segunda-feira, 8 de março de 2010
A estalagem aonde estava, com seus quartos de sequoia e seus hóspedes de origem duvidosa, não lhe dava o mesmo conforto que tinha no luxuoso palácio. Mas aquilo pouco lhe importava: O barco para a República da Terra sairia dali a poucas horas. Ainda bem! Já começava a cansar do café da manhã repleto de colesterol que lhe era servido a três dias.
Lena tomava uma xícara de café com leite e lia atentamente o jornal. Nem notou quando Agatha chegou e se sentou, continuava com o olhar vidrado.
- O que tanto você lê nesse jornal? - perguntou Agatha intrigada.
Lena não lhe respondera. Apenas virou o jornal e colocou os dedos entre os lábios.
O rosto de Agatha estava estampado numa página inteira do jornal. Abaixo da foto um lide: PROCURADA. Os "crimes" foram especificados abaixo. Entre eles, a acusação de ter liderado a insurreição nas Geleiras do Sul e a pior: ser namorada de Julian, o "ursupador". O de Lena estava ao lado, porém bem menor, junto com o resto dos rebeldes.
- Meu Deus Lena! - cochichou - O que a gente vai fazer? E se esse povo entregar a gente?
- O problema não é esse povo. - concluiu Lena - O problema é o Exército do Fogo que já chegou aqui.
Lena apontou para a porta por onde alguns soldados chegaram a poucos segundos. Eles se encaminharam para o balcão da estalagem e exibiram ao balconista as fotos. Lena e Agatha subiram de fininho para o quarto e pegaram seus poucos pertences.
Precisavam de um plano. Ir de barco à República da Terra estava fora de cogitação. Era a oportunidade perfeita para serem pegas. Só restavam-lhe uma opção, e ela não seria nada fácil.
Lena arquitetou o plano. Elas venderam a passagem a preço de banana a duas jovens viajantes e compraram outras duas, para viajar de uma maneira bem mais arriscada: montadas em quimeras.
- Levem muita água e comida. - recomendou o vendedor - Atravessar o deserto é muito perigoso.
Estavam no terceiro dia atravessando o Vale das Dunas. Assim era chamado o deserto que dominava a República da Terra. A água não duraria mais que um dia e a comida talvez nem desse para aquele dia. Viajavam em comboio com outras pessoas: algumas mulheres e homens pobres, além de pessoas de índole suspeita.
O chão sob os pés começou a rastejar. Mas não fora o vento, a areia ou simplesmente o cansaço. O chão realmente tremia cada vez mais até derrubar algumas pessoas de suas quimeras. Os rostos das pessoas assumiram um tom de dúvida e desespero como se cada um deles esperasse que alguém soubesse a resposta. Lena, a mente que ali parecia a mais sensata, resolveu assumir o controle da situação e bolar algum plano.
- Calma! - pediu a morena agitando os braços - Vamos ficar calmos e sair daqui!
Mais um tremor se seguiu. Ninguém teve coragem de ver quando a terra se moveu sob os pés de um dos viajantes. Em poucos segundos, centenas, talvez milhares de pequenos pontos se moveram a partir dos pés. Três ou quatro segundos para sobrarem apenas ossos.
- Merda! - resmungou Lena, puxando Agatha pelo braço. As sanguessugas do deserto podiam ser pequenas, mas eram as criaturas mais perigosas do deserto.
O grupo se dispersou, correndo para qualquer lado. Seis ou sete pessoas seguiam-nas, prevendo que Lena era a pessoa mais inteligente do grupo, assim, chances de sobrevivência seriam maiores.
- Pra onde vamos? - perguntou um homem, elegendo Lena como a líder.
- Abismo do Medo - respondeu Lena com segurança - É o único lugar que as sanguessugas do deserto têm medo de ir.
- Por qual motivo será? - perguntou sarcasticamente um dos integrantes - Lá é o Abismo do Medo! O lugar mais mal - assombrado do mundo! Se formos lá vamos morrer!
- Se não quiser ir, então não vá! - concluiu Agatha - Devo presumir que você tem uma solução melhor, não?
O rapaz balançou a cabeça negativamente até segui-los. A pouca comida foi deixada para trás já que poderiam atrair coiotes e outros caçadores.
A noite não tardou a chegar. Acampar foi necessário, assim como fazer uma fogueira. O frio noturno do deserto era equivalente ao frio das geleiras. Agatha cedeu sua barraca à uma mulher grávida e preferiu dormir num saco de dormir improvisado no chão.
- Eu ouvi boatos desse lugar! - contou Agatha à Lena e ao rapaz incrédulo da primeira ocasião - Dizem que abriga as almas perdidas na guerra!
- A Guerra do deserto, sim! - contou o rapaz - Há cem anos, o Exército do Fogo tentou invadir a República da Terra, que ainda se chamava Reino da Terra. Foi a primeira vez que o Exército do Fogo foi derrotado... Mas não por inimigos. Dizem que suas almas pecadoras foram devoradas pelos espíritos das trevas... E então... desde aí... elas atormentam todos os viajantes que passam por aqui!
Agatha olhou para os lados temerosa. A chama bailando na escuridão deixava aquele abismo ainda mais assustador.
- Isso é tudo lenda! - contrapôs Lena.
- A Guerra é lenda, senhorita Brown?
- Não da guerra. - esclareceu Lena - Realmente ela ocorreu e foi essa guerra que deixou o mundo como ele é hoje. O que eu digo é que... o Exército do Fogo realmente foi derrotado, mas não por espíritos malignos ou algo do tipo. Morreram aqui devido a questões climáticas. Além disso, alguns pesquisadores aceitam a hipótese de terem sido devorados por animais e mesmo canibalismo, devido à fome.
- Então senhorita sabe-tudo, por que as ossadas dos homens não foram encontradas?
- Simplesmente porque estamos num deserto. As areias devem ter soterrado as ossadas e não sou eu quem digo... são estudiosos da Universidade da Cidade da Montanha, a mais importante Universidade da República da Terra. Mas reconheço que isso é um mecanismo bem potente contra a invasão de soldados do Exército do Fogo...
- Eu não acredito que uma pessoa possa ser tão cética como você!
Os dois replicavam e treplicavam nos argumentos um do outro. Agatha acompanhava à discussão movendo os olhos de um lado a outro. Mas quando o bate-rebate estava em seu auge, ela tentou levantar a mão, inutilmente.
- Gente... - sussurrava Agatha. Mas os dois continuavam a discutir. - Galeraaa...
- O que foi Agatha? - perguntou Lena, um pouco irritada.
- Vocês não ouviram esse barulho?
Lena fez conchinha com as mãos nos ouvidos. O rapaz repetiu o mesmo movimento.
- Foi só sua imaginação Agatha, quando a pessoa ainda não despertou totalmente...
O rapaz fez um Pssiu. Ele também ouvira algo.
O som parecia algo rasgando o ar. Respiraram fundo. Mas em um tempo não estimado, algo segurou a princesa pelos ombros. Quando ela deu por si, estava a alguns metros do solo, os ombros sangrando.
- Me ajuda! Gente, me ajuda! - gritava Agatha do alto. Vira seu capturador. Um pássaro gigante preto com cinza que cravava suas fortes e afiadas garras em seu ombro. Sentiu a carne despedaçando e segurou com as forças que tinha nas pernas finas e secas da criatura.
No solo, Lena e o outro se jogaram no chão na tentativa de não serem capturados. O garoto tentava afastar com uma tora de madeira queimando em brasa os pássaros. Pessoas assustadas saíam das barracas, mas foram recomendadas pelos dois a permanecerem lá.
- O que é isso? - perguntou o jovem.
- Falcões do deserto! Noite de caça...
Nove indivíduos sobrevoavam a área, visivelmente almejando um dos dois. Agatha voava em círculos, urrando de dor.
- Por que eles ainda estão aqui?
- Só caçam de uma vez! - respondeu Lena - Só vão embora quando pegarem um de nós.
O garoto pegou uma das tochas da fogueira e correu desesperado.
- Ei Lena!! Vou distrair eles! Atira neles!
- Grégor! Você...
Mas o garoto correu com a tocha levando em seu encalço todos as aves. Lena mirou com o arco e flecha. Ela disparou pelo forte vento do deserto.
A princesa fechou os olhos, quando os abriu estava no chão, com seu atacante atingido no olho.
Acordara em uma confortável tenda. O calor era insuportável, mas não tanto quanto o deserto. Lena estava no mesmo quarto, arrumando a mochila com os incontáveis livros que carregava.
- Onde estamos? - perguntou Agatha.
- Cidade das Dunas! Você foi fortemente envenenada pelas garras dos falcões, demorou pra tirar o veneno! Mas mesmo assim, estou impressionada! Faz três dias e já cicatrizou.
- Três dias! - admirou-se Agatha.
- Os habitantes ficaram felizes ao saber que a Princesa está aqui! Trouxeram comida, coma o quanto quiser!
Lena bateu a porta. Provavelmente ficaria um tempão na biblioteca, lendo. Mas enquanto a amiga se divertia, à sua maneira, Agatha não queria ficar à margem da diversão. Quem sabe dar uma andada pela cidade.
Não parecia muito rica, era recoberta de areia, com pequenas casinhas em madeira. Mesmo assim, abarrotada de gente, a maioria aglomerada em torno de mascates comprando tudo. Mas diante daquela paisagem monocromática, era uma tenda colorida que lhe chamava a atenção.
Mal não faria entrar. Era um ambiente com um forte cheiro de incenso no ar. Cortina de miçangas ocupavam a porta. No mais, a tenda era forrada por tecidos vermelhos e alaranjados. Na mesa, a cigana passava seus dedos finos sobre a bola de cristal empoeirada.
- Hã, oi! - saudou Agatha, sem jeito.
- Sente-se Princesa! - disse a cigana.
Agatha se aproximou ainda mais. Sob os dedos finos, anéis de pedras grandes e falsas. Um turbante na cabeça e uma voz fina e etérea.
- O que deseja saber, minha princesa?
- Calma! - pediu a morena agitando os braços - Vamos ficar calmos e sair daqui!
Mais um tremor se seguiu. Ninguém teve coragem de ver quando a terra se moveu sob os pés de um dos viajantes. Em poucos segundos, centenas, talvez milhares de pequenos pontos se moveram a partir dos pés. Três ou quatro segundos para sobrarem apenas ossos.
- Merda! - resmungou Lena, puxando Agatha pelo braço. As sanguessugas do deserto podiam ser pequenas, mas eram as criaturas mais perigosas do deserto.
O grupo se dispersou, correndo para qualquer lado. Seis ou sete pessoas seguiam-nas, prevendo que Lena era a pessoa mais inteligente do grupo, assim, chances de sobrevivência seriam maiores.
- Pra onde vamos? - perguntou um homem, elegendo Lena como a líder.
- Abismo do Medo - respondeu Lena com segurança - É o único lugar que as sanguessugas do deserto têm medo de ir.
- Por qual motivo será? - perguntou sarcasticamente um dos integrantes - Lá é o Abismo do Medo! O lugar mais mal - assombrado do mundo! Se formos lá vamos morrer!
- Se não quiser ir, então não vá! - concluiu Agatha - Devo presumir que você tem uma solução melhor, não?
O rapaz balançou a cabeça negativamente até segui-los. A pouca comida foi deixada para trás já que poderiam atrair coiotes e outros caçadores.
A noite não tardou a chegar. Acampar foi necessário, assim como fazer uma fogueira. O frio noturno do deserto era equivalente ao frio das geleiras. Agatha cedeu sua barraca à uma mulher grávida e preferiu dormir num saco de dormir improvisado no chão.
- Eu ouvi boatos desse lugar! - contou Agatha à Lena e ao rapaz incrédulo da primeira ocasião - Dizem que abriga as almas perdidas na guerra!
- A Guerra do deserto, sim! - contou o rapaz - Há cem anos, o Exército do Fogo tentou invadir a República da Terra, que ainda se chamava Reino da Terra. Foi a primeira vez que o Exército do Fogo foi derrotado... Mas não por inimigos. Dizem que suas almas pecadoras foram devoradas pelos espíritos das trevas... E então... desde aí... elas atormentam todos os viajantes que passam por aqui!
Agatha olhou para os lados temerosa. A chama bailando na escuridão deixava aquele abismo ainda mais assustador.
- Isso é tudo lenda! - contrapôs Lena.
- A Guerra é lenda, senhorita Brown?
- Não da guerra. - esclareceu Lena - Realmente ela ocorreu e foi essa guerra que deixou o mundo como ele é hoje. O que eu digo é que... o Exército do Fogo realmente foi derrotado, mas não por espíritos malignos ou algo do tipo. Morreram aqui devido a questões climáticas. Além disso, alguns pesquisadores aceitam a hipótese de terem sido devorados por animais e mesmo canibalismo, devido à fome.
- Então senhorita sabe-tudo, por que as ossadas dos homens não foram encontradas?
- Simplesmente porque estamos num deserto. As areias devem ter soterrado as ossadas e não sou eu quem digo... são estudiosos da Universidade da Cidade da Montanha, a mais importante Universidade da República da Terra. Mas reconheço que isso é um mecanismo bem potente contra a invasão de soldados do Exército do Fogo...
- Eu não acredito que uma pessoa possa ser tão cética como você!
Os dois replicavam e treplicavam nos argumentos um do outro. Agatha acompanhava à discussão movendo os olhos de um lado a outro. Mas quando o bate-rebate estava em seu auge, ela tentou levantar a mão, inutilmente.
- Gente... - sussurrava Agatha. Mas os dois continuavam a discutir. - Galeraaa...
- O que foi Agatha? - perguntou Lena, um pouco irritada.
- Vocês não ouviram esse barulho?
Lena fez conchinha com as mãos nos ouvidos. O rapaz repetiu o mesmo movimento.
- Foi só sua imaginação Agatha, quando a pessoa ainda não despertou totalmente...
O rapaz fez um Pssiu. Ele também ouvira algo.
O som parecia algo rasgando o ar. Respiraram fundo. Mas em um tempo não estimado, algo segurou a princesa pelos ombros. Quando ela deu por si, estava a alguns metros do solo, os ombros sangrando.
- Me ajuda! Gente, me ajuda! - gritava Agatha do alto. Vira seu capturador. Um pássaro gigante preto com cinza que cravava suas fortes e afiadas garras em seu ombro. Sentiu a carne despedaçando e segurou com as forças que tinha nas pernas finas e secas da criatura.
No solo, Lena e o outro se jogaram no chão na tentativa de não serem capturados. O garoto tentava afastar com uma tora de madeira queimando em brasa os pássaros. Pessoas assustadas saíam das barracas, mas foram recomendadas pelos dois a permanecerem lá.
- O que é isso? - perguntou o jovem.
- Falcões do deserto! Noite de caça...
Nove indivíduos sobrevoavam a área, visivelmente almejando um dos dois. Agatha voava em círculos, urrando de dor.
- Por que eles ainda estão aqui?
- Só caçam de uma vez! - respondeu Lena - Só vão embora quando pegarem um de nós.
O garoto pegou uma das tochas da fogueira e correu desesperado.
- Ei Lena!! Vou distrair eles! Atira neles!
- Grégor! Você...
Mas o garoto correu com a tocha levando em seu encalço todos as aves. Lena mirou com o arco e flecha. Ela disparou pelo forte vento do deserto.
A princesa fechou os olhos, quando os abriu estava no chão, com seu atacante atingido no olho.
Acordara em uma confortável tenda. O calor era insuportável, mas não tanto quanto o deserto. Lena estava no mesmo quarto, arrumando a mochila com os incontáveis livros que carregava.
- Onde estamos? - perguntou Agatha.
- Cidade das Dunas! Você foi fortemente envenenada pelas garras dos falcões, demorou pra tirar o veneno! Mas mesmo assim, estou impressionada! Faz três dias e já cicatrizou.
- Três dias! - admirou-se Agatha.
- Os habitantes ficaram felizes ao saber que a Princesa está aqui! Trouxeram comida, coma o quanto quiser!
Lena bateu a porta. Provavelmente ficaria um tempão na biblioteca, lendo. Mas enquanto a amiga se divertia, à sua maneira, Agatha não queria ficar à margem da diversão. Quem sabe dar uma andada pela cidade.
Não parecia muito rica, era recoberta de areia, com pequenas casinhas em madeira. Mesmo assim, abarrotada de gente, a maioria aglomerada em torno de mascates comprando tudo. Mas diante daquela paisagem monocromática, era uma tenda colorida que lhe chamava a atenção.
Mal não faria entrar. Era um ambiente com um forte cheiro de incenso no ar. Cortina de miçangas ocupavam a porta. No mais, a tenda era forrada por tecidos vermelhos e alaranjados. Na mesa, a cigana passava seus dedos finos sobre a bola de cristal empoeirada.
- Hã, oi! - saudou Agatha, sem jeito.
- Sente-se Princesa! - disse a cigana.
Agatha se aproximou ainda mais. Sob os dedos finos, anéis de pedras grandes e falsas. Um turbante na cabeça e uma voz fina e etérea.
- O que deseja saber, minha princesa?
Marcadores: Abismo do Medo, Lena Brown, Princesa Agatha Tess, Vale das Dunas
Assinar:
Postar comentários (Atom)

3 comentários:
E mais uma vez dona Agatha escapou de morrer \o/
Hmm... O que será que a cigana tem a falar?
A Vicky ainda vai demorar? ._.
A Lena devia participar das Olimpíadas
a Agatha tbm... só se fode
Postar um comentário