quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Sentiu-se um tremor. Mas não era a atmosfera criptante de guerra, nem os ventos gelados que cortavam aquela terra.
Velas negras e bandeira flamejante. Assim surgira a fragata do Império do Fogo pelo frio oceano glacial, cuja proa só era possível ver um tripulante: Oliver Gardner. Rasgou o gelo como se rasga uma folha de papel.
Pela rampa do navio, o Príncipe foi o primeiro a descer. Vestia sua armadura e não trazia à mão nenhuma arma, exceto um bastão. Os homens, seus comandados, estes sim, vinham armados até os dentes. E mesmo com a desordem dentro do quartel general, os soldados desciam calmamente, como se estivessem num desfile militar.
- Matem a todos estes desordeiros! - ordenou Oliver - E eu mesmo quero cortar a cabeça do líder!
Por debaixo da capa de tecido grosseiro, trajava as roupas brancas com lilás, o único indício de sua verdadeira natureza. Apesar dos inúmeros avisos, também fazia parte de sua personalidade misericordiosa ajudar os outros quando necessitavam de sua ajuda. E assim, Agatha Tess infiltrou-se entre os soldados, ajudando-os a invadir o Quartel.
- Agatha! - gritou Lena Brown, a primeira a reconhecê-la - Não deveria estar aqui! Julian foi bem claro.
Não precisou que Julian dissesse nada, afinal, ele apareceu logo depois, quando desviara de ataques dos soldados. O objetivo era próximo, só mais alguns metros, e eles chegaram à sala central, onde a vitória seria, enfim, decretada.
- Chefe! - berrou um aliado. Entrara desesperado, chorando como se não estivessem à beira da vitória - Está tudo perdido chefe! O Príncipe chegou com a Marinha Imperial! Mais de mil homens.
O sorriso transformou-se em uma momentânea desolação, que fora substituída por uma sede de luta. Julian passou por entre os aliados, disposto a ir lá fora e enfrentar ele mesmo, o maldoso Príncipe estrangeiro.
Agatha saiu à francesa, antes que Lena ou Julian a repreendessem de estar ali. Ela, que não tinha grandes habilidades de luta, ajudava os soldados feridos, de forma a não deixá-los para trás. Nada ouvira da notícia de estarem os soldados inimigos lá. Mas também desceu ao exterior do quartel, pois a maioria dos soldados estava lá.
O que viu não foi nada animador. Centenas de homens representando o Império do Fogo e dezenas de aliados seus, caídos no chão, ou muito feridos ou mortos. Talvez nenhum pensamento lhe passou pela cabeça, apenas saíra correndo, onde, num clareira formada pelas batalhas individuais travadas, a melhor delas se esboçava. De um lado, um soldado do Fogo com insígnias brilhantes em seu uniforme. Do outro, um rapaz cuja face era marcada por queimaduras e escoriações. Ao redor deles, cada homem travava sua batalha, deixando aquele espaço, uma outra dimensão entre os dois adversários.
Quando a garota chegou, só pôde ver uma grande labareda de fogo saída das mãos do nobre e atingindo o tórax de Julian em cheio.
- Julian! Julian! Fale comigo por favor! Julian!
- Não adianta chorar, garota! - disse-lhe o oponente - Morrerá dentre poucas horas!
Aquela voz. Não, não poderia ser. Tirara o capuz que envolvia-lhe o rosto, e quando olhou para ele, não foi com temor, como na última vez, mas com um misto de pena e raiva.
Oliver pareceu também ficar surpreso. Olhava abismado para Agatha, não com medo, mas... com espanto.
- Não pode ser! Não pode ser! - repetia Oliver com tanta enfâse, para acreditar - Como você está viva? Caiu do céu... e ainda vive?!?!
Das mãos de Oliver saiu mais uma labareda, que Agatha apenas pôde desviar. A princesa rolou pelo chão, esbarrando num corpo de um soldado do Fogo, agonizando de dor. Levantou-se rapidamente e, unindo a ponta do indicador com o outro, conseguiu revidar, criando uma rajada de fogo mais forte ainda que a de Oliver.
Enquanto o Príncipe reagia embasbacado por ser emboscado por uma garota, Julian se levantou. Sacou a espada da bainha e tentou atacar Oliver, que bloqueou usando seu bastão.
- Você não vai machucar a Princesa, Oliver! - ameaçou Julian - Se não, vou ter que tirar sua vida aqui mesmo!
Julian empurrou com seu bastão o oponente que caíra mais uma vez. Agatha aproveitou a brecha para saltar e atingir Oliver com suas unhas.
- Dizem que quando se mata alguém da família real, as almas atormentam nosso sono à noite! Será verdade?
O ar mais uma vez tremulou. Fortes rajadas do vento frio invadiram o campo de batalha; renovou-se o espírito de luta dos guerreiros. Os cavalos brancos, alados e gigantes abriram espaço bem no combate. Era muitos, incontáveis, muito mais de mil. Os homens usavam roupas brancas e lilás com armadura ouro e prata. As mulheres, arqueiras, idem, e ainda usavam um capacete de um azul muito intenso.
- Cabeças...de...ágata? - murmurava Agatha - Isso... Dimitri!!
Montado num cavalo prateado, vinha o comandante daquela tropa: Dimitri Braus.
-Tire suas mãos imundas da Princesa do Meu Reino, Oliver!
Agatha foi atirada para trás. Caiu quase por cima de Julian, que ainda se arrastava.
- Muita petulância sua, infante! - provocou Oliver.
- Você perdeu Oliver! Entregue as Geleiras ao povo em paz e eu deixo que você volte pro seu navio com seus subordinados e seus mortos!
- Jamais sem lutar!
Oliver nem mesmo chegou a atacá-lo. O Prícipe foi arrastado pela multidão de soldados remanescentes e praticamente empurrado de volta ao navio. Ainda se ouviu gritos de advertência e ameças de punição vindos de Oliver, mas se tornavam distantes à medida em que a fragata de Velas Negras se afastava definitivamente das Geleiras.
A madrugada foi dedicada para cuidar dos feridos, inclusive Julian, pois na manhã, os guerreiros do Ar seriam homenageados com um grande café da manhã.
- Por que vocês vieram Dimitri? Como me acharam?
- Vossa Majestade Sua Mãe estava muito preocupada com Vossa Alteza depois do ocorrido no Templo do Sul. Fui encarregado de achá-la.
- Não quero voltar Dimitri, deixei isso bem claro pra mamãe.
- Mas Vossa Majestade sequer pode dar as costas que Vossa Alteza decide fazer uma revolução nas Geleiras? Mais cedo informei à Vossa Majestade que estava pensando em ir à República da Terra. Continua com essa vontade?
Agatha ficou pensativa. Tinha que cumprir sua promessa à Lena, mas se revelasse seus planos a Dimitri, com certeza ele a arrastaria de volta para casa. Confimou com um vacilante aceno.
- Ótimo. A Rainha me pediu para entregar-lhe isso. É um pergaminho para ser entregue ao Rei da República da Terra, Rei, não aos cônsules.
A manhã nascera bela e brilhante, como nenhuma outra manhã. Aquela seria a primeira manhã das Geleiras livres do Império do Fogo.
- Me perdoe Minha Princesa, por não ter te protegido! - desculpou-se Julian - Se algo tivesse acontecido com Sua Alteza, jamais teria me perdoado.
Agatha desculpou-o com um breve sorriso.Terminara seu dever, agora era a hora de partir.
- Coronel Braus, estou lisonjeado com sua ajuda! As Geleiras são infinitamente gratas ao Reino Suspenso do Ar.
- Somos aliados! O Império do Fogo é nosso inimigo maior agora.
Chegara a hora da despedida. Os soldados do Reino do Ar já haviam ido. Lena e Agatha, já arrumadas suas coisas, partiriam de navio para tentar entrar no Império do Fogo. Antes, no cais, a imagem do herói da revolução esperava por Agatha.
- Eu lhe disse Minha Princesa! Que sua ajuda seria muito útil para a nossa causa.
- Acho que eu que deveria lhe agradecer Julian. Graças a vocês, agora começo a entender o papel de uma Princesa.
- Obrigado, Princesa...
- Mas acho que você deveria pensar nisso também, afinal, já que conquistou a Geleira do Sul, nada mais justo que...
- Não posso ser o Rei dessa Geleira, Princesa... A família real da Água ainda existe e mesmo assim... Os reis e rainhas descendem dos deuses Ar, Água, Fogo e Terra. Eu não tenho tal descendência!
Agatha balançou a cabeça tristemente.
- Mas se um dia... se eu unificar todo o Reino da Água novamente... queria ter Vossa Alteza ao meu lado.
Julian se inclinou para alcançar os lábios rosados dela, mas a Princesa apenas deixou-lhe que beijasse seu rosto.
- Não espere por uma Princesa Amaldiçoada!
O navio mercante partiu levando duas jovens clandestinas rumo ao Império do Fogo. Mas não iriam lá para conseguir esmolas dos cidadãos, mas sim para cumprir uma promessa.
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3 comentários:
E dessa vez só se salvaram porque o Dimitri chegou... se não tavam fuuu
Pensei que o Julian era fodinha mas parece que o Oliver é mais que ele
t amo
Viva ao Dmitri \o/
Salvou o povo de se fufuuu...
Hmm... Sabia que o Julian "gostava" da Agatha HAUHAUHAUHAUHAUH
o Julian quase virou churrasco... deviam ter matado o Oliver... era a chance perfeita
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