quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
A enorme barriga já começava a cansar a jovem gestante. Não conseguia relaxar e curtir a gravidez; estava muito preocupada com sua situação com os deuses, mesmo tendo o apoio do marido e da Deusa Mãe.
- Como está o bebê? - perguntava-lhe o Deus Sol.
- Parece que está bem. - respondeu a esposa - Só estou me sentindo muito cansada, essa barriga tem um enorme peso.
Raramente Sol e Luz se falavam. Ele pensava que ela ainda estava chateada com o fato de ter sido enganada e por causa dele, perder sua credibilidade com os deuses.
Talvez de lá não enxergasse a bagunça que involuntariamente fora criada pela desobediência do Deus Sol. Mas os deuses, principalmente a Deusa Mãe, estavam preocupados com o sofrimento do povo. As chuvas não necessavam, uma grande enchente se esboçava, as lavouras encharcadas e improdutivas, o povo passando fome e algumas epidemias aproveitavam-se da situação.
Mas enquanto os três deuses estavam ocupados consertando os erros, a Morada dos Deuses estava sob a responsabilidade da Deusa Lua. Naquele dia e naquela noite ela seria a Rainha daquela morada e suas ordens teriam de ser acatadas sob qualquer circunstância.
Luz não conseguia dormir mesmo com a vigilância das Virgens celestes, servas da Deusa Mãe, encarregadas de proteger a humana em caso de alguma liberdade da Deusa Lua.
Era noite, a noite que era a serva dela. A Morada foi banhanda pela luz da Lua, que conforme a mortal soube, era a própria água que banhava a Deusa. Ela provavelmente tomava seu banho noturno de fragrâncias, mirra e leite; Luz fora dormir mais cedo; não queria dar razões para provocar a Deusa.
Cubriu-se até a cabeça com seus lençóis de cetim branco embora a noite estivesse quente. Dedicou-se a todo custo a fechar os olhos e a dormir o mais breve possível e rezar para que quando acordasse, Sol estivesse já ao seu lado.
Logo verificou suas vãs tentativas. Um de seus olhos teimou em abrir e quando o fez, espantou-se com a fantasmagórica figura extremamente alva, apenas iluminada por um feixe de luz lunar. Aquele ar lhe conferia um visual macabro e as palavras saídas de sua boca só reforçaram isto.
- Boa Noite, pequena mortal! - sibilou Lua.
Luz se levantou com a dificuldade que a barriga de oito meses lhe impunha. Ela tentou se desvencilhar, mas a mão esquelética e branca da Deusa lhe impedira.
- Estás com medo, pequena humana? Medo do que eu possa lhe causar?
- Não - respondeu firmemente.
Lua soltou-lhe o braço. Agora se levantava com seu vestido de tafetá azul escuro e bailava estranhamente pelo quarto.
- Deverias ficar então! - ameaçou - Os teus deuses não estão aqui! Hoje sou eu quem manda nesse Palácio. Minha palavra é lei.
Luz se recolheu a um canto, mas a Deusa se aproximava dela com mais perigo.
- A culpa é minha... Deveria ter te matado há muito tempo! Ou não... Serias morta se não fosse pela minha mãe. De qualquer forma, meu pai é justo! Vai-lhe punir com uma coisa muito pior que a morte! Tu serás banida para o Submundo! Ficarás com as almas pecaminosas e sujas!
- Saia do meu quarto! - gritou a grávida - Saia!
Lua atendeu ao pedido. Mas não saiu antes que fizesse mais uma ameaça. Ou pior, lançasse uma maldição.
- Teus filhos com o Deus Sol não serão humanos, não serão deuses! Serão aberrações e nada mais! E tu, morrerás ao parir essas bestialidades!
Aquela foi a gota d'água. Luz pulou sob a Deusa e arranhou-lhe o rosto. Lua gritou perante ao sangue, não era vermelho como o dos humanos, era negro e brilhante.
- Não penses que ficarás impune, sua mortal nojenta!
Se pudesse voltar atrás naquela noite, Luz com certeza teria voltado. Ela percebeu, no dia seguinte, que aquilo era uma manobra da Deusa para fazer sua situação piorar ainda mais. Foi salva, mais uma vez, pela bondade da Deusa Mãe, que conseguiu adiar seu julgamento para depois do parto.
- O senhor vai deixá-la passar sem punição meu pai? - choramingava Lua falsamente - Eu apenas fui lhe desejar uma boa noite e ver como estava o bebê quando ela me atacou! A insanidade devora esta mulher!
- É mentira, senhor Deus Pai - se defendeu Luz - Foi ela! Ela veio em meu quarto me provocar e me rogar maldições!
Seus esforços foram em vão. O Deus Pai preferiu acreditar na aparentemente inocente Deusa Lua que dar razão a uma mortal pecadora.
Fazia muito calor, mas os filetes de suór em seu rosto avermelhado vinham do esforço do parto. Apertava as mãos do marido e da Deusa Mãe, enquanto as servas dos deuses faziam o parto.
- Tenha calma criança, tenha calma! - pedia a Deusa Mãe.
Felicidade. Essa era a palavra que definia sua vida agora. A felicidade de ver seus quatro filhos, duas meninas e dois meninos, nascidos com saúde e não em forma de aberrações, como a Deusa Lua havia lhe rogado.
Felicidade também fora a última palavra de sua vida. A partir daquele momento sua vida seria só felicidade, mesmo que somente por alguns minutos.
- A culpa foi tua! - gritou o Deus Sol, invadindo o Palácio de Lua e esganando-lhe pelo pescoço -Víbora! Peste! Louca!
Lua não tinha forças para brigar com o irmão. Foi salva pela chegada do Pai e da Mãe.
- Sol, o que estás fazendo? - perguntou a Mãe, surpresa - Ficastes louco?
- A culpa foi dela, mãe! - Sol acusava com um pequeno caderno nas mãos - Luz está morta e a culpa é dela!
Lua desabou no chão, fazendo o teatro de sempre. Chorou e balançou a cabeça, como se estivesse sendo acusada de um crime que não cometera.
- Humanos morrem, Sol - explicou o pai - É da natureza deles. Humanos Morrem!
- Luz escreveu! Essa maldita lhe lançou uma maldição! Olhe o que ela escreveu!
A Deusa Mãe pegou o caderno e passou os olhos sob a letra da falecida gestante. Em seguida, passou ao marido, que assumiu uma postura de ira.
- Não és uma deusa, és um demônio!
Lua, percebendo que seu teatro não adiantaria, levantou-se impetuosamente e retirou a máscara que sempre usara na frente dos pais.
- Ela morreria de qualquer maneira! Eu apenas acelerei...
- Monstro! - Sol voltou a pular no pescoço da irmã.
- Não lhe dei autoridade para julgar a moça e muito menos para colocares a culpa nos filhos dela! - ralhou o Deus Pai.
- Apenas fui justa, meu pai! Aquelas crianças nojentas são fruto do pecado! O pecado deve ser aniquilado do mundo!
Sol ajoelhou-se aos pés do pai. Depois da morte de Luz, no parto, e da transformação de bebês perfeitos em quatro aberrações, ele invejava a condição de mortalidade de humanos. Sua eterna vida não teria sentido depois daquilo.
- Pai, tens de salvar meus filhos! Eu imploro!
O Pai olhou para a Mãe, que chorava de pena ou de raiva.
- Abro mão da minha mortalidade! Salve os meus filhos, e a alma de Luz, apenas isso.
O Deus Pai não teve alternativa senão conceder-lhe o pedido. Com apenas um toque em sua cabeça, Sol transformou-se em infinitos raios de luz, para o desespero de Lua.
- NÃÃÃÃÃOOOO - gritou - Eu fiz isso por amor! Por amor a ti, Sol!
Seus apelos não adiantaram. Sol abriu mão de seu lugar como Deus e como Imortal. Apenas para salvar a alma de sua amada e de seus filhos.
O Deus Pai ficou com um ar extremamente desgostoso no rosto. Ficara decepcionado com a conduta da filha, uma deusa exemplar.
- Não serás mais deusa. De agora em diante, não serás mais a Deusa da Lua, somente, serás a Deusa da Morte e da Escuridão. Não viverás mais na Morada dos Deuses, ficarás confinada na Lua, o teu mundo, repleto de sombras.
Lua reagiu com desprezo.
- Estão me exilando? Muito bem, meu pai! Mas com teus filhos longe, não haverá ninguém para governar o teu reino! E eu terei filhos e com eles assolarei teus humanos com todo o Mal do mundo!
Sem filhos para governar o mundo, o Deus Pai e a Deusa Mãe decidiram dá-los a seus netos. A cada um foi dado um poder, Água, Ar, Fogo e Terra. E a cada um foi-lhe dado uma parte do mundo. Se antes era único, agora foi dividido em quatro partes iguais, e a montanha dos deuses, em quatro montanhas que seria o mausóleu de cada semi-deus. Não morreriam como reles humanos, apenas voltariam às suas formais nominais, e seus filhos governariam seus reinos, assim como seus netos, seus bisnetos e assim por diante.
No mundo, como a Deusa Lua amaldiçoara, surgiram a Maldade, a Guerra, a Tristeza, a Loucura entre outros males. Os descendentes do Deus Sol nascidos do ventre de uma humana, afastaram-se um dos outros e levantaram as mãos uns contra os outros. Haveria alguém predestinado a unir novamente o mundo?
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3 comentários:
E no final do prelúdio todo mundo se ferrou Vc criou mesmo o fim do mundo
Amo vc
Fiquei com peninha da Luz
Cara, a Lua é muuuuuito hija de puta ¬¬'
=****
e a Lua se fudeu
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