúvida, pertenciam às suas grandes amigas.
- Pra quê a discussão? – perguntou a princesa serenamente – Eu não convidei as duas para visitarem o meu reino?
- A culpa é toda da dona certinha aqui – acusou Vicky, indicando Lena Brown com a cabeça – Eu sempre disse que você não se imp… Uau! Quem é esse gatinho?
Agatha tomou das curiosas mãos de Vicky o porta-retrato prateado com a foto sorridente dela e de Dimitri.
- Não é meu namorado, é meu segurança!
Vicky levantou uma sobrancelha e deu um sorriso bem largo e brilhante. Lena, percebendo o momento constrangedor, deu um pisão no pé da loira, que urrou de dor.
- Foi até bom que vocês vieram mais cedo! – Agatha mudara de assunto e, convidando as amigas para se sentarem, começava a escolher mentalmente as palavras que utilizaria. – Acho que vocês devem saber que… bem, dezoito anos na realeza significa algo bem especial.
Vicky e Lena apuraram os ouvidos. Conforme Agatha previra, nenhuma das duas tinha ideia da dimensão de seu Baile.
- Daqui-a-três-anos-eu-vou-ser-Rainha-e-mamãe-vai escolher-um-noivo-pra-mim! – Agatha disse rapidamente, como se a velocidade das palavras tornassem o seu discurso menos chocante.
- Você vai se casar? – perguntou Lena, boquiaberta.
- Você nunca disse que tinha namorado… – lembrou Vicky
- E não tenho! – corrigiu a princesa – Não sei com quem eu vou me casar!
old_paper-838x1080

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Sua missão havia terminado ali. Logo aquilo que havia aceitado apenas por obra do acaso, para que sua mãe não soubesse o que ela andara aprontando durante a “viagem”.
Mas agora era tempo de voltar pra casa e deixar-se abraçar pelos braços calorosos de mãe. Seus dezoito anos estavam se aproximando, e querendo ou não, era a hora da sociedade conhecer verdadeiramente sua princesa.
- Você nos mandará os convites não é Agatha? – cobrou Vicky dando uma piscadela, antes de tomar sua condução.
- Se eu souber onde te encontrar, sim! – respondeu a jovem. Não saberia aonde encontrar a ladra. Provavelmente em algum lugar do país aplicando golpes.
- Nem sei como agradecê-la – despediu-se com um abraço Lena. Ela voltaria à sua aldeia a fim de estudar para o exame de admissão à Universidade. Provavelmente apareceria algumas semanas antes do Baile de Apresentação da Princesa.

Assim, partiram as três, cada uma para o seu lado, em breve voltariam a se encontrar…

- Minha Agatha! – saudou a mãe, abraçando-na fortemente, com a força ao nível da saudade que sentira – Você está bem, se machucou? Céus! Você está imunda! E esses trapos…
Agatha mal teve tempo de dizer algo, tamanha era a saudade que sentia da mãe e daquele palácio, mas não da vida que levava quando ainda era uma princesa ignorante. Não… definitivamente era uma pessoa completamente diferente daquela que um dia partira daquele reino, deixando para trás toda a segurança e felicidade que falsamente sentira durante quase dezoito anos…

Aquele palácio chamava-se Palácio de Cristal. Trabalhado em vidro que refletia a luminosidade recebida pelos raios de sol que permeavam o Reino Suspenso do Ar. Também era chamado de Fortaleza Suspensa, pois essa era a impressão que tinha-se ali, nas nuvens brancas que serviam de mãe praquele país. Por todos esses motivos, sempre se sentira mais deusa que todos os outros… e por aquele e mais outros que nunca recebera um olhar daquela pessoa como gostaria de receber.
- Fui avisado do retorno de Vossa Alteza, gostaria de me ver o mais rá… – Dimitri parou imediatamento ao perceber em que tipo de recinto estava… uma névoa tão doce e aromática invadira-lhe os pulmões… as várias amas envolvendo-na com toalhas brancas e felpudas. No centro de uma grande piscina de água borbulhante, ela estava lá. Tão branca. Tão intocada. Tão pura.
Com um gesto dispensou as criadas e com outro fez sinal para que o rapaz de gostos finos se aproximasse. Visivelmente constrangido, Dimitri se aproximou dela, mas fitava seus pés o tempo todo.
- Se Vossa Alteza preferir, eu aguardo o término de seu banho terapêutico.
- Pare de ser bobo! – interrompeu Agatha – Eu não estou completamente nua! Além disso, lembra quando nós tomávamos banho escondido no Rio das…
- Mesmo assim Vossa Alteza, devo demonstrar respeito para com a …
- Humpf – resmungou Agatha, incomumente à sua maneira sempre polida de pronunciar-se. Não lhe agradava a formalidade que envolvia os dois. Aquilo a constrangia mais que tudo.
- Como foi a viagem?
- Interessante. – respondeu Agatha – Acho que foi bastante… instrutiva.
- Vossa Alteza procurou o que queria?
- Talvez. – respondeu Agatha vagamente. Não queria contar todos os detalhes a Dimitri, mesmo que ele fosse fiel à sua pessoa até a morte. Mesmo assim, a jovem não estava sendo hipócrita consigo mesma. De fato, Agatha não conseguira encontrar a resposta para a crise em si mesma, mas o que seus olhos viram durante sua “peregrinação” definitivamente a ajudaram a ser uma pessoa melhor. – Eu… eu acho que não estou pronta pra ser Rainha… não ainda.
- Entendi. Com sua licença…
- Espere! – pediu Agatha, antes que o jovem girasse seus calcanhares.
Dimitri parou aonde estava e sequer se mexeu. A princesa adivinhara por seus olhos o que transparecia e quase saltava como palavras. Então, ela notara…
- Não quero lhe revelar isso… não, até o Baile. – respondeu Dimitri, sem maiores explicações.
Ela suspirou, e quando tentou encontrar sua figura, ela já havia se dissipado entre a névoa.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Cap. 7 Partida

         Agatha já estava no seu segundo prato de mingau de aveia. Segundo Lena Brown, a mulher que a salvara, estava há três dias desacordada. Era-lhe grata, afinal, as escoriações de seu corpo causadas pela queda já estavam quase sarando.
      - Quem é você? De verdade?
     - Acho melhor você não saber, Lena! - Agatha fugira da pergunta - Pode trazer problemas pra você.
     Agatha analisou mais uma vez a casa. Era a menos pior do que as que sua vista pela janela pôde notar, mas mesmo assim, não passava de um pequeno e sujo casebre. O pai, pescador, já começava a dar sinais de perda da sanidade e constantemente resmungava de sua má sorte, dos deuses, da família real da Água, do Exército do Império do Fogo... A casa só conhecia a limpeza quando a filha voltava do trabalho, no lado leste das Geleiras. No mais, exalava aquele terrível e já permanente odor de peixe. 
     - Acaso está fugindo, Alteza? - perguntou Lena, de sopetão. Agatha paralisou a colher de mingau no ar, estupefata.
     - Por que mexeu nas minhas coisas Lena? Eu não permito que você faça isso, entendeu?
      Lena entendeu que agira errado. Levantou-se da mesa e prostrou-se ante a princesa.
      Agatha também se levantou. Mas aquele gesto, que deveria ser algo comum a uma Princesa, era  algo que lhe incomodava profundamente.
       - Levante-se Lena, por favor!
     - Se prefere assim, Vossa Alteza! - Lena se levantou humildemente, mas ainda continuava com a cabeça baixa.
        - Perdoe-me Lena, eu... eu me expressei muito mal. Na verdade, eu não queria que ninguém soubesse da minha existência por aqui.
     - E por que não Alteza? Vosso Reino é famoso no mundo por ser justo e por combater o Exército do Fogo.
    - Lena, por favor... me chame apenas de Agatha. Saí do palácio justamente por isso. Cansei de ser uma princesa inútil que nem ao menos conhece seu povo! E o povo que por sua vez nem conhece sua própria Princesa! 
     - Imagino que deve ser um choque de realidade, Alte... Agatha!
      Agatha olhou com pena para toda aquela pobreza. O Reino da Água sucumbiu graças à incompetência da Família Real. E se ela fosse incompetente também? Deixaria seu povo sofrer sob as mãos do Imperador do Fogo.
      - Ao menos sabe pra onde vai? - perguntou Lena à Agatha - quando esta já arrumava a bolsa de viagem.
      - Não faço ideia...

      - Avisou seu pai que deixaria a Vila?
      - Deixei um bilhete... Mas creio que ele não tomará partido nisso.
       Agatha olhou com tristeza. Sabia que o sr. Brown estava doente e aos poucos perderia sua sanidade. Lena pareceu adivinhar os pensamentos dela.
        - Há muito precisava sair da Vila da Cascata, mas não tive coragem de fazer isso! - justificou Lena - Meu pai está muito doente, perde o juízo aos poucos... É por isso que eu preciso estudar! Tenho que entrar numa Universidade e ser uma médica.
        A Vila da Cascata... A família Brown... O Reino da Água...  O abandono de tudo. O Reino sucumbira pela covardia de seus governantes. O povo abandonado, entregue à própria sorte. E Lena Brown... a mulher mais inteligente daquela vila, se esforçando pra que se, não conseguindo salvar a vida do pai, ao menos salvar a vida daquele povo inocente, que pagava todo o preço pela ingerência da elite.
     - Mas antes de tentar entrar na Universidade... Preciso fazer uma coisa...
      Lena contou à Princesa a história de sua família. Quando a irmã, Angeline, partira, o pai teve razão. Ela partira da Vila para se tornar uma prostituta nos acampamentos do Exército. Mas não por muito tempo.
       - Ela me escreveu contando que havia conhecido um tenente do Exército e que se casaria com ele. Meu pai, é claro, ficou com mais raiva da minha irmã. Eu recebi mais duas ou três cartas dela, antes do papai descobrir e queimar todas as cartas que eu recebia dela.
        Então a meta de Lena era encontrar a irmã. O motivo era óbvio. Ao pai não restaria muito tempo de vida, pelo menos unir a família era um direito dele.
        Agatha se sentiu no dever de ajudá-la. Afinal, Lena salvara-lhe a vida, nada mais justo que dar a ela um pouco de felicidade.
         
        As duas jovens partiram ao pôr-do-sol sob desejos de boa sorte da Vila. Toda aquela vila apostava no sucesso daquela menina, e colocava sob suas mãos, vidas que poderiam ter sido salvas.

      A sede do Reino Suspenso do Ar ficava no alto daquelas nuvens brancas e fofas. Erguia-se majestoso como um obelisco cristalino nos céus cercado de campos verdejantes apoiado nas nuvens. 
       O garoto de cabelos arroxeados se aproximava do Palácio das Nuvens com passos firmes e determinados. Ao chegar no Salão Real, cumprimentou a Soberana, às voltas com montes de papéis.
        - Majestade... - anunciou-se.
        - Ah, Dimitri, que bom te ver!
      - Igualmente Majestade! - retribuiu o garoto - Lamento não ter vindo antes, estava em missão no leste.
      - O assunto que te traz aqui é extremamente... preocupante.
         Dimitri Braus franziu a testa. 
        -  Registramos um atentado no Templo das Nuvens do Sul. E... e... bem... - sua voz perdeu o imponente tom, assumindo um tom maternalmente preocupado - Agatha não dá notícias há dias... Eu temo... temo...
         - Não tema, Minha Rainha! - tranquilizou-a Dimitri - Apenas me forneça alguns homens, que procuraremos Agatha até o fim do mundo.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

           Milhares de garotas, segundo a mãe, invejavam a vida que Agatha Tess tinha. Um palácio gigante, um quarto cheio de luxos, guarda-costas, roupas e jóias fabulosas... Mas Agatha não se julgava mais que uma simples princesa confinada em seu palácio. Os poucos dias que saía era simplesmente para ficar ao lado da Rainha enquanto discursava. E só.
       Nunca usava a tiara real. Apenas um turbante para esconder seus belos cabelos vermelhos. Aqueles cabelos vermelhos... eles eram o motivo para que a Princesa vivesse reclusa no Palácio.

       Tinha apenas seis anos e se preparava para deixar os estudos particulares do palácio para ingressar na Escola Regular. Conhecer crianças... pessoas novas! Ter amigos que não a chamassem de Vossa Alteza. 
        Suas expectativas foram frustradas logo ao chegar na sala de aula. As crianças a olhavam com perplexidade e até com um pouco de receio. Agatha não se importou, afinal, era a primeira vez que elas viam a Princesa do Reino Suspenso do Ar tão te perto.
       -Oi - saudou a garota, animada. Mas não recebeu nenhuma resposta enquanto a professora não olhou com a cara feia para os alunos.
       Seus dias escolares, para a sua frustração, pareciam piores que suas aulas no Castelo. As crianças, os professores, todos a olhavam com a cara mais esquisita do mundo e tentavam se distanciar o máximo dela, embora Agatha estivesse se esforçando para ser o mais gentil possível.
           Depois de dois anos sendo apenas tolerada, a princesa enfim, começava a se integrar e  a conhecer pessoas diferentes. A primeira, exatamente, não seria uma pessoa diferente, e sim, seu primo distante, Dimitri, quatro anos mais velho que ela.
            - Parece que finalmente as pessoas começam a me aceitar nessa escola - desabafava a princesa.
             - Não fique tão preocupada, Agatha, as pessoas não estão tão acostumadas a ter a Princesa de seu país como colegas de sala!
           - Não é isso Dimitri! Ainda sinto que tem pessoas que não gostam de mim de verdade.
         Agatha se referia a Clara Duboc, que estudava com ela desde o primeiro ano. Clara sempre a tratava com desdém e parecia incentivar as pessoas a se distanciarem de Agatha. A princesa, é lógico, teve essa certeza e foi tirar satisfações com ela.
        - Qual o seu problema comigo? O que eu fiz pra você? - perguntava a princesa.
        - Só não quero você perto de mim! Você dá agouro!
        - Eu??? 
      - As pessoas tem de ficar longe de você, Princesa Amaldiçoada!!
        Agatha não soube explicar o que aconteceu. Apenas que depois de ser ofendida, a colega fora arremessada a alguns metros e seu cabelo chamuscado.
        - Princesa Amaldiçoada! Princesa Amaldiçoada!! - ela chorava - Símbolo do Fogo! Fogo!

        Só depois desse dia que Agatha soube qual era o real motivo de ser chamada de Princesa Amaldiçoada. Conforme Dimitri lhe disse mais tarde, a família real era distinta dos demais pela cor do cabelo, e o da família do Ar era de cor roxa. Além disso, ter dons de fogo não era comum para uma descendente direta do Deus Ar.
        Foi por causa de seus cabelos que ela saíra da escola e terminou seus estudos no Palácio. Agora, aos 18 anos, estava pronta para ir à Universidade. Ou não...
        - Mamãe, não quero ir pra Universidade - contou Agatha à Rainha Amélia.
        - Mas que besteira é essa, minha filha? Como assim você não deseja ir pra Universidade! É uma princesa, tem que se preparar pra um dia ser uma Rainha!
        - Não quero mamãe! Como serei uma Rainha se não conheço o meu povo? Ou pior: se pensam que eu sou uma Princesa Amaldiçoada?
        - Agatha, já conversamos sobre isso, filha... Não há nada de Princesa Amaldiçoada, tudo isso é lenda!
        - Lenda ou não, mamãe, mas por toda a vida vivi confinada nesse palácio! Preciso conhecer o meu povo e sozinha!
        Amélia não teve outra escolha a não ser deixá-la ir. Afinal, de certa forma, ela entendia a filha. Também ganhara o trono de uma hora para outra e foi obrigada a amadurecer para se tornar uma boa Rainha. Não queria que Agatha herdasse o Reino sob as mesmas circunstâncias. Ela estava ficando velha, suscetível a doenças... e se morresse? Sua filha teria que passar pelo que ela passara também?

        Dos dez dias que a Princesa percorreu todo o Reino do Ar, pôde constatar que nas regiões mais afastadas o povo ainda vivia isolado. Alguns até não sabiam quem era o Rei ou Rainha. Agatha percebeu como fora ignorante! Como cometera erros! Aquelas pessoas também eram parte de seu povo, a quem ela deveria proteger! Mas era uma princesa inútil e impotente que nem tinha mesmo o Dom do Ar.
        - Se procura pelo Dom do Ar, precisa ir a um dos Templos das Nuvens. Há um em cada parte do mundo, mas você precisa ter cuidado com o Império do Fogo!
        Agatha decidiu ir a um desses Templos. Precisava aprender o Dom do Ar de maneira mais rápida possível.
        - Qual o Templo mais próximo daqui?
        - O mais próximo daqui é o do Sul, acima das Geleiras. Mas cuidado! Nas geleiras do Sul tem tropas do Império do Fogo!

        Agatha rumou ao Templo do Sul. Estava abandonado há muito, exceto por um monge que persistia em cuidar de um enorme templo sozinho. 
        - Estranho! - disse o monge - A senhorita ser da família real e não possuir o Dom do Ar!
       Agatha sentiu um tremor no Templo. Terremoto? Não era possível, estavam nas nuvens! 
        - Proteja-se princesa! O exército do Fogo! 
        Agatha escondeu-se atrás de uma estátua do Deus do Ar. 
        - Entregue o Templo, monge! - ordenou uma voz masculina, grave. Agatha observou com o canto de olho. Era um soldado vestindo trajes vermelhos, jovem, e de cabelos vermelhos.
       - Príncipe Oliver, não profane o Templo do Deus Ar! - advertiu o monge.
        - Pro inferno com seu Deus! - e dizendo isso, o jovem sacou sua espada e decepou a cabeça de pedra da estátua do Deus Ar. - Entregue-me as chaves do Templo!
        O monge escondeu a chave em suas vestes. O jovem soldado, irritado, mandou seus homens pegarem o que quiserem do templo.
        - Não faça isso, Príncipe Oliver! Não desafie os deuses!
      - Pois avise pessoalmente ao Seu Deus que Oliver Gardner, Príncipe do Império do Fogo, não teme a nenhum Deus! - Oliver sacou mais uma vez sua espada e decepou a cabeça do monge, que rolou até perto da princesa. Ela não se conteve e soltou um grito de horror.
       - Ora, ora, ora! Sobrou uma sacerdotisa?
       - Seu monstro! Como pode não respeitar a crença dos outros?
       - Garota tola!
       - O senhor desrespeitou um acordo! Eu, como Princesa do...
        - Princesa? Então você é uma princesa!! - Oliver retirou o turbante da princesa, revelando seus cabelos vermelhos. - Cabelos vermelhos?
        Oliver atacou a princesa com o Dom do Fogo. Ela não pôde fazer nada a não ser fechar os olhos.
        - Princesa do Ar com Dom do Fogo?
        Agatha abriu os olhos. Não estava morta e sim, vira Oliver com parte da vestimenta chamuscada.
        
        A Princesa desfaleceu com o Dom do Fogo. Oliver a carregou nos braços até chegar na beira do Templo.
        - Preciso me livrar de você, princesinha! Se não ainda vai me trazer problemas! - e dizendo isso, soltou o corpo inerte de Agatha no ar. Se ela caísse em terra ou mar, não importava, estavam no céu, e daquela altura, nem a descendente de Ar sobreviveria.