domingo, 26 de dezembro de 2010
Os três dias que a ex-princesa fora hóspede daquela cidade fizeram-na concluir que: primeiramente, era uma cidade rica, mas ao mesmo tempo tão pobre! Os homens, as mulheres e mesmo as crianças andavam, por mais insignificante que fosse o lugar, ricamente adornados com ouro, prata e pedras preciosas. No entanto, Agatha não viu naquela cidade vestígio algum de atividade econômica forte, muito menos de presença do Reino do Ar. Ao interpelar a seu anfitrião, obteve a seguinte resposta:
- As pessoas aqui há muito esqueceram a quem devem ser fiéis, srta. Brown.
- Nem mesmo aos deuses?
- Deuses? – estranhou o velho – Poucos aqui acreditam nos deuses. Para eles , só o que existe é a Deusa Noite.
A Deusa Noite, Agatha pôde perceber, era a criatura mais venerada em toda a cidade. Todos agradeciam imensamente a ela por ter transformado Preteus de uma cidade semi-feudal a uma verdadeiro oásis de glória e ostentação.
- Há muito tempo, a guerra passou por aqui. Os homens do Império do Fogo queimaram toda a nossa terra. – contou-lhe o balconista da padaria – Não nascia um só grão. O Exército travou por essa região uma terrível batalha para expulsar os estrangeiros daqui.
- Os soldados ficaram por aqui por dois, três meses. Isso até os guerreiros do Fogo estarem bem afastados! – dizia o farmacêutico – Depois, nos abandonaram. Fomos fadados à miséria, à fome, à humilhação. O Reino esqueceu de nós.
Em todo o lugar, a opinião dos adultos com mais de 30 anos, e mesmo dos jovens (que reproduziam a história contada) era a mesma.
“Nossa terra ficou improdutiva, os preços ficaram exorbitantes.”
”Fomos condenados a passar fome. As crianças morriam de inanição e de doença. Remédio não tinha. Isso pra não falar nos órfãos e nas viúvas”.
“Já ouvi falar de histórias que pais matavam seus filhos por não possuírem comida ou por não aguentar o sofrimento que passamos”.
“Tínhamos fome. Tínhamos sede. Morríamos de doenças, não tínhamos remédios. Nossos maridos ou morreram no campo de batalha ou ficaram imprestáveis. Algumas mulheres vendiam seu corpo aos soldados em troca de algumas moedas. Depois que eles se foram, nem essa alternativa tiveram. O jeito era rezar. E os deuses permaneceram surdos aos nossos apelos”.
Foi aí, que, segundo o povo, surgiu a deusa Noite. Ela vinha todas as noites e trazia pão, leite e remédios para os lares carentes. Depois doava ovelhas e vacas. O povo logo percebeu que ela era boa e ofereciam-lhe parte do que era doado. A Deusa agradeceu a oferta e trazia ainda mais coisas ao povo. Ela despoluiu os rios e lotou-os de peixes. Descontaminou a terra e devolveu-lhe os frutos e a fertilidade. Os doentes amanheciam bons, da noite pro dia. E assim, o povo foi se acostumando com a sua bondade. Ofereceu fidelidade. Ela aceitou.
Mas, segundo o avô de Ezequiel, o povo queria mais. E depois não mais desejava trabalhar. A Deusa Noite atendeu o pedido. E dava de tudo ao povo, que dedicava-se a outras atividades. Ouro, pedras preciosas todos possuíam. A Deusa dava-lhes de graça.
Agatha começava a achar que tinham uma certa razão. A mãe, ou como ela considerava, a mulher que a criou, a Grande Rainha, a Correta e Perfeita. A Justa. A Corajosa. A Benevolente. Essa mulher havia deixado seus súditos na mais completa miséria. E não era só ali. Pelas cidades que já havia passado, Agatha pôde perceber que boa parte dela vivia com grande dificuldade por causa da guerra e de suas consequências. Frequentemente, lembravam de seus dias de glória.
- Não deixe esse povo enganá-la, senhorita Brown. – aconselhava o avô de Ezequiel. – Esse povo é ignorante e preguiçoso. A senhorita não. Eles acham que a deusa dá tudo o que querem de graça, sem pedir nada em troca. Isso não é verdade. Ela cobrará um preço muito caro. Um preço que não poderemos pagar.
Ezequiel entrara correndo pela porta. Ofegante, sentou-se no sofá antes de proferir a mensagem.
- Venham! Vovô, senhorita Brown! A estátua da Deusa Noite já está pronta!
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segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Desde que nascera, Agatha foi criada temente aos deuses que regiam aquela terra. A Deusa-Mãe, mãe de todas as criaturas vivas na Terra, protetora da família, do casamento. O Deus-Pai, criador de tudo o que é visível e o que não é visível. O Deus Sol, amigo da humanidade, protetor da luz, da sabedoria e da vida. A Deusa Lua, deusa das trevas e da escuridão.
Dizia uma antiga lenda, que o Deus Sol se apaixonou por uma mortal e teve com ela quatro filhos: Terra, Água, Fogo e Ar. Cada um era patrono de um país, e deveriam coexistir em harmonia.
- Mas não há harmonia nesse mundo, não é mamãe? – contestava a princesinha – Porque o Império do Fogo é dono de todos os outros países.
Ela, que sempre acreditara nos deuses, agora duvidava de sua existência. Se os deuses fossem piedosos e gentis, por que deixariam seus filhos sofrerem tanto?
O sol começara a se pôr, quando a jovem chegou às portas de um povoado à beira de uma vale desabitado. Algo ali parecia diferente de todas as paisagens que já tinha visto na vida. As estrelas pareciam iluminar o céu com mais força, e os ventos brilhantes dançavam por sobre o povoado.
Cruzou o arco de pedra, onde uma estátua de bronze posava com altivez. Apesar de saber apenas que estava em um lugar longe, não imaginava que seria extremamente provinciano.
As pessoas, principalmente as mulheres, vestiam-se de modo luxuoso. De longe, era possível notar o brilho das jóias, das pérolas, a elegância das vestimentas. Logo, a presença de uma garota maltrapilha foi notada pelos habitantes.
Andou pela avenida principal. Nenhuma daquelas construções parecia-lhe viável economicamente. Afinal, Agatha renunciou ao seu título, ao seu luxo e apenas vagava pelo mundo perguntando quem seria.
Chegou à porta da mais simples estalagem da rua principal. Era um sobrado caiado com desenhos em relevo na madeira clara. Por dentro, motivos florais decoravam o papel de parede cor de malva. Elegantes poltronas cor de creme completavam a sala, marcada pela mobília de madeira claríssima.
- Quanto é o quarto? – perguntou Agatha à atendente – O mais simples, por favor.
- Duas moedas de cobre!
Agatha tirou da velha bolsinha de tecido ordinário algumas moedinhas e deu à moça. Recebeu uma chave delicadamente floreada com ouro e cobre.
Ela levantou cedinho, não por vontade própria, mas pelo barulho que as pessoas faziam pela estalagem e na rua secundária onde seu quarto tinha vista. Ao contrário do que pensara, a cidadela era vívida. Espiando pela janela, viu uma grande movimentação de pessoas pela rua.
Desceu, e foi até a rua. Perguntar aonde estava, que cidade era aquela e de quebra descobrir a razão daquele alvoroço.
- BIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!!! – Agatha ouviu um barulho de sirene ou buzina por alto. Quando recobrou a consciência, estava deitada sobre os braços de um rapaz, não muito mais velho que ela.
- Moça, moça! Moooooçaaa! – ele gritava, sacudindo-a nos braços, como se a agitação fosse ajudá-la a se recompor.
- O q-? Que? Aiii! – Agatha levava a mão à cabeça, enquanto o rapaz a carregava dali.
Ele a colocou num sofá cor de pérola muito fofo. Enquanto o garoto buscava algo dentro e gritava pelo avô, Agatha aproveitava para reparar na casa ricamente adornada com madeira talhada e relevo em formas marítimas. O garoto voltou logo depois trazendo uma taça com água, empurrando-a na garganta de Agatha.
Pela primeira vez, ela percebeu as suaves feições do jovem. Ele tinha um cabelo castanho avermelhado, um tanto quanto bagunçados e cujas pontas estavam um pouco chamuscadas. Seu rosto era de um oval quase perfeito com bochechas muito salientes e salpicadas de sardas pequenas.
- Pronto, você ficará bem. Agora diga alguma coisa. Por favor!
- Estou bem, obrigada. – respondeu Agatha, frente ao nervosismo do garoto – Sério!
- Qual o seu nome?
- Err, o meu nome… – Agatha pensou um pouquinho antes de responder – É Lena, Lena Brown.
- Ok, senhorita Brown. – o garoto deu um risinho aliviado – Por favor, fique aqui, enquanto eu chamo um médico.
- Não precisa. Realmente estou bem.
- Não é daqui da cidade, é senhorita Brown? – perguntou.
- Acho que dá pra notar né?
- É… a propósito, meu nome é Ezequiel.
Segundos depois, apareceu um velho. Uma espécie de predição de Ezequiel cinquenta anos depois. Tinha os cabelos inteiramente chamuscados e vestia um avental branco sujo com substâncias verde neón. Era uma figura totalmente amalucada.
- Quem é essa mulher, Ezequiel? Sua namorada?
- É a senhorita Brown, vovô. – respondeu Ezequiel, vermelho – Eu bem… a atropelei ainda há pouco.
- Pois trate bem dessa moça. Nós não vamos querer que algo aconteça a ela.
O velho limpou as mãos e entrou pelo corredor interno. Ezequiel virou os olhos para a visitante, tentando dar alguma satisfação diante de sua expressão perdida.
- Essa é a cidade de Preteus, caso ainda não saiba.
Logo depois, alguém bateu freneticamente à porta. Ezequiel atendeu e por ela entrou um rapaz com mais ou menos a idade de Dimitri usando uma bela farda azul marinho e alguns emblemas.
- Bom dia Ezequiel. – saudou, tirando o quepe – Que semaninha agitada, hein?
- É…
- Então, vim pra pegar a colaboração da sua família.
Agatha notara que ele era muito, muito bonito. Tinha cabelos muito escuros e olhos de um azul muito profundo. Seu rosto tinha zigomas bem definidos e expressões muito fortes. Teria sido um homem que deixaria até Vicky Valentine excitada.
- Quem é ela? – perguntou o homem, se referindo à Agatha – É sua namorada?
- Não. Eu apenas a atropelei hoje de manhã.
- Ela é muito bonita. – continuou o rapaz, tão naturalmente como se ela não estivesse ali – Se não quiser um romance com ela, poderia apresentá-la a mim.
- Pegue, Artur. Dê o fora, agora!
Artur, o rapaz de farda azul, pegou uma sacola de tecido e conferiu algumas peças. Agatha estava longe, mas viu que eram de ouro puro.
- Então? – disse Ezequiel.
- É, está tudo aqui. Mas e quanto…
- O que foi?
- Não vai mesmo nos apresentar formalmente? – insistiu Artur – Eu e a garota? Quer dizer que pretende iniciar um romance com ela?
- Saia daqui!
Artur fechou a porta com grande insatisfação. Ezequiel resmungou algumas palavras, antes de dizer algo à Agatha.
- Desculpe pela atitude do comissário Artur Negill. Ele está sempre interessado em garotas atraentes e… quer dizer… não ache que esta é… não… não quis dizer que a senhorita não seja.
- Não se confunda.
- É… desculpe…
- Esta é uma cidade muito farta hein?
- Sim. Temos sido abençoados pela Deusa nestes últimos anos. Só graças têm ocorrido a nós.
- Deusa?
- Sim. A Deusa Noite tem sido muito bondosa. Antes, nossa cidade era pobre e recebia pouquíssimos recursos do Reino Suspenso do Ar. Hoje, temos fartura em tudo.
- Então quer dizer que não acreditam nos outros deuses? Digo, no Deus Sol, no Deus Ar, o grande patrono da nossa terra.
- Os deuses nos abandonaram, senhorita Brown. Apenas a Deusa Noite lembrou de nós.
- NÃO BLASFEME CONTRA OS DEUSES, EZEQUIEL!!
Uma voz grave originara-se do interior da casa. Era, outra vez, o avô amalucado de Ezequiel.
- Não vou permitir que você seja mais um dos iludidos.
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